domingo, 4 de junho de 2017

Aos poetas clássicos - Patativa do Assaré


Poetas niversitário,

Poetas de Cademia, 

De rico vocabularo 
Cheio de mitologia; 
Se a gente canta o que pensa, 
Eu quero pedir licença, 
Pois mesmo sem português 
Neste livrinho apresento 
O prazê e o sofrimento 
De um poeta camponês. 

Eu nasci aqui no mato, 
Vivi sempre a trabaiá, 
Neste meu pobre recato, 
Eu não pude estudá. 
No verdô de minha idade, 
Só tive a felicidade 
De dá um pequeno insaio 
In dois livro do iscritô, 
O famoso professô 
Filisberto de Carvaio. 

No premêro livro havia 
Belas figuras na capa, 
E no começo se lia: 
A pá — O dedo do Papa, 
Papa, pia, dedo, dado, 
Pua, o pote de melado, 
Dá-me o dado, a fera é má 
E tantas coisa bonita, 
Qui o meu coração parpita 
Quando eu pego a rescordá. 

Foi os livro de valô 
Mais maió que vi no mundo, 
Apenas daquele autô 
Li o premêro e o segundo; 
Mas, porém, esta leitura, 
Me tirô da treva escura, 
Mostrando o caminho certo, 
Bastante me protegeu; 
Eu juro que Jesus deu 
Sarvação a Filisberto. 

Depois que os dois livro eu li, 
Fiquei me sintindo bem, 
E ôtras coisinha aprendi 
Sem tê lição de ninguém. 
Na minha pobre linguage, 
A minha lira servage 
Canto o que minha arma sente 
E o meu coração incerra, 
As coisa de minha terra 
E a vida de minha gente. 

Poeta niversitaro, 
Poeta de cademia, 
De rico vocabularo 
Cheio de mitologia, 
Tarvez este meu livrinho 
Não vá recebê carinho, 
Nem lugio e nem istima, 
Mas garanto sê fié 
E não istruí papé 
Com poesia sem rima. 

Cheio de rima e sintindo 
Quero iscrevê meu volume, 
Pra não ficá parecido 
Com a fulô sem perfume; 
A poesia sem rima, 
Bastante me disanima 
E alegria não me dá; 
Não tem sabô a leitura, 
Parece uma noite iscura 
Sem istrela e sem luá. 

Se um dotô me perguntá 
Se o verso sem rima presta, 
Calado eu não vou ficá, 
A minha resposta é esta: 
— Sem a rima, a poesia 
Perde arguma simpatia 
E uma parte do primô; 
Não merece munta parma, 
É como o corpo sem arma 
E o coração sem amô. 

Meu caro amigo poeta, 
Qui faz poesia branca, 
Não me chame de pateta 
Por esta opinião franca. 
Nasci entre a natureza, 
Sempre adorando as beleza 
Das obra do Criadô, 
Uvindo o vento na serva 
E vendo no campo a reva 
Pintadinha de fulô. 

Sou um caboco rocêro, 
Sem letra e sem istrução; 
O meu verso tem o chêro 
Da poêra do sertão; 
Vivo nesta solidade 
Bem destante da cidade 
Onde a ciença guverna. 
Tudo meu é naturá, 
Não sou capaz de gostá 
Da poesia moderna. 

Dêste jeito Deus me quis 
E assim eu me sinto bem; 
Me considero feliz 
Sem nunca invejá quem tem 
Profundo conhecimento. 
Ou ligêro como o vento 
Ou divagá como a lêsma, 
Tudo sofre a mesma prova, 
Vai batê na fria cova; 
Esta vida é sempre a mesma.
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