quarta-feira, 26 de julho de 2017

'No seu pescoço', de Chimamanda Ngozi Adichie é um convite à empatia. Leia um trecho

Editado pela Companhia das Letras, compilado de contos chega às livrarias brasileiras nesta terça-feira (25).
Publicado originalmente em inglês em 2009, No seu pescoço (The Thing Around Your Neck, em título original), primeiro livro de contos da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, chega às livrarias brasileiras pela editora Companhia das Letras nesta terça-feira (25).


DIVULGAÇÃO/COMPANHIA DAS LETRAS

O livro tem todos os elementos que fazem de Chimamanda, autora do aclmado Americanah (2013), uma das principais vozes da literatura contemporânea. Em doze contos, ela reúne protagonistas mulheres e homens nigerianos para fazer questionamentos sobre opressões, machismo, racismo e nacionalismo.

Combinando técnicas da narrativa convencional com experimentalismo, como no conto que dá nome ao livro — escrito em segunda pessoa —, Adichie parte da perspectiva do indivíduo para atingir o universal e, talvez, alcançar a experiência da empatia. Por meio do talento de fazer o leitor enxergar com os olhos do outro, ela provoca uma reflexão necessária em tempos de cegueira social.

Leia um trecho:

"No seu pescoço

Você pensava que todo mundo nos Estados Unidos tinha um carro e uma arma; seus tios, tias e primos pensavam o mesmo. Logo depois de você ganhar a loteria do visto americano, eles lhe disseram: daqui a um mês, você vai ter um carro grande. Logo, uma casa grande. Mas não compre uma arma como aqueles americanos.

Batalhões deles entraram no quarto em Lagos que você dividia com seus pais e três irmãos, apoiando-se nas paredes sem pintura porque não havia cadeiras para todos, para se despedir em voz alta e lhe dizer, em voz baixa, o que queriam que você lhes enviasse. Em comparação com o carro grande e a casa grande (e talvez com a arma), as coisas que desejavam eram simples — bolsas, sapatos, perfumes, roupas. Você disse tudo bem, sem problema. Seu tio que morava nos Estados Unidos, aquele cujo nome estava na ficha de todos os membros da família para a loteria do visto americano, disse que você podia ir morar com ele até se ajeitar. Ele a buscou no aeroporto e comprou para você um enorme cachorro-quente com mostarda amarela que a deixou enjoada. "Introdução aos Estados Unidos", disse, rindo. Seu tio morava numa pequena cidade de gente branca no Maine, numa casa construída trinta anos antes, perto de um lago. Ele contou que a empresa para a qual trabalhava lhe oferecera alguns milhares de dólares a mais do que o salário médio anual, além de participação nos lucros, porque estava desesperada para mostrar diversidade nas contratações. Eles incluíam uma foto do seu tio em todos os folhetos, mesmo naqueles que não tinham nada a ver com a unidade dele. Ele riu e disse que o emprego era bom, e que valia morar numa cidade só com gente branca, apesar de sua esposa ter que dirigir uma hora até encontrar um salão que soubesse cuidar de cabelo crespo. O truque era entender os Estados Unidos, saber que, ali, é dando que se recebe. Você dava muito, mas recebia muito também."


Via Huffpost Brasil
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