terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Cidadãos e artistas negros manifestam contra o uso do ‘blackface’



Protesto aconteceu ao fim do espetáculo “Trem de Minas” que usaria ferramenta racista para representar negros por meio de elementos estereotipados

Ao final da apresentação do espetáculo “Trem de Minas”, na noite desse sábado (21), no Teatro Raul Belém Machado, os atores e irmãos gêmeos Leosino e Leonildo Miranda Araújo ouviram, entre as palmas vindas do público, um grito de protesto. Um grupo de cidadãos e artistas negros realizaram um “rolezinho”, uma performance-manifesto contra o uso de blackface, uma ferramenta racista de caracterização de atores brancos como personagens negros por meio de elementos estereotipados.

A peça é uma comédia que entrou em cartaz na Campanha de Popularização do Teatro e Dança na última quinta-feira (19), já debaixo da polêmica que o uso do blackface gerou entre cidadãos e artistas.

Após assistirem ao espetáculo, os cidadãos, de punhos cerrados, leram um manifesto em que tornavam público o repúdio à adoção da prática pelos artistas do espetáculo, que foi alterada pelos atores após repercussão do caso. A produção da peça optou por não mais pintar o rosto de um atores de preto, mas permanecer com braços e pernas imitando a pele negra, o que, como afirma o texto no manifesto, “não mostra uma posição em direção a uma reflexão mais crítica sobre as práticas raciais que tratam, entre outras coisas, os negros e negras como fantasia digna de riso”.

O manifesto ainda afirmava que “o blackface era uma prática usada no século 19, quando os negros eram proibidos de subirem no palco. No século 20, a técnica passou a ser condenada após o movimento negro conquistar direitos civis”. Ao final, os manifestantes convidaram os artistas para dialogar.

“Esse tipo de chamamento pra reflexão sobre as artes negras não começou agora. Ano passado foram vários encontros nesse sentido e neste ano esse é o primeiro chamamento pro debate sobre a representatividade do corpo negro na cena. Estamos aqui pra chamar os artistas e público pra uma reflexão”, afirma Denilson Tourinho, ator é membro do Pretas em Movimento, um grupo formado para articular e discutir a representatividade do negro na sociedade.

Os atores se postaram abertos ao diálogo e afirmaram não ter tido intenção de depreciação no espetáculo. Diante das manifestações recebidas, afirmaram também que não mais farão uso do blackface, em respeito às pessoas ofendidas.



Grupo chama responsabilidade das instituições

Os artistas manifestantes também cobraram uma posição mais contundente do Sindicato dos Produtores de Artes Cênicas de Minas Gerais, o Sinparc, realizador da Campanha de Popularização. Diante da manifestação racista do espetáculo, que já havia feito parte da programação do evento em edições anteriores, o sindicato afirmou acreditar na liberdade de expressão. “O ator possui vários recursos cênicos apropriados para o seu trabalho. Um deles é a caracterização de um personagem. Com isso, ele tem a liberdade de escolher o recurso mais adequado para o seu espetáculo”.

Leia o manifesto na íntegra:

Somos um grupo de cidadãos-artistas que, por acreditar que a arte caminha lado a lado com as questões políticas, vem publicamente manifestar o nosso repúdio com a prática do blackface usada pelos produtores/atores do espetáculo. Manter o ator tampando os braços e pernas, com o rosto sem a tinta preta não torna a nova versão/”solução” que vocês arrumaram menos blackface. Não mostra uma posição em direção a uma reflexão mais crítica sobre as práticas raciais que tratam, entre outras coisas, os negros e negras como fantasia digna de riso.

O blackface era uma prática usada no século 19, quando os negros eram proibidos de subirem no palco. No século 20, a técnica passou a ser condenada após o movimento negro conquistar direitos cívis

Vocês já se viram num whiteface? ou como uma fantasia “brancos malucos”? Não somos fantasia e nem figurino. Por mais naturalizada que essa prática seja, ela é racista sim, pois tira a humanidade dos negros e negras. Logo, viemos, publicamente, convidar os atores para um diálogo aberto, sincero e respeitoso sobre essas questões raciais, ou melhor, sobre o racismo que passa “despercebido” no cotidiano e nos palcos, minando pouco a pouco a dignidade e a humanidade das pessoas negras. Em pleno século 21, como artistas e cidadãos, negros e brancos, temos sim obrigação de dialogar sobre isso. Fica aqui o nosso convite.


Por Joyce Athiê Do O Tempo
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