quarta-feira, 29 de março de 2017

Americana branca que se passou por negra se diz ‘transracial’

A ativista americana Rachel Dolezal, que se passou por negra durante vários anos e foi protagonista de um intenso debate sobre raça e identidade após ter revelada sua origem caucasiana, afirma que a ideia de raça é uma mentira e se classifica como “transracial”.


Dolezal trabalhava em respeitada organização pelo avanço de pessoas de cor nos EUA

Em entrevista ao programa Newsnight, da BBC, ela disse acreditar que nunca mentiu sobre quem era e que houve falta de compreensão sobre suas colocações. Disse também que ainda é bastante hostilizada, tanto por negros como por brancos.

“A ideia de raça é uma mentira, então como você pode mentir sobre uma mentira? Não me sentia mentindo para ninguém, era uma representação real do que eu sou e no que acredito”, disse ele.

Para Dolezal, nos Estados Unidos “há uma fronteira de cor, uma divisão – e você precisa escolher um lado”.

“E eu fico do lado dos negros em todas as questões. Por isso, não me apresentar como negra parecia uma espécie de traição – não somente contra quem eu sou, mas contra a comunidade a que eu me afiliei”.
Origem branca

Até 2015, Rachel, então com 37 anos, trabalhava em uma organização chamada Associação Nacional pelo Avanço das Pessoas de Cor (NAACP) e era conhecida como uma proeminente ativista em favor da igualdade racial e dos direitos dos negros americanos, além de lecionar estudos africanos em uma universidade.

Durante a vida, ela sempre se descreveu como afrodescendente. Mas seus pais biológicos revelaram em uma entrevista a uma televisão local da cidade de Spokane, no Estado de Washington, que ela teria origem alemã e tcheca, com uma pequena parte de traços de nativos americanos. Segundo sua mãe, Ruthanne Dolezal of Troy, a ativista começou a se “disfarçar” quando os pais adotaram quatro crianças negras, na década de 90.


Quando o caso veio à tona, os pais mostraram fotos de Dolezal na adolescência – loira e de olhos claros

A revelação teve grande repercussão na mídia. Ela foi acusada de ter mentido em currículos, de ter inventado sua ascendência afro-americana e obtido vantagens profissionais por causa disso. Dolezal responde dizendo que, mesmo sendo branca, sempre se sentiu fazendo parte da comunidade negra.

“Os maiores ataques vieram dos meus pais, dos policiais, da mídia e do establishment branco em geral”, ela conta. “Mas as críticas que mais doeram foram as da comunidade negra, porque eu ainda sinto que ali é minha casa.”

“Mesmo que eu seja rejeitada, que eles não acreditem que eu faça parte daquele grupo, é ali que eu pertenço, pelo menos é o que eu sinto. Se eu pudesse resolver um mal-entendido dessa história toda, seria (esse) com a comunidade negra”.

Ela afirmou ainda que tem dificuldade de se recolocar profissionalmente no mercado por causa da repercussão do caso.

“Eu fui descreditada, fui chamada de uma mentira, uma fraude, uma impostora e as pessoas pararam de acreditar no meu trabalho. Não somente minha identidade, mas meu currículo e tudo o que fiz foi questionado. Eu fiquei estigmatizada. É um ambiente muito hostil.”

Para muitos, Dolezal perdeu a confiança de quem ela dizia representar. Mas alguns de ressonância da comunidade negra americana ─ entre os quais a atriz Whoopi Goldberg e o ex-jogador de basquete Kareem Abdul-Jabbar, ambos negros ─ elogiaram Dolezal por sua militância em favor dos afro-americanos e defenderam sua decisão de se identificar como negra.

Ela ainda rebateu as críticas que recebeu de que teria se apropriado culturalmente da tradição negra.

“Eu definitivamente não me sentia em casa na família e no mundo branco, eu me sentia uma estrangeira – era desconfortável, estranho e também opressor, porque eu tinha que mascarar, subordinar ou reprimir partes de mim mesma para sobreviver socialmente”, disse ela ao programa Newsnight.
Transracial

Para Dolezal, o seu caso não é muito diferente do de pessoas que optam por identidades de gênero diferentes de sua identidade biológica – como os transgêneros.

Ela foi confrontada por argumentos como “uma pessoa não pode escolher ser chinesa só porque é apaixonada pelo modo de vida e pela cultura dos chineses”.


Rachel diz que é constantemente hostilizada e que não consegue emprego

Ela responde dizendo se considerar “transracial”. “Eu acredito que a palavra transracial se tornou socialmente útil para se descrever a fluidez e a identidade racial. Eu acho a comparação útil – o gênero é compreendido, a discussão progrediu, evoluiu, as pessoas entenderam que gênero não é binário, não é nem mesmo biológico.”

“A raça também não é um fator biológico – na verdade, a raça é ainda menos biológica do que o próprio gênero, se você pensar na história e nos nossos corpos. Temos sangue tipo A ou tipo O, não há nada como sangue branco ou negro e nenhuma parte do nosso corpo que designe isso”, afirmou.

Nos Estados Unidos, apesar de sua pele clara e olhos azuis, ela pôde se identificar como negra porque muitos ainda seguem padrões dos tempos da segregação oficial. Segundo a “regra da uma gota”, que vigorava na época, um único antepassado africano ─ não importa o quão distante ─ já bastava para que uma pessoa fosse considerada negra. A regra buscava criar uma rígida hierarquia racial, com barreiras legais e informais à ascensão dos negros na sociedade americana.

Rachel conta que na faculdade onde estudou, a Universidade de Howard, conhecida pelo quadro docente composto majoritariamente por negros, assim como onde lecionava, na Eastern Washington University, as pessoas acreditavam que ela era albina, ou mulata, ou tinha pele negra muito clara.

Dolezal acaba de lançar um livro sobre sua experiência, Full Color: Finding My Place in a Black and White World (Cor Total: Encontrando meu Lugar em um Mundo Preto e Branco, em tradução livre).


Da BBC
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