terça-feira, 7 de novembro de 2017

Douglas Belchior retorna ao EUA para denunciar genocídio negro e propor rede continental de luta antirracista


O Brasil vive uma guerra. Um processo permanente e continuado de genocídio de suas populações originárias, a indígena e a dos descendentes de africanos escravizados. Os números de assassinatos de negros no Brasil confirmam. Estamos em meio a um conflito que atinge, desproporcionalmente, seguimentos da população brasileira.

Pobres de maneira geral estão mais expostos. Mas são os negros, o alvo objetivo do massacre. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 61.619 pessoas foram mortas em 2016. Este número equivale às mortes provocadas pela explosão da bomba atômica em Nagasaki. Entre os anos de 2011 a 2015, 279 mil pessoas foram assassinadas, mais do que matou a guerra da Síria no mesmo período, 256 mil. Em média, metade das pessoas assassinadas a cada ano no Brasil tem idade entre 15 e 29 anos. Destes, 77% são negros. A maioria dos homicídios são praticados por armas de fogo e menos de 8% chegam a ser julgados. As taxas de encarceramento, como fruto de uma política de guerra as drogas, aumentaram muito nos últimos anos. As vitimas desse sistema são, mais uma vez, principalmente os jovens negros.

Hoje são 608 mil presos, crescimento de 161% desde o ano 2000. Mantido o ritmo, teremos mais de 1 milhão de pessoas encarceradas em 2022. Quase todos pobres. Imensa maioria de negros.

Não há novidade histórica nesses fatos. Desde o fim da escravidão mercantil, no final do século 19, a principal marca do protesto negro tem sido a denúncia da violência do estado, da truculência da polícia e da forma como a vida negra merece menos cuidados e direitos humanos. O professor e militante histórico do movimento negro, Abdias do Nascimento, em sua trajetória de construção da Frente Negra Brasileira, do Teatro Experimental do Negro e da fundação do MNU, foi precursor das denúncias sobre o genocídio negro no Brasil. E daí por diante, tem sido esta a premissa da resistência negra brasileira: Denunciar o óbvio, aquilo que, embora nítido, é ignorado, invisibilizado pelas elites, pela classe média, pela classe política e até mesmo nos espectros das organizações progressistas, de esquerda e de defesa dos direitos humanos, o massacre negro que ocorre cotidianamente no Brasil, seja pelo ataque direto aos corpos, através das políticas de segurança pública, da violência policial, do super encarceramento e dos homicídios; seja pela negação de direitos sociais, econômicos e políticos.

Ativista negro leva denúncia do genocídio à fóruns de debates

O exercício da denúncia, acompanhado da elaboração de um projeto político do povo negro tem sido promovido por novas organizações, grupos, coletivos e indivíduos negros em nossa contemporaneidade. Dentre diversos e potentes atores desta tarefa histórica, se destaca a figura de Douglas Belchior e sua organização política, a Uneafro-Brasil. Professor de História e editor do Blog Negro Belchior, na revista Carta Capital, Douglas tem dedicado sua trajetória, os ultimos 20 anos, à organização da luta antirracista no Brasil. Tem sido, nos últimos anos, uma das principais vozes de provocação pública em torno do entendimento do racismo enquanto elemento estruturante das desigualdades, dos conflitos e de toda a sociabilidade brasileira.

Pela terceira vez neste ano de 2017, Belchior levará para fóruns internacionais as denúncias do genocídio negro perpetrada historicamente pelo estado brasileiro. Desta vez a convite da Brown University, por meio dos professores James Green e por Ramon Stern, coordenadores do Brazil Initiative and Brazilian Studies Association. Green, ativista e cientista político, ficou nacionalmente conhecido por assessorar a presidente Dilma Roussef, em sua jornada pelos Estados Unidos para denunciar o golpe de 2016.

Douglas Belchior ministrará, no dia 6 de Novembro, Conferência intitulada “Uneafro Brasil: Education and the Struggle for Social Justice”, com o objetivo de apresentar a história de luta da entidade da qual é membro fundador. No dia 7 novembro de 2017, será parte de uma atividade da qual é co-organizador, um debate sobre “Resistance to Black Genocide in the Americas”, numa mesa composta também por ativistas de muita referência: Kleaver Cruz, criador do The Black Joy Project e membro do Black Lives Matter; Zaire Dinzey-Flores, professora de Sociology and Latino and Caribbean Studies na Rutgers University; Mary Miller Flowers, Coordenadora para assuntos de Justiça Criminal of Open Society Foundations; E professora Keisha-Khan Perry do Department of Africana Studies at Brown University.

