quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Juarez Paraíso


Juarez Paraiso (Juarez Marialva Tito Martins Paraiso) nasceu em 03/09/1934, em Arapiranga (antiga Furnas), no município de Minas de Rio de Contas, na Bahia, região da Chapada Diamantina, terceiro filho do casal Isaltino Concécio Paraiso e Eulália Martins Alves Paraiso. Isaltino, negro, era soteropolitano e conheceu Eulália em Minas de Rio de Contas, onde foi procurar trabalho. Eulália, branca, descendente de portugueses, era riocontista. Cinco anos após o nascimento de Juarez Paraiso, a família estabeleceu-se em Minas de Rio de Contas. Em 1942 Isaltino viaja para Salvador, com o intuito de se estabelecer e sua esposa e seis filhos juntaram-se a ele no ano seguinte. Isaltino atuaria como contador e, depois, como professor (PARAISO, 2006, p. 334).

Os primeiros contatos de Juarez com o desenho deram-se com lápis de cores quando criança, em Minas de Rio de Contas, ocasião em que também brincava modelando o barro nas regiões ribeirinhas e, pouco tempo depois, com seus primeiros entalhes em umburana, madeira esculpida a canivete.

Já adolescente, era fascinado pelas personagens das histórias em quadrinhos e os universos gráficos da aventura e da ficção científica dos desenhistas Alex Raymond, Harold Foster, Will Eisner e Burne Hogarth, com os quais preencheu vários álbuns com cenas retiradas das revistas daqueles ilustradores. Talvez venha daí o interesse e a preferência, anos depois, já adulto, pelo desenho e pela linha, recursos nos quais desenvolveria uma habilidade excepcional. Um desses álbuns foi mostrado por Isaltino ao artista e professor da Escola de Belas Artes (EBA) da Universidade Federal da Bahia, Raymundo Aguiar, em busca de orientação e este recomenda que o jovem se matriculasse no Curso Anexo do Instituto Baiano de Artes Plásticas, o qual funcionava no mesmo prédio da Escola de Belas Artes, no antigo Solar Jonathas Abbott, que oferecia cursos livres e instruções preliminares de desenho artístico, desenho geométrico e de modelagem. Seguindo a recomendação, Juarez matriculou-se no Curso Anexo, à noite. Uma nova etapa na sua formação educacional se deu posteriormente, em março de 1952, com sua aprovação no vestibular para a Escola de Belas Artes, aos 17 anos. Concluiu três cursos: Pintura (termino em 17/12/1956), Gravura, então o primeiro curso superior aberto no país, e Escultura (PETIÇÃO…, 1960).

Teve como professores, Raymundo Aguiar (Raymundo Chaves de Aguiar, 1893-1989), Mendonça Filho (Manoel Ignácio de Mendonça Filho, 1895-1964), Alberto Valença (Alberto de Aguiar Pires Valença, 1890-1983) e Ismael de Barros (1898-1993), dentre outros. De todos, Mendonça Filho — também diretor da Escola de Belas Artes —, teria um papel fundamental que extrapolaria o desenvolvimento do aprendizado de Juarez Paraiso, apoiando-o quando de sua função de professor naquela mesma Escola na cátedra de Desenho de Modelo Vivo, em virtude da aposentadoria de Alberto Valença.

Em termos de participação em exposições, já evidenciava, a partir de 1952, uma qualificação técnica e expressiva dos recursos oferecidos pela pintura e pela escultura que favoreceram seu destaque na primeira mostra coletiva: o 2º Salão Universitário Baiano de Belas Artes, rendendo-lhe uma Medalha de Ouro na seção de Escultura e Menção Honrosa na seção de Pintura (PARAISO; FALCÃO, 2006, p. 344). No ano seguinte, angariou a Medalha de Ouro na seção de Desenho do 3º Salão Universitário Baiano de Belas Artes e, em 1954, o segundo prêmio de Desenho no 2º Congresso Nacional de Artes Plásticas e Menção Honrosa no 4º Salão Baiano de Belas Artes. Neste último, o crítico José do Prado Valladares (1957, p. 158) destacou o nome de Juarez Paraiso, ao lado de Arnaldo Britto, como “[...] dois pontos altos do salão, com dois quadros de pequenas dimensões [...]” da sessão de Pintura. No ano seguinte, 1955, na quinta edição do Salão Baiano de Belas Artes, instalado na galeria da Diretoria Municipal de Turismo (Belvedere da Sé), Juarez Paraiso destacou-se ao angariar o prêmio Universidade da Bahia, com um estudo de nu feminino, participando da Divisão Geral (VALLADARES, 1957, p. 158; 165). Já no 6º Salão Baiano de Belas Artes, instalado em galerias da Escola de Belas Artes, em 1956, Juarez Paraiso não obteve premiação, porém, uma vez mais, chamou a atenção de José do Prado Valladares (1957, p. 172-173). Ainda naquele mesmo ano de 1956, mais dois outros prêmios: no IV Congresso Nacional de Estudantes de Arte, em Recife (primeiro prêmio de Desenho) e V Festival Universitário de Arte (segundo lugar seção de Pintura) (PARAISO, 2001, p. 99).

