segunda-feira, 3 de outubro de 2016

O político sem partido


O prefeito de Porto, Rui Moreira, explica por que nunca se filiou a legenda alguma, como ganhou a eleição e o que tem feito para atrair investimentos e transformar a segunda maior cidade de Portugal em um "laboratório de inovação"

O senhor se orgulha de não estar vinculado a nenhum partido político. A ideologia atrapalha? Pode atrapalhar, não pela ideologia, mas pela clientela. Os partidos são, hoje, uma organização piramidal. Para ascender ao topo é necessário fazer uma série de alianças de modo que, assim que se chega ao cume, torna-se necessário prestar vassalagem, pagar o favor àqueles que o ajudaram a crescer. Quando saímos da ditadura, tanto em Portugal quanto no Brasil, não havia a figura do político profissional. Os políticos eram pessoas que tinham participação cívica, que haviam se destacado na cultura, eram universitários ou advogados. Essa carreira de político profissional acaba sendo muito contaminada, não pela necessidade de prestar um serviço público, mas de agradar a quem o permitiu chegar lá.

Não se identifica com nenhuma vertente política? Não. No âmbito social, sou de esquerda. Na organização do Estado, de direita. Sou uma pessoa tipicamente do centro, da social democracia. Nunca fiz parte de partido algum.

Depois de tantos anos no empresariado, o que o levou a candidatar-se à Câmara Municipal (o equivalente à prefeitura, em Portugal)? Por mais de dez anos, fui presidente da Associação Comercial do Porto, que é mais do que uma câmara de comércio tradicional. Tem uma função que vai além de reunir pessoas da área de negócios. Por lá, também circulam profissionais liberais, advogados, e sempre foi, desde 1930, um senado informal da cidade, onde se discutem questões políticas, culturais e, claro, empresariais. Foi na associação que comecei a ter uma voz política no Porto. Em 2013, o prefeito anterior havia cumprido três mandatos e, portanto, não podia concorrer à reeleição. E eu não gostava de nenhuma proposta dos candidatos que se apresentavam. Elas não correspondiam àquilo que a cidade necessitava. Era conhecido na cidade não só pelo meu papel na Associação Comercial, mas também pelos artigos que escrevia para os jornais e por minhas aparições em programas de televisão. Achei que era uma boa oportunidade para tentar uma candidatura independente, reunindo um conjunto de pessoas que eu conhecia da esquerda e da direita.

Por que o senhor decidiu fazer campanha ouvindo os moradores de diferentes bairros do Porto? As pessoas estão fartas de escutar os políticos. Elas querem ser ouvidas. Percorri 6 mil quilômetros e fiz reuniões com os cidadãos em torno de temas previamente definidos. Eram como convenções em que eu chamava todo mundo a participar. Em um dia discutíamos política, no outro transporte, urbanismo, ambiente, segurança... Andava muito a pé pela cidade também. O que mais ouvia era que o Porto não era confortável. Os mais velhos queriam uma cidade segura e limpa, onde pudessem andar na rua a pé. Já os mais novos — o Porto tem muitos jovens, pois é uma cidade universitária — queriam uma cidade vibrante, que propiciasse a vivência de coisas interessantes.

E o que foi feito para atender a essas demandas? O aspecto mais importante foi a democratização da cultura. Nossa cidade sempre teve templos de cultura, mas tudo era muito elitizado e estratificado. Havia uma segmentação da cultura na cidade. O que fizemos foi proporcionar um conjunto de atividades, espalhamos cultura pela cidade e a democratizamos. Essa atitude teve resultado muito rápido. Na parte social, criamos programas intensos relacionados à sociedade civil. Portugal, durante anos, investiu muito no estado de bem-estar social, com educação e saúde gratuitas, que funcionavam bem. O estado conseguia responder às demandas dos cidadãos. Com a crise, que em Portugal começa em 2002, o cenário muda de figura. Surge o que chamo de uma nova pobreza, pessoas que se tornaram pobres e não sabiam ser pobres. Tivemos que garantir a sustentação social dessas pessoas.

