segunda-feira, 8 de maio de 2017

Professor acusado de racismo deixa disciplina do curso de Engenharia da UFRJ


Após ser acusado por alunos de racismo, um professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) não dará mais aulas em disciplina da qual era o docente responsável no curso de Engenharia Eletrônica.

A substituição chegou a ser pedida pelo CaEng (Centro Acadêmico de Engenharia) à direção da Escola Politécnica. No entanto, segundo a direção da escola, o professor deixou a disciplina Rede de Computadores I por iniciativa própria. Ele continuará, entretanto, com seus projetos de pesquisa vinculados ao CNPq e também atuando na pós-graduação.

Em reunião com diretores, os integrantes do CaEng também solicitaram a abertura de um processo administrativo contra o professor, mas a direção da Escola Politécnica não atendeu a reivindicação. Em entrevista ao UOL, o diretor João Carlos Basilio minimizou as declarações do professor.

“Com o governo Lula houve abertura de acesso de pessoas à universidade que até então não tinham condições de entrar. Muitas delas de classe social baixa. Essas pessoas estão acostumadas a serem encurraladas, oprimidas e aqui elas têm voz. Tudo passou a ser mais discutido hoje em dia.”

Segundo denúncia do centro acadêmico em março passado, o professor teria relacionado ladrões a pessoas negras. “Na rua como você detecta um ladrão? Primeiro você olha a cor”, teria dito o docente segundo relato de estudantes. Ainda de acordo com os alunos, o professor complementou: “Se você tem um sistema de segurança onde só passa gente branca, quando passa um preto o sistema apita.”

Segundo o diretor da Escola Politécnica, o professor alegou que a declaração foi descontextualizada. Na opinião de Basílio, o exemplo foi pertinente levando em consideração a alegação do professor.

“Ele estava explicando como se estabelece um procedimento para segurança de rede. No meio da aula, ele disse: ‘Às vezes podemos fazer um protocolo errado, e baseado em equívocos, a gente pode tomar decisões erradas’. Aí, chegou o grande problema. Ele deu o seguinte exemplo: ‘Imagina que estamos numa fila, vem um negro correndo e a gente acha que é um ladrão e decide sair correndo com medo. Isso é um é sinal de anomalia no sistema de defesa.'”
Professor nega ser racista

Em uma reunião entre representantes do centro acadêmico, diretores e coordenadores dos cursos da Escola Politécnica, o CaEng esperava que o professor fizesse um pedido de desculpas à comunidade escolar, o que não aconteceu. Ele contratou um advogado para acompanhar o caso.

Os estudantes também se frustraram com a resposta da Escola Politécnica, que até agora optou por promover um seminário obrigatório a todos os professores para que seja discutida a questão racial. Serão abordados assuntos como ética no ensino da engenharia, questões raciais e o novo perfil socioeconômico dos alunos da UFRJ.

A medida foi considerada insuficiente pelo CaEng. “Nós achamos essa ideia muito boa, talvez um primeiro passo rumo a não reprodução do racismo e não relativização dessa opressão. Mas, de fato, não achamos que seja uma medida suficiente e, diante de toda essa situação, o CaEng já está procurando todas as alternativas possíveis para que esse ocorrido não fique impune”, diz o centro acadêmico. Na ocasião da denúncia, o centro acadêmico havia informado a intenção de buscar ajuda jurídica.

Na página do CaEng nas redes sociais, um estudante de Engenharia defendeu que o professor saísse da universidade direto para a delegacia. “Isso não merece nota de repúdio, não. Ele merecia sair da sala num carro de polícia.”

A reportagem do UOL tentou contato com o professor, mas ele não foi encontrado para comentar a acusação.

Já a assessoria de imprensa da UFRJ disse que a Reitoria e a Ouvidoria Geral estão acompanhando o caso. Em nota, a universidade disse que, por meio da campanha ‘Não se Cale’, dará apoio à Escola Politécnica no sentido de promover ações de respeito à diversidade. “Lançada no ano passado, a campanha tem objetivo de combater todas as formas de opressão e violência na UFRJ”, diz a UFRJ por meio de nota.


Por Marcela Lemos, da UOL
Via Portal Geledés
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