segunda-feira, 3 de julho de 2017

Para livreiro, cultura não precisa de ministério


FOTO IARA MORSELLI/ESTADÃO

Pedro Herz, da Livraria Cultura, diz que
o País precisa mesmo é de uma educação de qualidade,
para que pessoas se habituem
a ler — e depois se enriqueçam culturalmente 

Dono da Livraria Cultura, uma das maiores redes do País, Pedro Herz admite que não sabe o que esperar do futuro. Apesar da sua história de sucesso durante os mais de 70 anos de vida do grupo, ele hoje renegocia pagamentos com editoras e briga para manter lojas abertas. “Os caras estão dobrando o IPTU sem muita explicação”, lamenta, sem entrar em detalhes sobre faturamento ou custos. Herz estuda também o que fazer com as hoje obsoletas seções de DVDs e CDs que ocupam espaço. “O mercado de livros está em crise, sim. Não tem por que dizer que não. Aliás, você sabe de algum setor que não esteja sofrendo, a não ser o dos criminalistas? (risos)”, pergunta. Para ele, o Brasil vai muito mal na escola. “Temos as piores notas e isso se reflete no consumo de livros”, contou durante entrevista, em seu escritório da Avenida Paulista, à repórter Marcela Paes.

Paulistano e morador do centro, Pedro acha que a cidade “está piorando desde sempre’. Costumava andar de bicicleta no tempo do bonde, mas hoje tem medo e só usa bike quando viaja ao exterior. “Nada funciona em São Paulo. A buraqueira que tem não me deixa sossegado.” Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Por que as pessoas não estão lendo? São as redes sociais que atrapalham?
É impressionante o quanto o mundo adoeceu com mídias sociais. Acho que elas não acrescentam. Porque as pessoas deixaram de ouvir. Digitar é falar. E eu vejo um comportamento nas pessoas que me incomoda muito: no cinema, no concerto, incapazes de ouvir a música. Fala-se pelos cotovelos. Fala-se em voz alta. Eu saio com amigos pra almoçar e não consigo mais conversar a partir de uma certa hora porque se tomou vinho. Começa-se a berrar.

O MinC tem cada vez menos dinheiro. Isso interfere na formação de leitores?
A maneira de fazer política está errada. No meu entender, cultura é a maneira que eu tenho de enriquecer o meu saber. Que saber eu tenho pra ser enriquecido se eu vou tão mal na escola? Para que precisamos de um Ministério da Cultura? Melhor ter um bom ministro da Educação para ter gente que lê e depois falarmos de cultura. Fazer essas tais de Viradas Culturais no Brasil inteiro… o que elas trazem? Nada. Bebedeira. É muito mais virada etílica do que qualquer outra coisa. É uma ofensa à palavra. Elas não trazem nada.

Em certos momentos o mercado esteve mais otimista e a Cultura abriu muitas lojas. Existiu uma projeção não concretizada?
Houve uma somatória de desmandos que aconteceram e que surgiram com a entrada do Lula no governo. O País se desarranja já naquela eleição. Eu lembro que o dólar disparou, diziam até que nossas casas iam ser invadidas e todas aquelas histórias. São muitas coisas somadas ao mais grave: o custo Brasil. A máquina estatal brasileira faliu. Se fosse possível privatizar o Estado, eu diria que essa é a solução.

É a favor da atual proposta de reforma trabalhista?
Total. Ninguém tem 30 dias de férias com 11 meses de trabalho, gente. Só no Brasil. E querem que este seja um país de Primeiro Mundo.

E das eleições diretas?
Diretas agora não. Ela têm que caber na Constituição, aí sim. Qualquer coisa que fira a Carta eu já fico meio…

Foi um bom negócio abrir lojas em shoppings?
Sim, porque só aceitamos entrar na condição de âncora. Mas hoje não faria lojas tão grandes. Não tenho mais como fazer uma loja desse tamanho sem CD e DVD e tudo mais. Aqui na Paulista a gente fechou uma loja que era só de arte porque eu coloquei CD e DVD pra dentro. Então o que eu vou botar lá? Não tenho o que fazer. Também não quero vender mostarda dijon ou tomate-caqui. Não é minha cara.

Livreiros antigos montavam as vitrines conforme seus gostos. Como são organizados os destaques na Cultura?
É o momento. É uma questão de espaço. Todo mundo chega pra mim e fala: “Você tirou meu livro da vitrine. Por que não põe o livro na vitrine?’ A resposta é sempre a mesma: “E o que eu faço com as estantes?” Não cabe tudo na vitrine.

