quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Mãe Stella: Xireando o yoruguês



Somos tantos em um só que, às vezes, precisamos nos ouvir e assim entender qual de nós está com a palavra, apenas para no final descobrirmos que somos um só nos muitos que falam através de nós. Sei que não estou escrevendo de maneira tão simples como me é peculiar, mas o que que se pode esperar de alguém que brincou uma semana no Carnaval de 2016 de Salvador-Bahia fantasiada de “pijama cochilona”?… Pronto! Aqui está uma parcela de mim no comando: Odé kayodê – o caçador que traz alegria. Sou também a iyalorixá Mãe Stella de Oxossi: a que fala, age e escreve sobre espiritualidade. Mas hoje quero que entre em ação Maria Stella de Azevedo Santos: aquela que por obra do destino e por amor dos baianos foi escolhida para fazer parte da Academia de Letras da Bahia, ato que me fez lembrar que não sou descendente apenas dos africanos, o sangue de meu avô português corre em minhas veias, devendo comprometer-me, então, com o idioma yorubá e o português.


Escrevi livros, gravei DVD, estou fazendo um aplicativo para celular… tudo isto com o intuito de preservar a língua yorubá, uma vez que ela encontra maior significado apenas nas comunidades religiosas onde são faladas. Agora volto minha atenção para a língua portuguesa, que possui regras gramaticais que lhe são próprias. É claro que toda regra tem exceção, mas creio que não se deve fazer da exceção uma regra. Será que aboliram o plural da língua portuguesa e não me dei conta desta reforma? Será que é um modismo falar: “as casa”, “os homem”? Será que estão fazendo “sopinha de s” e bebendo com todo o gosto? Será que a língua oficial do Brasil é agora a “língua de Eulália”?…

Ousando-me sugerir alguma coisa para pessoas que não pediram sugestões, sugiro bom senso: falar entre amigos não é o mesmo que escrever no trabalho; quem fala sem respeitar as normas gramaticais escreverá da mesma maneira e correrá mais riscos de ser eliminado em uma concorrência de emprego. É o africano que pode falar: os orixá, os axé, as iyalorixá, os ebó. Afinal, a gramática da língua trazida pelos africanos não forma o plural com a letra “S”. Mas, pensando que esta “abolição do S” na fala dos brasileiros talvez seja, simplesmente, um “sincretismo” entre o yorubá e o português, aproveitei nossos domingos tão solitariamente acompanhados para brincar de fazer rap com minha filha, o qual nós intitulamos Xireando o yoruguês. Como não gosto de me considerar “música de uma nota só”, preferindo pensar que somos um só nos muitos que falam através de nós, arvoro-me a participar da ala dos metidos a compositores. Estamos brincando de brincar. Tem algum compositor e cantor que queira brincar conosco? O convite está feito. Segue a letra para um rap ou qualquer outra melodia que lhe seja adequada.

“Xireando o yoruguês/ esta é a nossa vez/ de conhecer o yorubá/ sem esquecer o português./ Sirê é o verbo brincar/ na língua yorubá/ é também um ritual/ que muito além de divertir/ tem a função de encantar./ Yorubá, idioma africano/ rico em sabedorias/ maliciosamente espalhadas/ no carnaval da Bahia./ Português, língua oficial/ falada em nosso dia a dia/ sua origem latina explica/ aquilo que se complica./ Brincar é enlaçar, é encantar, é enfeitiçar/ esta é uma explicação/ para que nosso povo mestiço/ tenha a noção/ do verdadeiro sentido do feitiço./ Feitiço é encanto, é enlaço/ feitiço e abraço – é faraimará./ Uma nação consciente/ tem que ter em mente/ educar seu povo a não prejulgar./ Brincar é enlaçar, encantar, é enfeitiçar/ Feitiço é encanto, é enlaço, é abraço/ Abraçar é faraimará/ na língua yorubá”.

Feliz ano letivo para todos e que não se esqueçam de estudar o plural das palavras.
Por Maria Stella de Azevedo Santos, do A Tarde 
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