domingo, 2 de abril de 2017

'Imagine a paz e toquem uns nos outros', pede Yoko Ono em mostra

Yoko Ono em cena do filme 'Walking on Thin Ice', de 1981


"É como um trem indo muito devagar, algo irritante", diz Yoko Ono, sobre suas obras de arte. "Mas disso você acaba tirando algo que não esperava."

Talvez a redenção, a renovação da esperança, a certeza da volta aos trilhos de um mundo aos farrapos, a superação de todos os traumas. Ou talvez o tédio mais absoluto, a decepção de quem buscava um grande espetáculo, o incômodo diante do vazio, da cor branca e do silêncio.

O inesperado, bem ou mal, ronda a mostra da artista japonesa agora no Instituto Tomie Ohtake. Isso porque a viúva de John Lennon, uma década depois de realizar uma grande retrospectiva em São Paulo, está de volta à cidade só com o lado mais imaterial de sua arte –os cartazes com instruções para o público.

Em placas brancas espalhadas pelas galerias do centro cultural, Yoko dá só comandos –imagine a paz, toquem uns nos outros, juntem suas sombras até que elas se tornem uma única, caminhe pisando nas pegadas da pessoa à frente, faça um buraco em uma tela e coloque sua mão através dele, faça um pedido.

Esses muitos pedidos da artista vão na contramão de um mundo em guerra, da escalada da intolerância, do vício no imediatismo e da superficialidade dos relacionamentos atuais e afins. Ou seja, de tudo aquilo de que a humanidade se queixa, mas prefere tomar um porre ou se deixar sugar pelo Netflix em vez de romper com a letargia.

Yoko sabe dessa inércia. "Acho muito perigoso estarmos caminhando rumo a um estado de interações limitadas em vez de tentarmos nos conhecer por meio de pensamentos mais profundos", diz a artista. "Estamos sempre tentando acelerar tudo, mas nisso perdemos muito. Precisamos criar situações para entendermos uns aos outros."

Sua mostra, no caso, tenta criar oportunidades para mergulhar em "questões filosóficas que já não existem", como propor que espectadores entrem juntos num saco de tecido preto e experimentem lá dentro um estado elevado de conhecimento.

Imagino, aliás, a mostra de Yoko se tornando um playground terapêutico para desocupados ou para afortunados com tempo de sobra para colar, por exemplo, os milhares de caquinhos de pratos e xícaras já pré-quebrados pela equipe da artista dispostos numa mesa como um banquete.

ESPERANÇA E CATÁSTROFE
O comando de reparar o irreparável ali é uma alusão ao estado do Japão depois da Segunda Guerra Mundial, mas pode ser a tradução de qualquer dor, aflição, desengano.

"É uma metáfora dessa sociedade meio selvagem, sem misericórdia", diz o islandês Gunnar Kvaran, que organiza a mostra. "Ela equilibra aqui a esperança e a catástrofe."

Essa dualidade estrutura quase todas as obras da artista. Na mesma pegada dos pratos espatifados, peças de um quebra-cabeça que ilustra o céu surgem espalhadas por capacetes de policiais pendurados do teto, sugerindo a esperança de que um dia, todos juntos, possam recriar o firmamento uma vez acalmadas as tensões de guerras e protestos.

Yoko, desde o conflito no Vietnã, já dizia que "a guerra acabou (se você quiser)", uma mensagem que nunca perde a atualidade. Datada, talvez, só a ideia de que a arte demanda a atuação do público, algo que vem dos primórdios dos happenings e da arte conceitual.
Divulgação 


Cena do filme 'FLY', produzido por Yoko Ono em 1970

Mas as instruções de Yoko são mesmo dessa época, daí a sensação de déjà-vu que sublinha a mostra, dependente em grande parte da vontade alheia para se materializar enquanto algo a ser visto de fato. Talvez seja disso, aliás, que ela esteja falando quando diz que "todas as coisas são metade da coisa".

Yoko quer dizer, nesse ato que Kvaran chama de "dessacralização da obra de arte", que essa é uma mostra para ser vivida, não só observada. Ela mesma diz que "há coisas que não notamos, e elas vêm das pessoas com ideias diferentes das nossas, o que é algo muito bonito".

Mais contundentes, os filmes da artista, como aquele em que moscas passeiam pelo corpo de uma mulher nua ou o nada sugestivo "Estupro", em que a câmera segue exasperada uma moça que não quer ser vista, abalam toda a calma dessa exposição.

Nada mais contemporâneo, atual e brutal, aliás, do que comparar a violação da imagem à violação do corpo, em especial o da mulher.


Via Folha de S. Paulo
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