Existe a venda de espaços de destaque na livraria? 
Não é bem uma venda de espaço. É uma promoção que uma editora resolve fazer oferecendo alguma vantagem. Então se eles oferecem um desconto maior ,a gente repassa esse desconto. É uma decisão comercial.

Você teve um programa de entrevistas na televisão e agora tem o Sala de Visita, no YouTube? Por que a mudança?
Eu fazia no Arte 1 o ComTexto. Tinha vontade de subir os programas pro YouTube e eles não deixaram. Então eu pensei, “bom, vou parar”. Queria que o material ficasse no ar, que as pessoas pudessem assistir. O que eu fiz lá agora está perdido, ninguém mais vê. Triste. E o YouTube me paga. Não sou funcionário deles, mas ganho dinheiro com o programa.

Os entrevistados do programa são do meio literário. Escritores, editores…Você tem alguma entrevista preferida?
Muitas foram legais. Que eu me lembre agora a do (filósofo Luiz Felipe) Pondé… Eu gosto muito de fazer o programa. A ideia é conversar sobre a indústria editorial. Alguém que chegava dizendo: “eu tenho um livro. O que eu faço?” A indústria é muito maior do que isso.

Depois de presidir o Teatro Cultura Artística por um bom tempo, você decidiu ir embora. Como foi?
Presidi até o ano passado, mas depois de 14 anos falei: chega. Eu não quero me perpetuar num cargo. Quero trocar. O mundo tem que ser assim. Troca. Eu participei da montagem do projeto de reconstrução do teatro (o Cultura Artística foi praticamente destruído em um incêndio em 2008). E depois que estava pronto eu cheguei à conclusão de que ele era absolutamente inviável.

Por quê?
Já estava em R$ 190 milhões quando eu saí. Onde eu vou buscar isso? Então estão refazendo o projeto. Não é possível fazer assim. O projeto está lá aprovado, poderia começar hoje. Hoje não, porque já está autorizado e publicado, só precisa aparecer recurso. Mas não vai aparecer.

Você sempre morou em São Paulo. O que acha do momento atual da cidade?
Desde que eu existo a cidade só vem piorando. Você pode melhorar alguma coisa pontual em algum lugar. Faz uma praça, alguma coisa. Mas acaba transferindo os problemas de lugar. Eu aprecio a tranquilidade de acordar às três da manhã e poder dar uma volta. Isso pra mim é qualidade de vida, mas não consigo mais fazer isso em São Paulo. Não dá mesmo. Eu vivo com pouco, sou modesto. Meu carro tem nove anos. Eu tenho medo de andar de bicicleta por isso, mesmo com a ciclofaixa.

Como assim?
Eu andava de bicicleta no tempo do bonde. Eu tenho medo hoje, não ando mais. Aqui. Eu ando de bicicleta quando vou pra fora, aí alugo bicicleta. Vou pra Berlim, pego a bike e vou embora. Vou ver museus, estaciono, amarro ela num canto lá e faço tudo o que quero.

Muitos comerciantes da Avenida Paulista reclamaram da queda de movimento quando a via fica fechada para o lazer. Você teve esse tipo de problema?
Sim. Façam rua de lazer, mas não prejudiquem todos os cinemas, os teatros, as pessoas que precisam dos automóveis. E depois, no Rio de Janeiro já fizeram: tem duas pistas em Copacabana e uma delas é aberta e a outra fechada. Normal. Divide o espaço. Aqui tem um comércio na rua de umas coisas no domingo, sabe lá o que você está comprando.

Essa mudança prejudicou o movimento da livraria?
Total e brutalmente. Ninguém vem com dinheiro e cabeça pra comprar nada. Você vem com o troco no bolso e acabou. Medo de ser assaltado, tudo isso. Quem está lá para caminhar não sai com a cabeça para comprar.

Qual a melhor coisa de ser livreiro?
A melhor é trabalhar com clientes com quem você tem diálogo. As amizades que faz. Se eu vendesse camisas, não teria essa relação. É o relacionamento.

E a pior?
A pior parte é o interesse das pessoas. Imagina se você fosse atriz, fizesse teatro e não tivesse ninguém pra te ver? Também me incomodo com o atual estado das coisas. Fizeram um acampamento dos sem teto aqui do lado há um tempo. Os caras acamparam aqui e vi, de perto, muita sujeira e desconfortos. Isso me incomodou… O País está indo pra baixo. As pessoas estão indo pra baixo. Isso é visível.


Via Estadão
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