sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Falta empatia para entender a Revolta dos Negros


FOI EM UMA SALA para não mais do que 30 pessoas que, há alguns dias, assisti ao filme “O Nascimento de uma Nação”, do diretor, roteirista e ator Nate Parker. Ganhador dos prêmios de melhor filme do júri e do público no Festival de Sundance, despontou como forte candidato ao Oscar de 2017. O nome faz alusão ao filme homônimo de 1915, de David W. Griffith – uma ode à Ku Klux Klan e tido como um dos mais racistas da história.

Antes de sair para o cinema, como sempre, tento ler a sinopse e alguma crítica sobre o que vou assistir. Um dos artigos que li foi “’O Nascimento de uma Nação’ traz polêmicas dentro e fora da tela”, publicado em novembro, no G1.

Já vinha acompanhando a polêmica em torno de Nate Parker, mas me chamou atenção, antes mesmo de ver o filme, a palavra “violenta/o” empregada em duas ocasiões e apenas em relação a negros. Primeiro, a crítica a emprega ao falar da história, contada “do ponto de vista de artistas negros”, da rebelião de escravos ocorrida em 1831 e liderada por Nat Turner (personagem de Nate Parker), e a usa novamente ao falar da “violenta reação do ano passado ao “Oscars so White” – que também foi encabeçada por artistas negros por não haver atores/atrizes e diretores/as negros/as entre os indicados.

A crítica vê violência não no sistema escravagista, mas na reação dos que a ele foram submetidos; a crítica vê violência não no processo de exclusão de artistas negros das grandes produções hollywoodianas e nos comentários racistas que tentaram justificá-lo, mas na crítica a essa exclusão. Ao transferir para os negros a responsabilidade de toda a violência, o que a crítica não ousa dizer: falta conhecimento e empatia para entender as reivindicações e os trabalhos de artistas negros, sobretudo quando falam de si e/ou para si, e quando reivindicam direitos e posicionamentos que apontam o privilégio branco.

Quando o caso é de violência ou assédio sexual, independente do sexo ou da cor de acusados, fico do lado da vítima, porque sabemos que tão difícil quanto verbalizar e formalizar uma acusação é também prová-la e obter justiça. Portanto, acho extremamente importante discutirmos essa lamentável história do passado de Nate Parker, que chegou a provocar uma chamada de boicote internacional ao filme, mas uma análise um pouco mais aprofundada é necessária.

O caso: em 1999, quando era aluno da Penn State University, Nate e seu colega de quarto (Jean Celestin, co-autor do argumento de “O Nascimento de uma Nação”) foram acusados de estupro. Parker alegou que o sexo foi consentido (eles já tinham praticado sexo consentido anteriormente), embora a vítima tenha dito que, daquela vez, estava inconsciente. Parker foi considerado “não culpado”, mas Celestin foi condenado e recorreu. Com o apelo da sentença, a vítima desistiu do caso, porque não se sentia em condições de testemunhar novamente.

É importante a distinção: no sistema jurídico americano, “não culpado” necessariamente não quer dizer inocente, mas apenas que a acusação não conseguiu provar, para além da dúvida razoável, que o crime foi cometido. O final mais do que trágico fica para o suicídio da vítima, em 2012, depois de várias tentativas anteriores.

Em uma entrevista à revista Ebony, Parker declarou que nunca lhe havia sido ensinado o conceito de consentimento em sexo. Esse caso vindo à tona é, portanto, uma oportunidade importante para discutirmos machismo e outros problemas que fazem parte da cultura do estupro e da violência contra a mulher, que vale no caso de Nate Parker, mas que também deve valer para, por exemplo, Casey Affleck, outro forte candidato ao Oscar de melhor ator em 2017, pelo seu papel no filme “Manchester by the Sea”. Papel que, por sinal, já lhe deu o prêmio de melhor ator no Golden Globes.

Em 2010, quando trabalhavam na produção do documentário “I´m Still Here”, de Joaquin Phoenix e Casey Affleck, a produtora Amanda White e a diretora de fotografia Magdalena Gorka entraram com processos contra Affleck, alegando, entre outras coisas, assédio sexual, quebra de contrato e provocação de estresse emocional.

