sexta-feira, 26 de maio de 2017

Alunos africanos de intercâmbio falam sobre dificuldades e preconceito no Brasil


Issimo na colação de grau da graduação em economia (Foto: Arquivo Pessoal/Issimo Monteiro)

Morar fora para estudar nem sempre é um mar de rosas. Dificuldades com sustento, restrições de trabalho e discriminação são alguns dos problemas, relataram universitários africanos ao G1. Até sábado (27), a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) promove a 13ª Semana Acadêmica Africana.

Há 9 anos em São Carlos, o guiné-bissauense Ivaldino Monteiro, mais conhecido como Issimo, contou que estudar em um país estrangeiro sempre foi um sonho, já que o pai passou pela experiência e os dois irmãos vivem essa realidade no Rio de Janeiro.

Em 2008, Issimo agarrou a oportunidade de cursar engenharia da computação na Universidade de São Paulo (USP). Na época, ele recebia dinheiro da família e morava no alojamento da faculdade. Após se formar, optou por outra graduação: economia. Atualmente ele faz pós- graduação em Araraquara.

Desafio

Segundo ele, garantir o sustento foi um grande desafio. A segunda graduação era paga e o dinheiro enviado pela família não bastava. O visto de estudante não permitia que o jovem tivesse vínculo de trabalho formal no Brasil.

Foi por meio de free-lancers e trabalhos extras que Issimo conseguiu pagar o curso de economia. “Agora eu posso trabalhar, porque a lei mudou. Antes era muito ruim, porque se a situação financeira da família mudava a pessoa ficava na mão”, contou.

Outra dificuldade é ficar longe da família e da terra natal. No primeiro ano não foi fácil, mas ele acabou se acostumando. A internet ajudou a diminuir a distância e a matar saudades.

A presença de imigrantes de países africanos é um fator que contribui para a adaptação. Segundo Issimo, as pessoas se ajudam independente das diferenças.

“Temos uma cultura muito forte, que não desapegamos muito fácil. Quando chegamos a um lugar, tentamos localizar outro africano, isso nos ajuda muito aqui”.

Novelas

Assim como Issimo, Sueli Helena Lopes, de 28 anos, chegou ao Brasil em 2008 para cursar administração pública e na Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Araraquara (SP). Natural de Cabo Verde, ela se formou, fez pós-graduação, mestrado e agora sonha com o doutorado.

Atualmente, a cabo-verdiana vive com o marido de Guiné Bissau com quem tem um filho brasileiro. Ela contou que conheceu o país por meio das novelas, mas quando resolveu para cá percebeu que a realidade era bem diferente da ficção.

“Chegando aqui me deparei com uma divisão, principalmente em relação à cor da pele. As novelas até retratam isso, mas a gente não percebia. Nas novelas, por exemplo, negro é segurança, porteiro, faxineira. Inserido aqui, a gente percebe o que está por trás”, avaliou.

Longe da família, ela disse que foi preciso vencer a solidão, afinal era a primeira vez que ela se afastava da mãe e dos irmãos. A cultura semelhante de ambos os países ajudou no processo de adaptação.

“Não foi tão estranho para mim, porque a gente assiste às novelas, falamos a língua nas escolas, a culinária é muito parecida, a única diferença é que o feijão não é um prato diário como aqui”, completou.

Preconceito nos olhares

Há 12 anos, o angolano Eduardo Carlos Alexandrina, de 32, chegou ao Brasil para cursar engenharia em Minas Gerais. Atualmente ele faz doutorado na área de engenharia química na UFSCar.

Para ele, a pior dificuldade enfrentada é a discriminação. “A partir do momento que você chega percebe a diferença nos olhares, tratamento e abordagem policial”, disse.

Ele contou que o preconceito também esteve presente no ambiente acadêmico durante a graduação.

“Os colegas estavam sempre com o olhar como se fôssemos inferiores. Mas com tempo eles vão percebendo que você não é qualquer um, e sim uma pessoa esforçada, estudiosa. Isso é por causa do preconceito criado em cima dos africanos”, revelou.

Para ele, a presença da comunidade africana em São Carlos ajuda a enfrentar situação desconfortáveis e motivá-lo. “É o que nos fortalece”, afirmou.

Programa de estudos

Os estudantes africanos chegam ao território brasileiro pelo Programa de Estudantes Convênio de Graduação e Pós-Graduação (PEC-G e PEC-PG). Ser falante de português é primordial para a entrada no país e, por isso, imigrantes de países que têm a língua portuguesa como oficial procuram o Brasil.


*Sob supervisão de Fabio Rodrigues, do G1 São Carlos e Araraquara.


Via G1
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