quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Artistas reagem à ausência de 'marchas politicamente incorretas' no carnaval

Caetano: versos que mandam cortar a cabeleira, para ele, incitam violência Foto: Divulgação

As notícias começaram a pular das páginas dos jornais aos poucos, anunciando que estes eram outros carnavais. Alguns blocos no Rio e outros em São Paulo estavam dispostos a não colocar mais músicas consideradas incorretas nos repertórios. O Cordão do Boitatá, no Rio, decidiu reforçar os cuidados diante de sua proibição de não tocar O Teu Cabelo Não Nega, de Lamartine Babo. Os versos ‘mas como a cor não pega, mulata / mulata eu quero o teu amor’ seriam os vilões de um mundo que não condizia com a realidade.

Antes mesmo de os blocos requentarem a discussão, algumas das 140 rodas de samba do Rio já haviam subido a guarda para canções consideradas socialmente inadequadas. Ai que Saudades da Amélia, que Mario Lago e Ataulfo Alves fizeram em 1942, já está na lista das inexecutáveis. Surgidos anos depois dos versos sobre a mulher que não tinha a menor vaidade, os olhos verdes da mulata que aparece em Tropicália, de Caetano Veloso, também chegaram a ser hostilizados. Ao Estado, Caetano diz: “Sou mulato e adoro a palavra mulato: é como o país é chamado em Aquarela do Brasil, que é nosso hino não oficial. Sempre detestei A Cabeleira do Zezé por causa do refrão “corta o cabelo dele”, que é repetido como incitação a um quase linchamento. Mas não tenho vontade de proibir nada.”

Em São Paulo, alguns blocos se posicionaram a favor do cuidado com o que iriam tocar para não reforçarem preconceitos. O saxofonista Thiago França, do Espetacular Bloco da Charanga do França, que sai em Santa Cecilia, explica sua posição: “Há um equívoco constante em relação ao que é tradicional ou clássico. Tradição também se inventa. O papel do artista é sempre criar, sempre retratar seu tempo. Criar coisas novas não tem a ver com negar o passado, aniquilar a tradição, acabar com uma cultura, pelo contrário: tem a ver com mantê-la atual, interessante, dialogar com o espaço/época.”

João Roberto Kelly tem cerca de 100 marchas carnavalescas, todas longe de padrões instituídos décadas depois de suas composições: Cabeleira do Zezé, Menino Gay, Maria Sapatão e Mulata Bossa Nova são algumas. “Nunca vi um patrulhamento tão grande, nem no tempo da ditadura. Carnaval é brincadeira, meu querido. A gente goza do careca, do barrigudo, não podemos levar as coisas ao pé da letra.”

Tom Zé se assusta quando ouve que sambistas estão deixando de tocar Amélia. “Puxa vida, mas ela era uma mulher tão dedicada... Carnaval é a época de fazer tudo ao contrário, mas agora querem concertar o mundo.” Sua mira é outra. Tom acaba de fazer uma marcha sobre a operação Lava Jato: “Homologo, logo, homologo / mas querem transformar a Lava Jato em Lava Rápido / homologo, logo, homologo / e o país nesse teatro / pisa num rabo de gato”.

“Estão querendo mostrar serviço no lugar errado”, diz Djavan. Para ele, a discussão do reforço de estereótipos precisa passar, antes, pela educação. “O racismo está ligado à falta de formação, desde sempre.”

Para Ney Matogrosso, há patrulhamento. Ele lembra que Maria Sapatão, por exemplo, não está falando mal da mulher quando diz que “o sapatão está na moda, o mundo aplaudiu / É um barato, é um sucesso / dentro e fora do Brasil”. “Estão gastando energia com coisas desnecessárias”, diz.

O pesquisador Tárik de Souza também fala: “Ninguém pode ser obrigado a cantar o que não quer. Mas a volta da censura, mesmo que por razões consideradas nobres, é algo assustador. O carnaval tem sempre um sentido anárquico e caricatural. Já pensou se forem revisar também as chanchadas da Atlântida, vetar os personagens malvados e politicamente incorretos dos folhetins de TV? Vamos acabar num quartel ou num colégio de freiras carmelitas?” Seu colega de profissão, Ruy Castro, se atenta ao termo “mulata”: “Das dezenas de marchas que falam da mulata, muitas foram compostas por Assis Valente, Wilson Baptista, Haroldo Lobo, a dupla Zé e Zilda, Haroldo Barbosa, Monsueto Menezes etc. etc., e lançadas por cantores como Orlando Silva, Silvio Caldas, Aracy de Almeida, Carmen Costa, Ciro Monteiro, Moreira da Silva, Jorge Veiga, Angela Maria etc. etc.. Todos mulatos. E não viam nenhum problema nisso.”

Músicas no alvo

Maria Sapatão

A música de João Roberto Kelly, feita com a colaboração de 

Chacrinha, foi a mais executada no carnaval de 1981. A expressão pegou imediatamente.


Cabeleira do Zezé

João Roberto Kelly e Roberto Faissal compuseram outro hit para todos os carnavais. Sua

letra é acusada de reforçar 

preconceitos contra gays, sobretudo na parte do “será que ele é, bicha!”.


O Teu Cabelo Não Nega

Lamartine Babo fez uma das mais imortais marchinhas em 1932 com versos como “o teu cabelo não nega, mulata / porque és mulata na cor / Mas como a cor não pega, mulata / mulata, eu quero o teu amor”. 


A Pipa do Vovô

A marcha de Manoel Ferreira e Ruth Amaral ficou famosa na voz de Silvio Santos em 1987. Há 

intérpretes que julgam a letra preconceituosa contra os idosos.


Mulata Bossa Nova

João Roberto Kelly, de novo, faz outra música acusada de racista anos depois. À época, não 

houve nenhuma resistência. O problema seria o uso da palavra mulata.


Ai, Que Saudades da Amélia

A música de Mario Lago e 

Ataulfo Alves, de 1942, proibida em algumas rodas de samba do Rio de Janeiro, reforçaria a 

imagem do machista e da mulher ultra submissa.


JULIO MARIA - O ESTADO DE S.PAULO
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