Algumas das acusações feitas por Amanda White: teve que aturar avanços sexuais não consentidos no local de trabalho; Aflleck ordenou que um membro da equipe abaixasse as calças e lhe mostrasse o pênis, apesar de sua objeção; Aflleck repetidamente se referia a mulheres como “vacas”; Affleck narrava, na frente de todos, suas experiências sexuais e de outras celebridades; Affleck, depois de perguntar a idade de White, sugeriu que ela e outro membro da equipe tivessem um filho; White foi impedida de dormir em seu quarto de hotel, em uma gravação na Costa Rica, porque Affleck e Phoenix se trancaram nele, juntamente com duas mulheres; Affleck tentou forçar White a se hospedar com ele em um mesmo quarto, e quando ela resistiu, segurou-a de maneira hostil. White reclamou do comportamento de Affleck em relação a ela e a outras mulheres do projeto e, em retaliação, seu contrato de trabalho não foi honrado e Affleck se recusou a pagar os $50 mil que lhe eram devidos pelo seu trabalho e as diárias por três meses de trabalho.

Os processos terminaram em acordo, e Casey não tem sido, ao contrário de Nate Parker, confrontado com as consequências de seus atos. Nate Parker é negro; Casey é branco e tem parentes famosos na indústria do cinema estadunidense.

Donald Trump, homem branco, hétero e rico, foi acusado de assédio sexual por várias mulheres durante a campanha eleitoral que o levou a derrotar a primeira mulher com chances reais de se eleger, Hillary Clinton. No mesmo cenário, há 8 anos, Obama teria sobrevivido impunemente? Arrisco a resposta: não.


Há que se entender e se dar o contexto sim, mas ele está é na vida real.

Voltemos à crítica, com o parágrafo final: “(…) ‘O Nascimento de uma Nação’ é potente, tem interpretações seguras, mas o diretor de primeira viagem embarca com muita sofreguidão nos excessos de um tom novelesco para um filme que se pretende uma crônica de vingança. Ganharia muito se se esmerasse mais profundamente em oferecer um contexto mais amplo à transformação de Turner de pastor informal em vingativo líder de rebelião, inserindo mais nuances em seu processo de tomada de consciência”.

Ela chama de “excessos de um tom novelesco” os horrores sofridos pelos escravos, como se aquilo fosse mera ficção e não fruto de pesquisas feitas pela equipe.

A crítica quer “nuances na tomada de consciência”, sem entender que, desde muito no início, a consciência já estava ali, e o que faltava era a coragem de ir pro sacrifício. O pastor Nat Turner, obrigado por seu dono a encontrar na Bíblia passagens que justificassem a escravidão e, com elas, acalmasse os ânimos de escravos tidos como rebeldes e desobedientes, sabia, quase desde o início, o que tinha que fazer, assim como também sabia que não sairia vitorioso.

Seu ato de desespero, depois de presenciar inúmeras situações inaceitáveis (estupros, assassinatos, torturas, acusações e castigos injustos, privações de necessidades básicas, crueldades físicas e psicológicas etc) levaria não apenas a ele, mas a todos os que estavam dispostos a morrer do que continuarem vivendo sob ou presenciando tais situações, a pagarem com as próprias vidas para que, talvez, gerações futuras pudessem desfrutar de um sonho ainda utópico: se não a liberdade, pelo menos a humanidade.

Há que se entender e se dar o contexto sim, mas ele está é na vida real. Não é uma simples crônica de vingança (entendendo, inclusive, o sentido de “filme de vingança” como subgênero), mas a reconstrução de uma verdade histórica que, como tal, já traz consigo um contexto.

Pedir um “contexto mais amplo” à transformação do personagem de Nate de pastor a líder de rebelião escrava é ter o privilégio de poder ignorar (e reconhecer isso em público, sem vergonha alguma) a amplidão de um sistema que durou séculos, torturou e matou milhões de pessoas e continua atingindo as vidas de várias gerações de descendentes da diáspora negra. Neste caso (assim como no caso de vítimas de violência sexual), fico com Luiz Gama que dizia que “ao matar seu senhor, o escravo agia em legítima defesa”.

Nota: Para entender a complexidade do contexto escravidão + racismo no caso acusações de crimes cometidos por homens negros, sugiro o excelente documentário (sete horas e meia, divididas em episódios) “O. J. – Made in America”, sobre o caso O. J. Simpson.


Por Ana Maria Gonçalves, para The Intercept Brasil
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