A formação acadêmica de Juarez Paraiso se deu paralelamente a sua experiência como professor, entre 1956 a 1960 (PARAISO; FALCÃO, 2006, p. 342), no Instituto Baiano de Ensino e, posteriormente, com sua contratação a partir de 26/04/1957, para exercer a função de Auxiliar de Professor Regente na Escola de Belas Artes. (OFÍCIO 2265, 29 abr. 1957).

Ao término do curso Escultura, o diretor da EBA Mendonça Filho ofereceu-lhe uma bolsa de estudos na Europa, para passar dois anos em Paris e um na Itália (MIDLEJ, 2008, f. 35). A opção de dar continuidade ao trabalho como professor e a sua própria carreira como artista, aqui mesmo no Brasil, levou-o a recusar a oferta da bolsa, pois dado ao relevante papel da EBA no cenário artístico baiano e nacional ¾ foi a segunda Escola de Belas Artes do país ¾ e sendo uma importante referência no ensino de arte, tornar-se professor daquele estabelecimento era algo que agregava prestígio social e respeito. (MIDLEJ, 2008, f. 35). Dois anos após sua contratação, Juarez passou a lecionar Desenho Artístico II e sua experiência como docente estendeu-se, oficialmente, até sua aposentadoria, em 1998, com posteriores colaborações no Programa de Pós-Graduação daquela mesma Escola. Em 1996 foi destacado como Professor Emérito da UFBA.

Juarez Paraiso integra a chamada segunda geração de artistas modernos da Bahia, juntamente com Calasans Neto, Sante Scaldaferri, Jenner Augusto, Betty King, Adam Firnekaes, Riolan Coutinho, Leonardo Alencar, Sonia Castro e Jamison Pedra e teve destacada atuação a partir da década de 1960, exemplificada pela abordagem não-figurativa na produção de desenhos abstratos, constituindo-se no mais importante artista daquela segunda geração (MIDLEJ, 2008, f. 179), tendo exercido influência muito grande na formação de novos artistas. Além da qualidade artística das suas criações, uma das atividades desenvolvidas pelo artista que também referendam essa afirmativa é a atuação como Secretário Geral das Bienais da Bahia, certame cujo nome oficial era Bienal Nacional de Artes Plásticas, porém, tornou-se conhecido popularmente por Bienais da Bahiae teve duas edições, em 1966 e 1968. Não houve continuidade devido à extinção por decreto do governo Luiz Vianna Filho (PARAISO, 2005, p. 122), receoso de possíveis represálias pela ditadura militar que acabara de editar o Ato Institucional número 5, o AI-5. Já em projeto de gestação desde 1960 (7 DIAS…, 29 nov. 1960, p. 4), a Bienal Nacional de Artes Plásticas teve entre seus idealizadores Alaor Coutinho, diretor do Departamento da Educação Superior e da Cultura (DESC) — espécie de Fundação Cultural do Estado da época — no governo de Antônio Lomanto Júnior. Como Secretário Geral Juarez Paraiso contou com uma equipe eficiente de profissionais, dentre os quais estavam Riolan Coutinho, Chico Liberato e o arquiteto Pasqualino Magnavita.

Desenhista e muralista brilhante, produziu diversas esculturas, painéis, decorações de carnaval, peças gráficas, figurinos e cenários para teatro e murais em espaços públicos e privados no Estado da Bahia e em Brasília, fazendo do domínio técnico um aliado incondicional da sua produção artística. Suas mais destacadas obras foram o mural do Cine Bahia e a ambientação do Cine Tupy (de 1968, ambos destruídos), o mural da Secretaria da Agricultura, no Centro Administrativo da Bahia (1974), o painel para o Clube da Aeronáutica de Brasília (1976), o mural do Hospital Roberto Santos (1979), os murais dos Cines Art I e II (1988, destruídos), mural do Museu Geológico (1998), além de esculturas expostas na entrada do Parque de Exposições Agropecuária de Salvador (1979), no Parque de Pituaçú (1979), no Condomínio de Interlagos (1986) e no Parque de Esculturas do Museu de Arte Moderna da Bahia (1997). Nesse âmbito de atuação em espaços públicos situam-se, também, calçadões, com destaque para os do Edifício Monsenhor Marques, no Largo da Vitória, em Salvador (1978), os calçadões da Praça da Sé (1982, destruídos) e calçadões do Hospital da Aliança da Bahia (1989) e do seu Setor Pediátrico (2001), trabalho que continuou a se desenvolver nos anos seguintes, abrangendo relevos e gradis.

