terça-feira, 22 de novembro de 2016

Ruth de Souza, 95 anos: Sou a atriz negra e coadjuvante ganhando homenagem


Numa época em que brancos tinham de se pintar de preto para entrar em cena, a atriz Ruth de Souza, 95, chegou a ouvir risadas incrédulas quando decidiu pela vida nos palcos. Hoje, a primeira negra a se apresentar no Teatro Municipal do Rio, na peça “O Imperador Jones” (1945), também primeira a ser protagonista de uma novela, “A Cabana do Pai Tomás” (1969), é tema de uma ampla mostra audiovisual.


Gianne Carvalho/Folha Imagem

“Pérola Negra: Ruth de Souza” fica em cartaz até o dia 28 deste mês no CCBB São Paulo, reunindo 25 produções de cinema e TV que tiveram a ilustre participação da artista. São mais de seis décadas de produção retratadas sob a ótica da carioca, uma filha de lavrador que, antes de se consagrar na TV, precisou interpretar empregadas domésticas e todo tipo de arquétipo relacionado aos negros.

Nada disso veio sem luta, nem algumas frustrações. No cinema, por exemplo, Ruth jamais conseguiu deixar de ser coadjuvante. “Briguei e cobrei muito de todo o mundo. Mas foi a Janete Clair e o Dias Gomes que deram a mim e ao Milton Gonçalves a oportunidade de fazer todo o tipo de trabalho”, conta, com voz embargada, em entrevista por telefone ao UOL.

Sobre o fato de o racismo ainda ser uma questão em pleno século 21, Ruth, com saúde frágil e aposentada desde 2010, é sucinta: “Tudo é uma questão de educação”, resume, antes de revelar uma de suas maiores alegrias atuais: perceber o reconhecimento de Lázaro Ramos e Taís Araújo, estrelas da série “Mister Brau”. “Falei para o Lázaro: ‘Vocês estão realizando um sonho que eu tive’.”


Ruth (centro) em ?Filhas do Vento?, que lhe rendeu prêmio de melhor atriz em Gramado

UOL – Como se sente sendo homenageada com uma mostra de cinema?

Ruth de Souza – Estou tão orgulhosa. Não esperava que o CCBB fizesse isso. Eu tive a oportunidade de rever muitos dos meus trabalhos. O Breno [Lira Gomes, curador da mostra] foi muito feliz em mostrar várias fases do cinema nacional, que muita gente não conhece. Para mim, é muito importante porque nunca estrelei filmes, sempre fui coadjuvante. Sou uma atriz negra e coadjuvante que está recebendo uma mostra, o que torna essa homenagem muito comovente.

Você começou no cinema nos anos 1940 como empregada e, 50 anos depois, viveu pianista e juíza na TV. Você tem noção da sua importância no rompimento de estereótipos sociais no Brasil?

É que eu sempre briguei e cobrei muito de todo o mundo para ter espaço. Mas foi a Janete Clair e o Dias Gomes que deram a mim e ao Milton Gonçalves a oportunidade de fazer todo o tipo de trabalho. Antes deles, era só a negra gorda alegre, feito a empregada do “…E o Vento Levou”. Havia muito disso no teatro, antes da televisão e do cinema. E, mesmo em Hollywood, só depois que a atriz de “…E o Vento Levou” [Hattie McDaniel] ganhou o Oscar que isso começou a mudar. Antes, os negros eram mostrados de forma ridicularizada.

Muitos avanços foram feitos, mas o preconceito racial persiste nos mais diversos meios. O que é preciso fazer para mudar isso?

Eu vi que o ator da Globo [Bruno Gagliasso] adotou uma menininha da África, e muitos falaram coisas. Fizeram uma maldade muito grande com ele. Ainda há muita dificuldade. Falta educação. A pessoa que tem educação não tem preconceito racial. Pelo menos por toda a minha experiência, todos os meus amigos brancos me tratam com o maior respeito e tranquilidade. O fato de o Barack Obama ter sido eleito presidente nos Estados Unidos trouxe uma melhora muito grande. Mas agora veio esse homem horroroso [Donald Trump]. Estou apavorada com ele.

Acha que o combate ao racismo está retrocedendo com os últimos acontecimentos na política?

Acho que a questão do preconceito racial não está exatamente nisso, na politicagem. Está mais ligada em conseguir dar oportunidade para o estudo. Em obrigar todos a ter uma educação formal e também religiosa. Isso é muito importante.


Ruth de Souza como escrava Sabina no filme “Sinhá Moça”, de Tom Payne

Já sofreu preconceito no trabalho?

Sim. Mas eu sempre tive consciência de tudo, e Deus me ajudou. Quando entrei no teatro, os atores negros brancos precisavam se pintar para fazer papel de negro. Foi aí que comecei a ver que havia alguma coisa. Mas, na minha experiência, eu sempre tive o apoio de muita gente maravilhosa, que tenho grande carinho e respeito. O primeiro filme que fiz foi por indicação do Jorge Amado [“Terra Violenta”, de 1948].

E foi o Pascoal Carlos Magno [teatrólogo e diplomata brasileiro] que arranjou uma bolsa para mim nos Estados Unidos. Eu estava com medo de ir, por causa da questão racial. Lembro que o Nelson Rodrigues disse assim: “Se você não for, vou trocar de mal com você”. Antes de ir, o Vinicius de Moraes me mandou uma carta. “Você vai para os Estados Unidos, e se alguma coisa te acontecer, procure meus amigos em Washington.” Não precisei usar a carta dele, graça a Deus.

Mas eu sabia das dificuldades que era ser uma atriz negra. Só agora é que os atores negros estão aparecendo, como o Lázaro Ramos e a Taís Araújo. Falei para ele: “Vocês estão realizando o sonho que eu tive”. É uma grande alegria.

Há muitas “Pérolas Negras” por aí. Gosta do apelido?

Acho engraçado (risos). Sinceramente não esperava essa homenagem. Foi muito lindo.

O que sente mais falta sem atuar?

Acho que a carreira do ator é uma terapia constante. Quando você tem um problema pessoal e sai do camarim para o palco, o problema fica no camarim. Uma vez eu estava com a Sílvia Bandeira no camarim, fazendo a peça “8 Mulheres”, e estava com uma rouquidão danada. Entrei em cena, fiz a peça e voltei. Daí ela perguntou: “O que aconteceu que sua voz continuou igual?”. Eu disse que não era eu. Era a personagem (risos). Estou com um problema na perna que me impede de caminhar. Sinto muito falta de atuar.


Por Leonardo Rodrigues, do UOL
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