quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Um dia sem mulher


Depois do Dia sem Imigrante, um Dia sem Mulher. A ideia vem surgindo desde novembro, de uma aliança internacional, ganhou um manifesto escrito por várias ativistas no jornal The Guardian e foi abraçada pelas organizadoras da Marcha das Mulheres, maior movimento social da história americana. E deve se espalhar por pelo menos 30 países, entre eles o Brasil, no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher.

Os imigrantes pararam para mostrar que os Estados Unidos não andam sem o trabalho deles – apesar do que insiste em dizer Donald Trump. Agora, as mulheres querem mostrar que o mundo não anda sem elas. “Se nossas vidas não importam, que produzam sem nós”, diz o slogan. Mas é possível fazer uma greve geral feminina?

Em 1975, a Islândia conseguiu: 90% das mulheres do país pararam. Elas não foram ao trabalho e também não fizeram nada em casa. Cerca de 25 mil se reuniram para protestar (bastante para uma ilha de 220 mil habitantes) e outras simplesmente tiraram o “dia de folga”, como ficou conhecido aquele 24 de outubro.

Sem creches, os homens tiveram que levar os filhos para o trabalho. Vigdis Finnbogadottir, que veio a se tornar a primeira mulher a presidir a Islândia, se lembra de ouvir crianças brincando enquanto os apresentadores liam as notícias no rádio. As salsichas, fáceis de fazer, sumiram dos supermercados.

Tudo indica que o movimento contribuiu muito para levar a Islândia a posto de país com maior igualdade de gênero do mundo.

Será que as mulheres de agora terão o sucesso das islandesas? Certamente será difícil reproduzir a adesão em vários países, e muito mais populosos. Mas, segundo Mariana Bastos, uma das organizadoras da greve no Brasil, há uma “maré feminista”. “Só se surpreendeu com o tamanho da Marcha das Mulheres quem não vem acompanhando de perto esse processo. Em outubro, Argentina (acompanhada por mulheres de diversos países da América Latina) e Polônia fizeram greves massivas de mulheres. Logo em seguida, a Islândia. Em novembro, o No una di Meno (movimento italiano) levou 150 mil mulheres às ruas de Roma. A essa altura, já estavam se construindo alianças transnacionais para levar a cabo a Greve Internacional de Mulheres”, conta.

Outra diferença é que o mundo mudou bastante de 75 para cá. Muitos homens (embora ainda minoria) dividem as tarefas de casa com suas mulheres – e não teriam que recorrer ao cachorro-quente. Muitas mulheres conseguiram ocupar postos importantes no mercado de trabalho – e se tornar mais visíveis à sociedade.

Mas razões não faltam! A eleição de Trump (do infame ‘grab by the pussy’), os numerosos casos de violência contra a mulher (nesta semana, por exemplo, soubemos de uma menina de 12 anos estuprada pelo padastro e um amigo dele), a persistente diferença salarial entre homens e mulheres (no Brasil, ela chega a 34% para pessoas com ensino superior), as várias tentativas de controlar os corpos e a saúde delas…

Nem todas as mulheres, porém, conseguirão parar no dia 8. Ainda mais num momento de crise econômica e desemprego recorde, como bem lembra Mariana. Por isso, o movimento prevê outras formas de manifestação: desde usar algo lilás na roupa para lembrar a causa, deixar de fazer tarefas domésticas ou parar uma hora no trabalho e aproveitar o momento para discutir as desigualdades. Aqui no Brasil, as principais causas serão a violência contra a mulher e a reforma da Previdência proposta pelo governo Temer. A ideia é questionar a equiparação de idade de aposentadoria entre homens e mulheres diante do fato de que elas fazem cerca de 5 horas semanais de trabalho doméstico e não-remunerado – além da jornada normal.

O que quer que aconteça no dia 8 de março, não irá parar por ali. Como li em algum lugar: a luta por direitos iguais não é uma corrida de 100 m, mas uma maratona.



POR LETÍCIA SORG
Via Estadão
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