quarta-feira, 10 de maio de 2017

“Por que criei a Revista Azmina. E por que quero que ela não precise mais existir”

Até outro dia eu não me via como empreendedora. Para mim, a criação da Revista AzMina tinha sido um mero: “quero trabalhar num lugar assim, já que ele não existe, vou fazer existir”. E, no final das contas, não é que empreendedorismo é isso mesmo? É materializar algo no sonho e botar a mão na massa! E estou eu aqui, um ano e alguns prêmios depois, diretora da maior revista de feminismo pra mulheres adultas do nosso país.


E enquanto o jornalismo está em crise, AzMina só cresce

Isso não quer dizer, claro, que a gente descobriu a fonte secreta da riqueza — a real é que ainda estamos a alguns passos da total sustentabilidade financeira. Mas temos uma marca forte, respeitada, reconhecida por prêmios nacionais e internacionais e por mais de 100 mil pessoas que nos acompanham nas redes sociais, com um engajamento muito acima da média de páginas similares.

A Revista AzMina foi criada por um time diverso de mulheres e seu carro-chefe é o jornalismo investigativo. Nossa missão é usar a informação, seja em vídeo, áudio, arte ou por escrito, para combater o machismo. Amamos o que fazemos e já fizemos os jogadores do time do Cruzeiro entrarem em campo com camisetas que representavam estatísticas negativas para as mulheres. Já fizemos grandes artistas doarem 30% de suas músicas (interrompendo a reprodução delas no Youtube ao chegar em 70%) para questionar a diferença salarial entre os gêneros. Já ajudamos a transformar a Globeleza e a difundir campanhas como a do #CarnavalSemAssédio em que #UmaMinaAjudaAOutra.

Para nós, o feminismo é levado tão a sério quanto o guia da nova ortografia. Mas deixa eu esclarecer: jornalismo feminista não é um que fala só de empoderamento feminino, ele é um jornalismo que respeita os princípios da equidade, que encara as mulheres como as pessoas inteligentes e complexas que elas são.

Se todo jornalismo fosse feminista, por exemplo, os maiores veículos do Brasil não teriam apenas 15% de colunistas mulheres — quando falamos de negras, o número é ainda mais desalentador. A Revista AzMina só existe porque é preciso desfazer esse desequilíbrio, dar um pouco de voz para o lado que está negligenciado pela imprensa em geral.

Não é exagero dizer que a mídia brasileira é machista. E os veículos mais machistas da imprensa brasileira, por incrível que pareça, são as próprias revistas femininas, que parecem escrever para uma mulher completamente alienada. Elas se alimentam da insegurança feminina para agradar seus verdadeiros clientes.

Há muito tempo os clientes das revistas femininas não são as leitoras, mas sim os anunciantes

Para esses anunciantes de produtos de beleza, cremes para celulite e cirurgias estéticas, interessa que as mulheres estejam inseguras e procurem cada vez mais compensar a sua insegurança comprando coisas.

Por isso, o primeiro passo do modelo de negócios da Revista AzMina foi inverter esse jogo e tornar as leitoras, de novo, as clientes. São elas que, através de assinaturas e crowdfundings anuais, pagam grande parte da conta (por sinal, está no ar uma campanha para financiar 12 grandes séries de reportagens investigativas de temática feminista). O restante é complementado com recursos de editais e fundações de apoio aos direitos das mulheres.

Recentemente, descobrimos uma nova maneira de patrocinar nosso jornalismo independente: ensinando as empresas e agências de publicidade como não serem machistas (pois é, elas ainda não aprenderam). Para fazer isso, abrimos um serviço de consultoria, validação de campanhas e palestras para funcionários que tem nos ajudado a fechar as contas no final do mês. Mas só prestamos esse serviço para empresas que passam no nosso crivo ético, tá? Somos exigentes assim

De todo modo, tenho uma confissão a fazer:

Meu sonho é que a Revista AzMina não precise mais existir

Isso porque todo jornalismo do Brasil e do mundo deveria ser feminista. E o que quero dizer com isso não é que as redações deveriam ser cheias de mulheres que não ligam para depilação e andam com O Segundo Sexo debaixo do braço. Estou falando é de feminismo incorporado nas consciências como algo tão natural quanto a ideia de que matar é errado.

Nós, jornalistas, precisamos lembrar daquele ideal que nos levou à universidade. Precisamos exigir que os grandes veículos patrocinem cursos e workshops para aprender a falar de gênero de uma maneira menos preconceituosa e parar de ficar reproduzindo tantos estereótipos destrutivos por aí. A cultura machista está nas redações e saindo delas para o mundo a cada clique. E nós precisamos acreditar que podemos fazer parte da solução — ou seremos condenados a sermos os motores do problema para sempre. E a Revista AzMina nunca poderá deixar de existir.

Por Nana Queiroz Do Projeto Draft
Via Geledés
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