quinta-feira, 25 de maio de 2017

Poesia Mulata Exportação - Léia Rodrigues


MULATA EXPORTAÇÃO

“Mas que nega linda 
E de olho verde ainda 
Olho de veneno e açúcar! 
Vem nega, vem ser minha desculpa 
Vem que aqui dentro ainda te cabe 
Vem ser meu álibi, minha bela conduta 
Vem, nega exportação, vem meu pão de açúcar! 
(Monto casa procê mas ninguém pode saber, entendeu meu dendê?) 
Minha tonteira minha história contundida 
Minha memória confundida, meu futebol, entendeu meu gelol? 
Rebola bem meu bem-querer, sou seu improviso, seu karaoquê; 
Vem nega, sem eu ter que fazer nada. Vem sem ter que me mexer 
Em mim tu esqueces tarefas, favelas, senzalas, nada mais vai doer. 
Sinto cheiro docê, meu maculelê, vem nega, me ama, me colore 
Vem ser meu folclore, vem ser minha tese sobre nego malê. 
Vem, nega, vem me arrasar, depois te levo pra gente sambar.” 
Imaginem: Ouvi tudo isso sem calma e sem dor. 
Já preso esse ex-feitor, eu disse: “Seu delegado...” 
E o delegado piscou. 
Falei com o juiz, o juiz se insinuou e decretou pequena pena 
com cela especial por ser esse branco intelectual... 
Eu disse: “Seu Juiz, não adianta! Opressão, Barbaridade, Genocídio 
nada disso se cura trepando com uma escura!” 
Ó minha máxima lei, deixai de asneira 
Não vai ser um branco mal resolvido 
que vai libertar uma negra: 

Esse branco ardido está fadado 
porque não é com lábia de pseudo-oprimido 
que vai aliviar seu passado. 
Olha aqui meu senhor: 
Eu me lembro da senzala 
e tu te lembras da Casa-Grande 
e vamos juntos escrever sinceramente outra história 
Digo, repito e não minto: 
Vamos passar essa verdade a limpo 
porque não é dançando samba 
que eu te redimo ou te acredito: 
Vê se te afasta, não invista, não insista! 
Meu nojo! 
Meu engodo cultural! 
Minha lavagem de lata! 

Porque deixar de ser racista, meu amor, 
não é comer uma mulata! 


© ELISA LUCINDA 
In O Semelhante, 1995 
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