Em diversas ocasiões Juarez Paraiso mereceu comentários do escritor baiano Jorge Amado. Um destes comentários originou-se da participação, em 1977, do artista encarnando, como ator, a personagem Pedro Archanjo no filme Tenda dos milagres (PARAISO; FALCÃO, 2006, p. 8), participação relatada no livro de memórias Navegação de cabotagem (AMADO, 1992, p. 458). Porém, o mais significativo é o relato da contratação do artista pelo Governo do Estado para a realização do mural para a Secretaria de Agricultura no Centro Administrativo da Bahia – CAB. Com a alegação de ser “um dos principais artistas brasileiros, nada fica a dever aos demais, é um mestre” (AMADO, 1992, p. 457) Jorge Amado inseriu o nome dele na relação de artistas sugeridos ao Governador Antonio Carlos Magalhães para trabalhar nos murais e painéis do novo centro administrativo da cidade. Só que como Juarez cultivava desafetos e “acabara de sair de uma cadeia de meses. Na impossibilidade de ocultar-lhe a posição de militante de esquerda, ao propor-lhe o nome castiguei nos elogios ao artista: para mim dos primeiros da Bahia, eu o situo entre os principais” (AMADO, 1992, p. 457). Antonio Carlos Magalhães não discordou do escritor e alegou conhecer e apreciar a obra do artista (AMADO, 1992, p. 458). Jorge Amado, todavia, descreve que o funcionário incumbido de receber os projetos “ao ver a assinatura perseguida” enfurnou o material de Juarez Paraiso na gaveta. Resultado: os demais artistas iam sendo convocados para assinar os contratos, exceto Juarez. Pressionado a dar alguma satisfação às constantes cobranças do artista, o responsável pelo recebimento dos projetos alegou o Governador não ter gostado da proposta do artista e recusou-a (AMADO, 1992, p. 459). Descontente, Juarez Paraiso deu a noticia a Jorge Amado e agradeceu a indicação do seu nome para o projeto. Estranhando o ocorrido, o escritor indagou o motivo da recusa telefonando diretamente para o Governador. Resultou que Antonio Carlos Magalhães nada sabia do ocorrido, desconhecia, não vira e nem proibira o projeto e entendendo ter havido abuso de autoridade, mandou que Juarez fosse às 14h daquele mesmo dia no CAB, para assinar o contrato e assim se resolveu a celeuma.

No desenho, Juarez Paraiso utilizou o eucatex como suporte, o que conferia maior durabilidade e resistência às obras. Na xilogravura utilizou pano como suporte para impressões coloridas, extrapolando, assim, a limitação das reduzidas dimensões dos papéis disponíveis no mercado, na época (meados dos anos 1960 e, posteriormente, nos 1970), e evitando a utilização de vidro, fatores esses que facilitavam a circulação das peças. Foi assim que produziu 10 peças apresentadas no Festival de Arte Negra da Nigéria, em 1975. Nos anos 1970 inseriu técnicas de clichê tipográfico mesclados às técnicas deágua-forte e água-tinta, da gravura em metal. (PARAISO; FALCÃO, 2006, p. 344).

Os entrelaçamentos de formas circulares de conotação orgânica constituem uma inconfundível marca da produção paraisoana, e se espelhava nas diversas técnicas com as quais trabalhou. Participou de exposições no Brasil e no exterior, com destaque para os 8º, 12º e 16º Salões Nacionais de Arte Moderna (respectivamente em 1959, 1963 e 1967), no Rio de Janeiro, duas edições do Panorama de Arte Atual Brasileira 1969 (1970 e 1975), no Museu de Arte Moderna de São Paulo, o 28º Salão Paranaense (1970), em Curitiba, no qual obteve um prêmio de aquisição e a 12ª Bienal Internacional de São Paulo (1973), onde expôs “Mutações”, uma série de desenhos em nanquim e acetato sobre papel, e “Fotomontagens”, conjunto com variações de expressões fisionômicas do artista mesclados a órgãos e detalhes da anatomia humana. (MIDLEJ, 2008, f. 168-171). Participou, também, da 14ª Bienal Internacional de São Paulo (1977).


Fonte: www.dicionario.belasartes.ufba.br
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