segunda-feira, 31 de julho de 2017

Conversa sobre racismo e “branquitude” leva Lázaro Ramos às lágrimas


Já para o final do papo, quando o microfone foi aberto ao público, um dos momentos mais emocionantes da mesa “A pele que habito”, que iniciou a programação da Flip desta sexta-feira. Diva Guimarães, uma professora negra extremamente emocionada, pediu a palavra e contou um pouco de sua história marcada por diversos episódios de racismo e imposições culturais: ela cresceu no interior do Paraná e, aos cinco anos, foi levada para um lugar onde supostamente iria estudar, mas foi forçada a trabalhar. “Tivemos uma libertação que não existe até hoje”, afirmou, sendo ovacionada de pé e arrancando lágrimas de Lázaro Ramos, a grande estrela do encontro.



O discurso da espectadora marcou a conversa que ainda teve participação da jornalista portuguesa Joana Gorjão Henriques e mediação do também jornalista Robinson Borges. “Estou muito feliz de estar vendo essa plateia aqui, cheia de brancos”, comentou Lázaro sobre o público que lotou o auditório aberto montado na em frente à Igreja da Matriz. Como era de se esperar, o diálogo focou essencialmente no racismo.


“Falar sobre raça, preconceito, não deve ser uma questão só dos negros, todo mundo faz parte do problema e da solução. Quando as pessoas acusam o negro de estar de mimimi, se soubessem a dor que é essa tentativa de silenciamento… É mais uma agressão”, explicou o ator. “Sei que às vezes é incômodo ouvir o outro falar sobre a dor. Eu também fico incomodado quando feministas vêm falar sobre meu papel enquanto homem, mas faço esforço para escutar, criar empatia. É difícil ficar caladinho, temos resposta pronta pra tudo. Se alguém diz algo com que a pessoa não concorda, já começa a criar argumentos para silenciar o outro”, completou.

Lázaro ainda abordou o conceito de “branquitude” e a importância de que todos assumam o lugar que ocupam na sociedade. “O que nascer branco significa? Qual é o ponto de partida de onde você sai?”, indagou. O ator há pouco lançou pela Companhia das Letras o livro “Na Minha Pele”, no qual reflete sobre questões raciais.


A professora que levou Lázaro às lágrimas.

Respeitar e amar são gestos políticos

O ponto de maior sinergia entre o discurso de Lázaro e o de Joana foi quando a portuguesa teceu comentários sobre os privilégios dos brancos e da necessidade de que isso seja assumido para que as discussões saiam do campo do maniqueísmo. “Não tenho que abdicar do meu privilégio, mas preciso levá-lo para mais pessoas”, disse, lembrando que os portugueses foram um dos principais responsáveis pela criação das ideias racistas.

Joana fez há pouco um longo trabalho investigando o racismo do sistema colonial português na África, o que resultou no livro “Racismo em Português”, publicado no Brasil pela Tinta da China. “Não temos qualquer tipo de gesto que vá no sentido das reparações, de tentativas de solucionar a situação que nós brancos criamos”, comentou, lembrando da apatia de Portugal em tratar do assunto.

“Foi um colonialismo racista e não foi bom. Nas escolas ainda falam de histórias romantizadas de descobrimentos, mas não é ensinado que até 1974 havia trabalhos forçados; em São Tomé e Príncipe isso era análogo à escravidão. A ideia foi desconstruir o mito de que Portugal tinha sido um bom colonizador e ouvir o lado africano dessa colonização”, explicou Joana sobre o trabalho. Ela ainda lembrou que os lusitanos foram responsáveis pelo tráfico de mais de 5 milhões de pessoas para as Américas. “Isso é algo que não é ensinado em Portugal”, o país que mais traficou humanos na história.


Em outro momento que rendeu aplausos, Lázaro falou sobre Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves, duas escritoras que marcaram sua vida e que estão na programação da Flip. “O fundamental é o afeto: saber que afetamos e somos afetados pelo outro. Precisamos recuperar a capacidade de espalhar afeto e ser afetado”, disse, relacionando a questão com sua perspectiva enquanto leitor. Mais adiante, após ser questionado sobre relacionamentos inter-raciais, ainda disparou: “Não consigo politizar minha questão afetiva, só acho que temos que pregar o amor o tempo todo. O que eu acho político é respeitar, amar e demonstrar esse amor. E a mulher com a gente também, né!?”, concluiu, arrancado risos de todos.


por Rodrigo Casarin no Página Cinco
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