sábado, 19 de novembro de 2016

Na Cúpula do Clima, muito discurso e uma certeza: países pobres estão sozinho


“Vocês estão sozinhos nessa”. Foi esta a mensagem que os países ricos deixaram para os pobres ao fim da Cúpula do Clima que acabou de acontecer durante dez dias em Marrakesh, no país africano do Marrocos. Os pobres reivindicam ajuda para suportarem os revezes trágicos causados pelas mudanças climáticas, fenômeno que, conforme cientificamente provado, está acontecendo, em grande parte, porque os ricos consomem excessivamente o combustível fóssil.

A informação chegou-me há pouco, via mensagem eletrônica enviada pela ActionAid, organização não-governamental internacional que tem foco no combate à pobreza que acompanhou a COP22 lá no Marrocos. O coordenador global de assuntos climáticos da organização, Harjeet Singh, escreveu sobre o que chamou de travamento dos trabalhos por causa da questão financeira:

“Embora vários países tenham feito contribuições bem-vindas para as necessidades imediatas de financiamento, os países ricos têm tentado se livrar de suas responsabilidades de ajudar as nações mais pobres a lidar com os custos de enfrentar os impactos das mudanças climáticas e tornar suas economias mais ecológicas. A ação climática custará dinheiro que os países mais pobres simplesmente não têm. A mensagem geral aos países em desenvolvimento é ‘você está sozinho’. Sem financiamento real e cortes drásticos nas emissões de gases pelos países desenvolvidos, o planeta não tem chance de ficar abaixo do aquecimento de 1,5°C. Os governos das nações ricas devem se lembrar que, mesmo que tenham ganhado a luta financeira na sala de conferências, eles ainda serão os perdedores em um planeta mais quente". 

Para os brasileiros, as notícias também não são boas. No penúltimo dia da Cúpula do Clima, os ministros José Sarney Filho e Blairo Maggi, do Meio Ambiente e da Agricultura, respectivamente, receberam uma carta assinada pelo Observatório do Clima em que a organização demonstra preocupação – para usar uma expressão bem polida – com algumas declarações dadas por Blairo Maggi no encontro mundial.

“Nos últimos dias, o ministro Maggi já disse que a ‘consciência’ dos produtores mantém florestas preservadas; que assassinatos de ambientalistas no Brasil são ‘problemas de relacionamento’; e que a agropecuária ‘não é a vilã’ das mudanças climáticas”, diz o texto que recebi por mensagem eletrônica.

Ontem (17), ainda segundo o texto, Maggi foi além disso. Numa reunião com representantes da organização Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, ele disse que o compromisso assumido pelo governo passado com os líderes da Cúpula do Clima de Paris, que conseguiu o Acordo histórico para baixar emissões de carbono, são “intenções”. É, claramente, uma posição que serve para enfraquecer o que deveria ser uma determinação, um pacto assumido diante da comunidade internacional. Vale lembrar que Blairo Maggi é exportador de soja e que a soja é uma das causas do desmatamento.

Na carta, os ambientalistas do OC, uma coalizão de organizações da sociedade civil para discutir mudanças climáticas, lembram ainda que “O setor rural brasileiro tem uma imensa responsabilidade sobre a contribuição brasileira para as emissões globais de gases de efeito estufa e, portanto, para o aquecimento global”. Embora tenha havido avanços na luta contra o desmatamento, não se pode falar, ainda, em agropecuária sustentável.

Outra declaração pontuada pelos ambientalistas como polêmica foi quando Maggi comentou, em painel da Cúpula de Marrakesh durante o Global Landscape Forum, no dia 16 de novembro, os crimes acontecidos na floresta como “problemas de relacionamento de pessoas de determinados lugares’.

“O Brasil não é apenas o país do mundo onde mais se mata ambientalistas. Segundo a Global Witness, organização estabelecida em 1993, apenas em 2015 foram 50 mortes, um terço do total mundial – em sua maioria na Amazônia brasileira. Afirmar, portanto, que esses óbitos se devem a “problemas de relacionamento” pode ser comparado ao negacionismo climático expresso, por vezes, pelo presidente eleito dos EUA, Donald Trump, como quando disse o aquecimento global é invenção dos chineses para tornar a indústria americana menos competitiva”, diz a carta, assinada por André Ferreti e Carlos Ritl, coordenador-geral e secretário-executivo do Observatório do Clima.

O desabafo dos brasileiros foi ouvido pelo ministro numa reunião. E só.

Segundo um estudo feito e publicado (sem contestação por parte de nenhuma autoridade governamental) pelo Observatório do Clima, o desmatamento respondeu por 35% do total dos gases do efeito estufa do Brasil em 2013.

Sendo assim, além do fato de a Cúpula ter terminado sem manchetes, não deixou muito o que celebrar para a sociedade civil. A expectativa era de que o encontro formatasse o Acordo de Paris conseguido no fim da COP21, que terminou em dezembro do ano passado e conseguiu, por causa do compromisso mundial, holofotes da imprensa mundial. Não está sendo o caso agora. O texto final da COP22 apenas reiterou os compromissos de baixar emissões, de adaptar os territórios para as mudanças climáticas, consideradas já irreversíveis. Os países apenas reafirmaram um compromisso de tentar mobilizar 100 bilhões de dólares anuais para os mais pobres. Se alguém aí está pensando em retórica inútil não estará muito distante da realidade.

“A Cúpula de Marrakesh marcou um ponto de inflexão em nosso compromisso de trazer toda a comunidade internacional para atacar um dos maiores desafios de nossa era”, diz o texto final do documento. O excesso de palavras que não concluem uma ação dá o tom do encontro.

O fato de os norte-americanos terem eleito Donald Trump, um cético do clima que já anunciou que pretende não levar a sério a necessidade de baixar as emissões de carbono, pode ter contribuído para esse final bem infeliz para os países pobres. Mas, de verdade mesmo, nunca houve mais do que promessas, desde que esse fundo para os pobres foi pensado, em 2009.

Vida que segue. Ano que vem o encontro mundial dos líderes para debater sobre o clima será nas Ilhas Fiji, uma das nações que corre o sério risco de desaparecer do mapa, engolfada pelas águas do Oceano Pacífico. Mudanças profundas estão acontecendo nas grandes massas de gelo das regiões polares, o que está fazendo aumentar a temperatura nos polos, em especial no Ártico. O gelo derrete e vai parar nos oceanos, cujas águas vão encontrar pouso nas terras antes agricultáveis das pequenas nações-ilhas localizadas por lá. Sem agricultura, sem alimento. Sem alimento, sem humanidade. É do que se trata.


Via G1
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