terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Um crime contra a Bahia


Salvador assiste hoje àquele que é o maior crime urbanístico contra a cidade, desde que Thomé de Sousa comandou sua construção no ano de 1549.
E não vejo ninguém bater na mesa. Nem sequer reclamar. Seguem todos silentes diante do que o governo estadual está fazendo na Avenida Paralela.
A Paralela é, hoje, o retrato mais preciso que conheço desta cidade. Tem de tudo: vendedores de crack, sede da Odebrecht, lojas (não vou dizer “igrejas”) evangélicas, oficinas de carros velhíssimos, revendedora de automóveis importados, condomínios, terreiros de candomblé, etc.
Era uma avenida bonita. Quase 20 km de extensão, com um belo canteiro central, obra de Burle Marx. Lateralmente, havia lagoas e bosques. Mas o governo do Estado da Bahia está destruindo a avenida. Montando ali uma ferrovia murada ligando Salvador e Lauro de Freitas.
Mas o mais grave nem é a destruição do verde. É que teremos uma ferrovia MURADA. Olhem no mapa. A Avenida Paralela passa justamente entre os bairros pobres do miolo da cidade e os bairros privilegiados da beira do mar. Com o MURO, a cidade ficará irremediavelmente apartada. Teremos o nosso MURO DA VERGONHA.
De um lado, vai ficar a cidade pobre tipo Pau da Lima. De outro, a cidade privilegiada tipo Pituba-Costa Azul. A segregação será oficializada – e por um governo que faz de conta que é de esquerda. Nem mesmo um cachorro vira-lata conseguirá passar do Cabula para Piatã. Comparativamente, o Minhocão é obra delicadíssima.


Não posso esperar nada da Secretaria de Estado do Meio Ambiente. Este órgão existe apenas para carimbar oficialmente as ordens do governador. Foi a Secretaria que assassinou a área de proteção ambiental de Pituaçu, deixando que invasões “white collar” reduzissem o parque ecológico ao tamanho de um dedal. E a destruição do parque de Burle Marx foi autorizada pelo Instituto Estadual de Meio Ambiente.
Mas onde estão os baianos, que não protestam? Onde estão os ambientalistas que tempos atrás defenderam as lagoas do lugar, virando inclusive manchete na mídia local? Onde estão os ambientalistas que abraçavam a velha igrejinha do Rio Vermelho? Todos calados, comprados, cooptados.


Onde estão os celebrados artistas locais? Onde estão os contestadores da tropicália? Onde estão Capinan e Caetano Veloso? Cadê a axé music? A cidade que se foda, que o importante são as coreografias do próximo carnaval?
Tudo indica que sim. Política e culturalmente, Salvador vive hoje os seus mais tristes e desprezíveis dias.

*Antonio Risério é antropólogo e escritor

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