A agenda continua nos dias 08 e 09 de novembro, quando Belchior estará na Columbia University, para compor o ciclo de debates “Democracy?: Race, Gender and Violence in Brazil, Colombia and the United States”, ao lado de Susana Maia, professora da Universidade Federal do Recôncavo Baiano, UFRB; Marcos Valeria, do Defender Democracy in Brazil e Jaime Alves, Antroplogo pela Universidade de Austin e professor de CUNY-CSI, CEAF-ICESI.

A participação de Douglas Belchior neste ciclo de debates é de fundamental importância, tendo em vista que o coloca numa linha histórica de diálogos entre militância negra e intelectuais e brasilianistas estadunidenses. No campo das desigualdades raciais, a Universidade de Brown é um celeiro de acadêmicos que trouxeram interpretações teóricas inovadoras sobre a temática. Dentre eles se destacam: George Reid Andrews, que além dos estudos comparados sobre as desigualdades raciais no Brasil e Estados Unidos, ofereceu também importantes releituras das principais teses do sociólogo Florestan Fernandes. Outro brasilianista da mesma universidade, Jerry D’Ávila, é autor de “Diploma de Brancura”, um estudo fundamental sobre desigualdades raciais e eugenia na educação brasileira no século XIX. A Brown University, na figura do professor Anani Dzidzienyo, abriu as portas para Lélia Gonzales e Abdias do Nascimento, dois militantes históricos da luta negra brasileira. Vale destacar que o professor Anani Dzidzienyo continua seu trabalho de profícuos diálogos com a luta negra brasileira a partir da presença de Belchior na Brown University. Esse diálogo se amplia também com a professora Keisha-Khan Perry, importante intelectual no campo de gênero e movimentos sociais no Brasil.

Sobre as participações em Conferências em Harvard, Atlanta e Nova York

Em abril deste ano, Belchior esteve na Brazil Conference, realizada pela Harvard University e pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology). Nos dias sete e oito de abril, importantes figuras nacionais situadas em distintos pontos dos pólos direita-esquerda foram convocadas para pensar a conjuntura política brasileira pós-impeachment. Assim, foram reunidos em torno deste debate nomes como o de Dilma Roussef, Sérgio Moro, Eduardo Suplicy, Gilmar Mendes, Djamila Ribeiro, Aurea Carolina, Wagner Moura, e um sem número de outras referências. Douglas Belchior também compôs o conjunto de conferencistas, na condição de liderança do movimento negro brasileiro.

Mais recentemente, entre os dias 10 a 14 de outubro deste ano, voltou aos USA em função de seu trabalho junto ao Fundo Brasil de Direitos Humanos, em parceria com a Open Society Foundation. Nesta ocasião participou de duas grandes conferências sobre Segurança Pública, Justiça Criminal e Políticas de Guerra às Drogas, este último, principal instrumento de promoção do super encarneramento e homícidios de negros em todo o continente americano.

Conferência sobre Educação – Brown University


EVENTO no Facebook:

Debate sobre Resistências ao Genocídio nas Américas – Brown Universitya href=”http://watson.brown.edu/brazil/events/2017/resistance-black-genocide-americas” target=”_blank” rel=”noopener” data-saferedirecturl=”https://www.google.com/url?hl=pt-BR&q=http://watson.brown.edu/brazil/events/2017/resistance-black-genocide-americas&source=gmail&ust=1510062141515000&usg=AFQjCNE5rtFMOgRO2lZ0NHhp9ZaVXa_Vig”>http://watson.brown.edu/brazil/events/2017/resistance-black-genocide-americas


Mais sobre Douglas Belchior

Prêmios

Prêmio Almerinda Farias Gama – Smpir – Prefeitura de São Paulo, 2016

Prêmio Zumbi dos Palmares – S.O.S. Racismo – Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, 2016

Prêmio Dr. Benedicto Galvão – OAB-SP, 2015

Prêmio Movimento Nacional de Direitos Humanos, 2015

Prêmio Virada Sustentável-Catraca Livre, 2014

Fontes


Manos e Minas – TV Cultura – https://www.youtube.com/watch?v=Pkncb8XCRUo


Abujamra – TV Cultura – https://www.youtube.com/watch?v=aspy6rvV4G8

Convidados Brasil Conference 2017 – http://brazilconference.org/2017/en/speakers/

Brasil Conference – exposição: https://www.youtube.com/watch?v=3D9tq5BrVXQ

Atividades em Atlanta e Nova York – Justiça Criminal e Segurança Pública:
unidos/

Sobra a autora

Viviane A. Pistache – Psicóloga doutoranda em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Integra o projeto Pretas Dramas.


Por Viviane A. Pistache, enviado para o Portal Geledés
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