sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Sulivã Bispo: Palavras de um ator que tem em si mesmo o mais marcante de seus personagens!


Kaiala, Delicado, Anoitecidas, Rebola e Compadre de Ogum – Os Pastores da Noite (indicado ao prêmio Braskem de Teatro) são alguns dos espetáculos nos quais Sulivã Bispo já destilou seu talento. Preto, gay e soteropolitano, se você ainda não o viu nos palcos, já deve ter se deparado com um dos vídeos do canal “Frases de Mainha“, websérie do Youtube que mostra situações cotidianas de uma mãe e seu espótico filho, “Júnio”, com uma porção de frases atemporais que, com certeza, você já ouviu sua mãe falar. No entanto, hoje é dia de ler as palavras de Sulivã e saber um pouco mais sobre sua história, lutas, arte e muita resistência.

Nascido e criado no Curuzu, bairro periférico de Salvador, onde fica a sede do Ilê Aiyê, movimento cultural que o influenciou desde pequeno, ele fala da importância do espaço para sua vida: “O Curuzu é um bairro que tem uma consciência política e traz um pertencimento tanto ancestral quanto cultural muito fortes”. Sendo filho único de artesã e neto caçula de ialorixá, ele carrega uma série de influências culturais que não temos como não enxergar. Cresceu em um espaço sagrado de Candomblé e, mesmo não sendo devoto da religião na época, tem os toques, as danças e as manifestações como elementos muito marcantes na sua formação como cidadão.

A crença na religião veio com o tempo: “Eu era espírita kardecista. Minha mãe foi criada no candomblé, mas quando ela cresceu resolveu ser espírita e o filho vai onde a mãe vai, né? Mas quando você está destinado a ser do candomblé, não tem pra onde correr, tem uma hora que o santo chama. E eu ainda resisti um pouco, porque todo mundo fala algo de ruim do candomblé, dizem que é de espíritos menos evoluídos, de feitiçaria, demoníaco e você fica perdido. Mas quando entrei no pre-vestibular da Steve Biko, fui de uma turma com vários pretos e pretas que usavam turbante numa sexta-feira. Uma sala majoritariamente negra, com pessoas discutindo a cidadania negra. E eu pensei: poxa, eu acho que não estou sozinho, essas pessoas não são do mal e lutam pela sua cidadania. O candomblé é julgado porque é um espaço de políticas de afirmação. Lá você consegue saber quem são seus heróis, de onde você vem e para onde você vai. E eu passei a ter orgulho disso”.

Sobre ser negro, gay e candomblecista na nossa sociedade, a naturalização das discriminações é um incômodo constante: “Esse preconceito é normalizado, mas não é normal. Quando você é de candomblé, você sofre mais preconceito porque é uma religião marginal, por ser de matriz africana e ter seu enraizamento dentro da periferia. E você sendo gay ainda mais. Quando se tem um bíblia embaixo do braço é muito fácil de ser aceito. O preconceito tá muito embutido nas cabeças miseráveis da sociedade. Até as pessoas que se dizem “sem preconceitos” a primeira coisa que faz quando o filho nasce é: meu filho vai vestir azul ou verde? Se for menina vai vestir rosa. É um padrão que precisamos quebrar. Uma cadeia muito cruel.”.


Sulivã consegue sentir o peso do racismo no seu dia-a-dia, mas não se deixa abater pelo desrespeito alheio: “Quando abro o portão da minha casa e minha vizinha olha estranho para mim, coloco um bicão na diagonal e minha postura forte diz a ela o quão importante é a minha crença e minha cor. Makota Valdina fala uma coisa muito importante: Não quero que me tolere, quero que me respeite. Eu uso meu cabelo como quiser, me relaciono com quem eu quiser, eu falo da maneira que eu quiser, danço da maneira que eu quiser e todo mundo tem que me respeitar como eu sou! O ser humano é único e coberto de pluralidades, então cada um que puxe sua ramunha do jeito que ache melhor.”.

Com o sucesso do canal “Frases de Mainha”, estamos vendo um novo preto, gay, candomblecista ocupar um espaço midiático que muitos acreditam não serem capazes de conquistar, por enfrentarem tantas barreiras sociais no cotidiano. Seja por escolaridade, financeiro ou por não conseguirem enxergar seus próprios talentos, a maioria dos pretos permanece distante desses locais. Citando um dos seus maiores ídolos, ele fala: “Tem uma música do Ilê que diz assim: “Eu quero saúde, estudar, viver contente. Me formar, trabalhar ter mais valor, secretário de estado, ser ministro, presidente, jornalista, engenheiro, senador. Quero cotas iguais, não diferentes. Quero ter meu direito aonde for, moradia decente pra essa gente, no Brasil, ver um negro presidente.” Cresci ouvindo o Ilê sabendo que o preto tá aí pra incomodar essa sociedade branca e elitista e temos que acreditar na gente”.

Ele fala sobre trilhar esse caminho, um sonho para um ator com 23 anos alcançar esse nível de representatividade, com pessoas de outros estados e países dizendo que se divertem com os vídeos de Mainha: “Às vezes não temos noção. Eu acho muito importante ver as coisas ficando preta, com um personagem como Mainha. Nunca peguei uma matéria na facudade que falasse sobre mim, sobre o teatro negro e isso é muito chocante. Sempre fui o diferente, que fala diferente, se comporta diferente, porque nós, negros, temos ginga, swing, malemolência e axé. Isso é muito forte e precioso. Os diretores brancos não sabem tirar isso da gente, porque eles seguem um modelo branco. A gente tem que se dobrar para eles entenderem que Shakespeare, Grotowski e Brecht também precisam beber da nossa fonte.”. Sulivã vem passando por lugares que o fizeram ter essa consciência, como o Bando de Teatro Olodum, a Steve Biko e o Teatro da Queda, espaços que fazem pretos e gays se perceberem dentro da sociedade, construindo suas militâncias com orgulho e fazendo arte que contempla o seu pensar.

Todo mundo sabe que viver de arte não é fácil e, analisando o cenário brasileiro e soteropolitano, Sulivã ressaltou a dificuldade de fazer arte no Nordeste: “É muito dificil fazer teatro aqui e eu vim da periferia, mas você tem que fazer com que eles te engulam. Isso é muito forte, porque além de ter que fazer seu personagem bem, estudar, você ainda tem que lutar contra um sistema opressor”. Novamente citando o Ilê, ele fala sobre o espaço que conquistou e como acredita que outros podem e devem buscar ocupar seus espaços de direito: ” “a evolução da raça pode abalar o mundo” e eu acho que o preto tem um poder de abalar. Olha Oprah, Obama, o Ilê, Grande Otelo, Ruth Souza, Zezé Mota, Mandela, Malcom X e Steve Biko, grandes representantes. Precisamos abalar as estruturas desses padrões e estereotipos que querem nos encaixar. Eu sou artista. Esse é meu mecanismo de lutar contra isso, mas eu acho que o médico, engenheiro, a professora, o gari também podem fazer isso. Precisamos conhecer nossos herois, nossa mitologia, nos inspirar neles e ser também herois para o nosso tempo. Estamos em uma decadência política, perdendo direitos que conquistamos aos trancos e barrancos. Nós precisamos de novos herois e precisamos ser esses herois!”.


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