"As pessoas estão fartas de escutar os políticos. Elas querem ser ouvidas."

No Brasil, temos a impressão de que Portugal oferece um baixo custo de vida com muitos benefícios sociais, como o senhor acaba de ressaltar. Essa conta fecha? Escuto muito isso quando estou no Brasil. A percepção do brasileiro é de que os portugueses pagam impostos baixos, mas não é verdade. Eles são bastante elevados. Somos, hoje, um dos cinco países que mais pagam impostos — dados do World Economic Forum mostram que 50,29% da renda dos portugueses é direcionada ao pagamento de impostos. Na Europa, o país só fica atrás da Suécia, Dinamarca, França e Espanha. Mas a conta realmente deixou de fechar. Isso levou o país à falência. Em 2011, falimos exatamente por esse motivo. E então veio a Troika (formada pela Comissão Europeia, o banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional) e nos obrigou a um tratamento de choque com a redução da despesa pública, que era necessária, mas, na minha percepção, foi feita de forma brutal, com aumento muito significativo dos impostos e redução do investimento público.

Portugal deixou de ser a periferia da Europa? Infelizmente, somos periféricos na Europa. Temos que saber viver como periferia. Andamos 500 anos descobrindo o mundo e olhando a Europa de lado. Só temos um vizinho, a Espanha, que nem sempre foi tão bom vizinho assim. Olhávamos a Europa com certa desconfiança. Para a geração dos meus filhos, essa circunstância já não se apresenta. Eu diria que somos periféricos, mas que, hoje, ninguém se preocupa com essa situação. Os países escandinavos, como a Suécia e a Finlândia, também são periféricos e não vivem esse drama. Nós superamos.

O Porto virou um polo criativo, com universidades oferecendo cursos de gestão criativa e a cidade sediando grandes eventos nesse segmento. O que foi feito para atrair especificamente essa indústria? Fizemos a ponte entre o conhecimento produzido nas nossas universidades e as empresas que conhecemos. Não só as grandes, mas especialmente startups. Criamos um ecossistema que potencializa essa interligação. Quando uma companhia demonstra interesse em se instalar na cidade, nós a ajudamos a encontrar lugares que podem servir de escritórios e casas para as pessoas que vão empregar. Apontamos e recomendamos todos os caminhos possíveis para facilitar essa instalação. Estamos também desafiando as empresas. Temos um projeto chamado “Desafios Porto”. Nele, convidamos os cidadãos a identificar problemas e pedimos às startups boas ideias para solucioná-lo. Esse modelo é muito virtuoso porque as companhias percebem as necessidades da cidade e ao mesmo tempo criam produtos que podem ser exportados. O Porto, que é uma cidade relativamente pequena, com 240 mil habitantes, acaba virando um laboratório de inovação. Esse ecossistema que serve de laboratório tem nos ajudado a atrair investimentos.

Que boa ideia já saiu do projeto “Desafios Porto”? Uma rede veicular de wi-fi. Todos os ônibus e veículos do município passaram a ser uma antena de wi-fi. No Porto, qualquer pessoa que esteja próxima ou dentro de um veículo desses consegue se conectar à rede automaticamente, sem ter que fornecer informações para aqueles cadastros chatos, como e-mail e senha. Isso fez com que tivéssemos a melhor rede veicular de wi-fi do mundo. O projeto foi desenvolvido por uma empresa do Porto, ligada a uma Universidade e, agora, essa companhia já está no Vale do Silício. Ocorreu também um fenômeno curioso: por causa do wi-fi, estudantes que não costumavam usar transporte público, passaram a andar de ônibus.

Quais caminhos cidades médias, como o Porto, podem seguir para ganhar relevância e não viver à sombra das capitais? As cidades têm que encontrar um modelo diferente. Precisam analisar o que têm de positivo. No nosso caso, apostamos na diversidade cultural. Veja, a cidade sempre teve uma vida cultural agitada, mas não tinha nenhuma política voltada a essa área. Não há uma receita universal, mas a reflexão deve ser nesse sentido: em que nós nos diferenciamos?

