domingo, 29 de janeiro de 2017

'Bulldogma' traça o retrato de uma geração


Deisy Mantovani, a protagonista de "Bulldogma", é uma designer de embalagens e ilustradora de livros infantis. Entre um e outro "frila", ela tenta produzir sua primeira história em quadrinhos, sempre sob o olhar atento de Lino, seu buldogue francês. Os dois acabam de se mudar para um apartamento em um bairro de classe média onde, por causa do subsolo rico em silício, costumam aparecer naves alienígenas que abduzem seres humanos. Mas não se trata de uma história de ficção científica, ou de terror. Na maior parte do tempo, o que se registra é o cotidiano banal e a realidade emocional de Deisy, digna representante do estilo de vida alternativo de uma certa juventude de classe média. Deisy não atravessa uma fase muito boa, mas entre botequins e festas, romances complicados e desilusões amorosas, ela sobrevive e reflete sobre a estranha realidade à sua (à nossa) volta.
A sinopse de "Bulldogma", álbum em quadrinhos (ou "novela gráfica") de Wagner Willian (Veneta, 320 pgs. R$ 59,90) não dá conta da riqueza e da diversidade de elementos da história, cheia de nuances e simbolismos. Repleta de referências – incluindo fichas técnicas de filmes, músicas de diferentes épocas e livros cult no rodapé de cada página – a narrativa aposta na criação de uma atmosfera hipster e na cumplicidade de um determinado nicho de leitores, que se reconhecerão nos gostos, no comportamento e no padrão de consumo cultural de Deisy. Por exemplo, do cartaz de "Jules e Jim", de François Truffaut, na parede da sala de Deisy, se infere a intenção de se usar uma linguagem fragmentada e livre das convenções, em uma espécie de diário íntimo no qual a presença do acaso é tão importante quanto os elementos pop. Laços similares podem ser identificados nas citações a David Lynch, Henry David Thoreau e Daniel Clowes. E ainda, à artista polonesa Aleksandra Waliszewska e ao canal de quadrinhos e cinema "Pipoca e Nanquim".Com enquadramentos e diálogos nada usuais, o enredo propriamente dito de “Bulldogma” se mistura com outros eixos narrativos, que vão do cômico ao insólito e ao alucinatório – nem todos igualmente eficientes. O excesso de referências e algumas frases de efeito (do tipo "Você está muito mais preocupado em chegar a algum lugar do que simplesmente estar lá") podem irritar alguns leitores, mas isso está longe de comprometer o interesse da obra. Para quem curtir muito o álbum, vale a pena conhecer também o site do "Bulldogma", contendo book trailers, cenas alteradas, desdobramentos, easter eggs, bastidores e participações especiais, além da coluna "Flerte da mulher barbada", com a própria Deisy Mantovani entrevistando profissionais dos quadrinhos. Deisy, aliás, já tinha aparecido em outro livro de Wagner, “Lobisomem sem barba” (Balão Editorial).O buldogue Lino merece um comentário à parte. Quem já teve um buldogue francês (minha filha teve o Romeu) com certeza irá gostar das representações gráficas do cãozinho, que captam com grande sensibilidade e verossimilhança as expressões e o jeito afetuoso, aloprado e atrapalhado da raça.



Via G1
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