quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Hiperssexualização do corpo negro masculino



Minha irmã me questionou esses dias sobre o fato deu ter escrito sobre hiperssexualização do homem negro e dias depois postar uma foto de sunga nas redes sociais. Eu achei o questionamento interessante porque me parece uma confusão na cabeça das pessoas mesmo.

Exercer a sexualidade é um direito de todos nós, seja qual for a sua cor, gênero ou orientação sexual. Quando falo sobre hiperssexualização de homens negros, não quero dizer que você está proibida (o) de achar o corpo daquele homem bonito, atraente etc., isso é normal e faz parte das relações humanas. O desejo, o interesse, tudo isso é realmente normal. Hiperssexualizar um homem negro é tirar dele a condição de homem. É vê-lo somente como um corpo, um fetiche, pronto para ser usado e abusado pelos seus desejos sexuais. É caracterizá-lo sexualmente como selvagem, viril e violento. É especular sobre o tamanho do seu órgão sexual sem nunca tê-lo visto nu.

No artigo “Qual é a identidade do homem negro?”, escrito por Osmundo Pinho, ele afirma que o corpo negro masculino é visto fundamentalmente como um corpo-para-o-trabalho e corpo sexuado, fragmentado em pele, marcas corporais de raça, músculos e o sexo, genitalizado como o pênis, símbolo plus de sexualidade, que serve de fetiche ao olhar branco.

Me lembro que quando tinha 16 anos uma amiga minha, numa conversa, disse que eu “tinha cara de que fazia sexo bem”. E a julgar por opiniões que ela tinha dado sobre si em outros momentos, aquele tipo de sexo, era um sexo violento. A questão é que essa minha amiga nunca tinha sequer me beijado, nem ouvido falar sobre outras relações que eu tive, com outras mulheres. Ela simplesmente deduziu. Pelo meu porte físico, pela minha cor. Era como se ela tivesse me encaixado num estereótipo de negros de filme pornô.

Tudo isso é problemático quando volto ao primeiro parágrafo e ao questionamento da minha irmã. Se eu fosse um homem branco, nem precisaria estar escrevendo sobre a hiperssexualização do meu corpo. Aquela foto seria só uma foto. A questão toda é bem simples. Homens brancos exercem, com todo direito, sua sexualidade sem que aquilo os categorize emocionalmente, intelectualmente e/ou sexualmente.

Uma foto sem camisa, de sunga, seja lá como for, de um homem negro não deveria ser taxativa. É como se, pra não ser hiperssexualidado, eu não pudesse exercer minha sexualidade, não pudesse amar meu corpo, me mostrar. É como se, ao fazer isso, eu me diminuísse enquanto ser pensante, enquanto intelectual negro, enquanto ser humano emocional.

A hiperssexualização é um problema de quem o faz, não de quem se mostra. A função do homem negro no debate é entender que ele não precisa se encaixar nos estereótipos criados pela sociedade, que ele pode ir além da questão sexual e afirmar sua sexualidade da forma que lhe achar melhor e mais conveniente.

E a função de todo resto é nos ver não somente como um corpo sexuado, mas como homens por inteiro.


Enviado para o Portal Geledes por Caio Cesar dos Santos
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