"A carreira de político profissional acaba contaminada, não pela necessidade de prestar um serviço público, mas de agradar a quem o permitiu chegar lá."

Quais condutas da iniciativa privada o senhor levou para a gestão pública? Vou dar dois exemplos concretos na gestão da água e da habitação social. Normalmente, as empresas que fazem a distribuição e o tratamento da água viabilizam suas contas aumentando os repasses ao consumidor. Esquecem-se de que a maneira mais simples de equilibrar contas é reduzindo o desperdício, as perdas de água. Fizemos essa revisão com a companhia que abastece a cidade. No Porto, 15% da população são inquilinos municipais, que vivem em habitações de propriedade da prefeitura. Fizemos ajustes para que a renda advinda dessas casas pagasse a manutenção delas. Isso não ocorria antes, o negócio não era sustentável. Outra coisa importante: procurei parcerias na iniciativa privada. Os municípios se esquecem da capacidade que têm de vender uma marca. Aliás, talvez a coisa mais importante que fizemos foi criar uma marca para a cidade do Porto. Quando assumimos, havia uma marca da prefeitura, mas não da cidade. Com a ajuda de um dos melhores designers gráficos do país, desenvolvemos uma marca que traz o nome da cidade em azul e um ponto final: “Porto.” Ela acabou por ser um fenômeno de atração e nos ajudou a vender a cidade para os investidores internacionais. Essas são condutas típicas de quem gere um município como um CEO.

Em 2015, o Porto recebeu quase 20% mais turistas do que no ano anterior. A que o senhor atribui esse crescimento tão expressivo? A vários fatores. Tivemos a disseminação da marca do Porto, que foi muito importante. Ganhamos consecutivamente o prêmio European Best Destinations, baseado no voto popular. Temos um aeroporto muito confortável e competitivo, onde operam muitos voos de companhias low cost, de baixo custo. Viajar de Paris para o Porto sai mais barato do que um táxi do Charles de Gaulle para o centro de Paris. Também temos a vantagem da proximidade. Estamos a duas horas de Londres ou, de novo, Paris. Há também a ideia de que Portugal é um país seguro, simpático, barato e com boa comida. Essa mistura é atrativa. Para os europeus, a insegurança é um tema novo e Portugal é visto como um país seguro. O europeu, no inverno, costumava ir para a Tunísia, Egito, Turquia. Hoje, muitos desses turistas acabam escolhendo Portugal, que tem um clima ameno. 

Como prefeito e ex-esportista, que benefícios reais o senhor acredita que eventos globais, como a Olimpíada, trazem para a cidade? Nenhum. Existe o desejo de alguns prefeitos de criar uma liga das cidades que não querem ser olímpicas. Acho que esses grandes eventos colocam um peso excessivo sobre os municípios. Excluindo Barcelona, que de fato mudou, e mudou bem, não me recordo de nenhuma outra cidade que tenha ficado melhor com a Olimpíada.

Quais outras cidades, no mundo, o senhor acredita que estão crescendo de maneira sustentável e atraindo investimentos? Olhamos algumas cidades com bastante atenção. No Brasil, acompanhamos Curitiba e, mais recentemente, o Recife. Em Curitiba, gosto muito do modelo de transporte com custo baixo e da forma como a prefeitura se articula com o munícipe. É muito eficiente. O cidadão é como um cliente da prefeitura, pois pode alertar os serviços municipais sobre tudo o que está acontecendo. No Recife, chama atenção a maneira como toda a região portuária está mudando. De formas diferentes, as duas cidades se aproximam do modelo em que acreditamos. Nos Estados Unidos, Austin, no Texas, transformou-se em uma cidade extraordinária, assim como Santander, na Espanha, Bristol, na Inglaterra, e Bergamo, na Itália.

Como será sua campanha à reeleição, no ano que vem? Simples. Vou para a rua falar com meus cidadãos e apresentar o meu projeto, que é de continuidade. Acho terrível essa história de ser prefeito e candidato ao mesmo tempo, então, vou tirar férias para tocar a campanha.


Por Fernanda Allegretti - 
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