segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A poesia de Carlos Drummond na música do Clube da Esquina

Amar... esse verbo transitivo direto faz o coração repensar a criança sorridente, inocente, humilde e singela sumida na rudeza adulta. É ato pequeno, como as sementes que germinam o broto na terra fofa; e imenso como o ajuntamento das águas do mar.

Casa cheia: prenúncio de amizade genuinamente mineira!

Formação original do Clube da Esquina: Milton Nascimento, Flávio Venturini, Vermelho, Tavinho Moura, Toninho Horta e com os braços cruzados, Beto Guedes. Letristas Fernando Brant e Ronaldo Bastos.

Falam as flores no jardim. Na mata, farfalham as folhas. Puro ar puro. Alma clara cor carmim. Estrelas. Pé-de-moleque. Pedem mãos esponsalícias. Crepúsculo. Casinha no topo da montanha pintada de manacá. Rosas. Novelos de fumaça soprados pelas chaminés. Progresso. Riquezas. Aço bruto itabirense. Poluição. Águas serenas. Rios doces. Moinhos de milho. Minas generosas. Maria Fumaça que sopra o fuc-fuc....fuc-fuc....fuc,fuc na curva. Pêndulos montanhosos que oscilam em ondas. Trens descarrilados nos olhos. Tiradentes. Alterosas. Ouro. Diamantes. Cheiro de relva molhada. História e mais estórias. Prosas e falas soltas escapam das bocas ao luar: "Uai, que coisa danada de boa, sô!

O sol se vai. O dia já é de sombras. No tempo, um semblante singelo e entristecido. A ventania já levou a folhagem do dia. A brisa agora sopra seu leve frescor. O varal se embala mansamente. Um grilo canto. Sinos dobram na igrejinha. É chegada a hora da Ave Maria, do instante sagrado onde o dia se abraça à noite perante a fé maior do arraial. Nesta hora de chegada da noite, quando o leve negrume já se estende pelos quadrantes, os dedos das mãos se entrelaçam pedindo de perdão. Pedindo a benção. De cada dia, pedindo o abençoado pão!

Lábios que mascam o pito de palha. Pés na estrada. Pó. Poeira. Queijo e quitanda: sinal de café hospitaleiro na xícara. Aragem na boca da noite. Durante o dia: belos Horizontes adornam paisagens. Passada a tramela na porta. À noite: boa noite, repouse em paz Minas Gerais!

Com tudo isto, Minas não precisa mesmo de mar para inspirar poetas e músicos. O estado é diverso e tem um pouco de tudo, principalmente rostos adultos que ainda estampam sorrisos simples com dentes falhos; o que deveras, se não for tudo, é quase tudo.

Meados dos anos 60. A MPB, o Rock, a Bossa Nova e o Choro reviravam a intelectualidade do país de ponta-cabeça. Fã incondicional dos Beatles, The Platters e estilos afins, Milton já estava com os pés na estrada; pois, no Rio de Janeiro o músico participava ativamente do "Som Imaginário", uma banda que mesclava Progressivo com MPB. No entanto, como todo mineiro conservador de suas raízes, sempre retornava à Belo Horizonte para rever os amigos, especialmente àqueles que se dedicavam a música. Numa esquina qualquer da cidade, dois violeiros faziam serenata para luas vagas em início e fim de ciclo. Intrigado com aqueles menestréis que davam vozes aos elementos da Natureza, notadamente às coisas de Minas, Milton aproximou-se de Márcio que acompanhava o irmão e cancioneiro solitário. Marcado pela timidez, o conhecimento prévio abriu as portas para novos encontros.

Indo à Minas, Milton corria à esquina, dava um pulo na confluência das ruas onde serviam uns nacos de Minas em forma seresta; pois quem sabe, aquele sarau-musical pudesse contribuir para alterar as cores da música mineira, para aplaudir de perto os irmãos Borges. A amizade foi crescendo e além de ouvi-los, dicas de livros, o cinema, a política, a filosofia, a poesia passaram a fazer parte do menu noturno dos três. E nas reuniões, a madrugada avançava ensinando que a vida pode ser um alegre salto de paraquedas o qual traz suaves sensações e faz guardar, no coração, a tão almejada paz.

