quarta-feira, 5 de julho de 2017

Pela 1º vez, USP aprova cotas raciais e sociais no vestibular

Meta é ter 50% de calouros da rede pública até 2021 e, dentro desse grupo, ter 37% de estudantes pretos, pardos e indígenas

Cidade Universitária. Com mais de 94 mil alunos e 6 mil professores, USP tem 11 câmpus Foto: BETO BARATA/AE

Pela primeira vez na história, a Universidade de São Paulo (USP) terá cotas no vestibular para alunos de escola pública e pretos, pardos e indígenas (PPI) em todos os cursos. A meta é ter 50% de calouros da rede pública até 2021 e, dentro desse grupo, ter 37% de estudantes PPI. A decisão já vale para o próximo processo seletivo. 

A medida foi aprovada nesta terça-feira, 4, pelo Conselho Universitário (CO), órgão máximo da instituição. A universidade vai manter a Fuvest, a prova de ingresso tradicional e o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como métodos de entrada. 

Cada curso poderá reservar, no máximo, 30% de suas vagas para entrada via Enem. De acordo com a resolução votada nesta terça pelo CO, a inclusão de alunos de escola pública será feita de modo escalonado. 

Em 2018, a meta é ter 37% de ingressantes de escola pública em cada faculdade. No ano seguinte, 40% em cada um dos cursos. Já em 2020 serão 45% em todos os cursos e todas as turmas da USP. E, em 2021, 50% em todas as graduações e classes da universidade. O porcentual de 37% de PPI é definido de acordo com a distribuição populacional por raça no Estado de São Paulo, medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Cada curso terá autonomia para distribuir as cotas entre a Fuvest e o Enem. As metas de reserva de vagas consideram as cotas dadas em cada um dos métodos de ingresso. Pelo Enem, as vagas são disputadas pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), plataforma do Ministério da Educação que reúne cadeiras no ensino superior público. 

A proposta original da reitoria não fixava uma reserva de vagas específicas para PPI. O que foi alvo de críticas de professores e alunos nos últimos dias e durante a reunião do CO. 

Após anos de pressão dentro e fora da comunidade universitária, a USP é a última a aderir às cotas entre as estaduais - a Unicamp aprovou reserva de vagas em maio deste ano e a Unesp, em 2013. Já o ensino superior federal usa cotas desde 2012. 

Em 2013, a reitoria havia assumido o compromisso de ter metade dos alunos de escola pública entre seus ingressantes até o ano que vem. Com o plano aprovado nesta terça, essa meta é adiada em três anos. 

“É emblemático, porque representa a universidade - que tem liderança no País e muita visibilidade - assumir que esse é um problema importante do ponto de vista de integração de nossa população”, declarou nesta terça o reitor da USP, Marco Antonio Zago, após o conselho. 

Zago admite que a novidade vai demandar mais recursos para a permanência estudantil e a USP precisará de ajuda financeira do Estado para conceder bolsas aos alunos de baixa renda. A demora em aprovar a mudança, diz ele, se deve ao perfil divergente entre as unidades. “A USP é muito heterogênea na sua origem, na vida acadêmica das unidades.” 

Esperança. A mudança renovou a esperança de vestibulandos que antes viam a USP como um sonho distante. Ewelyn Jacinto de Souza, de 17 anos, sempre estudou em escola pública e desde pequena deseja cursar Medicina na instituição. 

“Em alguns momentos, cheguei a pensar que não conseguiria passar em Medicina. Agora, com as cotas, sinto que está mais acessível porque vou competir com pessoas que tiveram oportunidades parecidas com as minhas. O que estou aprendendo no cursinho é muito diferente do que vi na escola. É muito mais difícil”, afirma a adolescente, que, além de frequentar a escola e o cursinho, ainda estuda duas horas por dia em casa. 

Filha de um motorista de ônibus e uma pedagoga, Letícia Lopes Rosa, de 16 anos, também conta que seus colegas de escola - uma Etec - não vão prestar a Fuvest por acreditarem que não têm chance de entrar. 

“Quero cursar Medicina e estou me esforçando muito para isso. Meus amigos acham que é impossível para alunos de escola pública entrar na USP, mas eu acredito que com as cotas eles vão ficar mais confiantes.”


Luiz Fernando Toledo e Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo
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