Milton já havia se descoberto, passara de "Caçador de mim", para caçador de talentos. E pasmo com o poderio musical apresentado por Lô, alcunha de Salomão, o convidou para fazer alguns trabalhos juntos. Passado o tempo e radicado no Rio, Milton propõe levar Lô para conhecer o ajuntamento das águas do mar, que na época confundia-se com o azul de céu de brigadeiro. Lô via naquele convite a chance para expandir-se artisticamente, contudo, "Amigo é coisa para se guardar no lado esquerdo do peito", disse que aceitaria o convite, desde que pudesse levar com eles seu inseparável amigo, Beto. Era a primeira vez que Milton ouvia falar sobre o elo achado, que mais tarde emendaria a corrente na formação do "Clube da Esquina"; grupo que iniciara com dois irmãos numa esquina qualquer de Belo Horizonte, para revolucionar a MPB.


Não obstante, a música para Beto estava no sangue, nas cores, nas coisas de Minas, nas noites, nos sóis e girassóis. Recém-saído de Montes Claros, cidade considerada capital do Norte de Minas, ao chegar em Belo Horizonte conheceu Lô Borges e outros nomes ligados à música mineira. E da interação coletiva, liderados pelas mentes de Milton e Lô, o Clube da Esquina lança em 1972 o primeiro disco de mesmo nome.

Emblemáticos, depois de muitos anos, os meninos que aparecem na capa do disco voltam ao local onde foram fotografados. Deveras o experimentalismo e as andanças de Milton iam aonde o simples estava. Fazia arte, tanto nos Bailes da vida, quanto nas Boleias de caminhão, ou em qualquer beira de estrada.

Ainda que em vidência, a música do Clube da Esquina estava para Drummond, assim como a poesia de Drummond estava para o Clube da Esquina. De onde o escritor tirou o parentesco artístico entre ambos? Sabe-se lá onde, mas certo é que todo escritor alimenta seus textos de verdades, sexo, trevas, mentiras, família, adultério, pátria, raízes, loucuras, guerras, ironia, dor, fracasso, luz, conquistas, morte, homens e primordialmente, da paz e do amor. Contudo, quando se é alexitímico e não se sabe os conceitos, os significados que descrevem o que é a paz e o amor, faz-se necessário curvar-se em reverência àqueles que conseguem transmitir sentimentos através de palavras escritas e verbalizadas. Assim são as letras líricas de Carlos Drummond e os poemas musicados pelo Clube da Esquina.

Capa do disco A letra "Amor de índio" é um dos madrigais de Beto Guedes bem ao estilo Carlos Drummond:

Tudo o que move é sagrado/ E remove as montanhas/ Com todo o cuidado, meu amor/ Enquanto a chama arder

Todo dia te ver passar/ Tudo viver ao seu lado/ Com o arco da promessa/ no azul pintado pra durar

Abelha fazendo mel / Vale o tempo que não voou / A estrela caiu do céu / O pedido que se pensou

O destino que se cumpriu / De sentir seu calor e ser todo / Todo dia é de viver / Para ser o que for e ser tudo

Sim, todo amor é sagrado / E o fruto do trabalho / É mais que sagrado, meu amor / A massa que faz o pão

Vale a luz do teu suor / Lembra que o sono é sagrado / E alimenta de horizontes / O tempo acordado de viver

No inverno te proteger / No verão sair pra pescar / No outono te conhecer / Primavera poder gostar

No estio me derreter / Pra na chuva dançar e andar junto / O destino que se cumpriu / De sentir…

Como generosidade produz generosidade e madrigais florescem madrigais, a poesia celestial de Drummond que tanto nutriu o Clube da Esquina, permanece incrustada em Beto, Milton e nos demais; anunciando que estrelas maviosas tornam os tempos maravilhosos. Céu que irradia e desfaz mentes ansiosas e depressivas em repetições do resplandecer da conquista, aclarada no espelho de cada amanhecer. Permanente irradiação em ação. Sobretudo, a beleza das sete cores do arco-iris não resplandecerá nos olhos daquele que anda cabisbaixo.

Nota: no próximo artigo, retratarei um pouco sobre e extensa carreira musical de Beto.


Via Portal Obvious
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