terça-feira, 11 de outubro de 2016

O furacão Matthew e as mudanças climáticas: sim, é preciso fazer este elo


Quatro mortes na Florida, mais de 900 mortes no Haiti. Árvores caídas e um milhão de pessoas sem luz na Flórida, um município inteiro com casas destelhadas no Haiti. O acaso fez com que, justamente no fim de semana em que se comemorava a ratificação do Acordo de Paris, quando União Europeia decidiu aderir ao pacto, formando então um conjunto de 62 países que respondem por quase 52% das emissões globais, um furacão furioso devastou o Caribe e expôs a grande questão que envolve as mudanças climáticas. Sim, serão sempre os pobres os mais vulneráveis aos riscos dos eventos causados pelo clima. E, para que esse tipo de fenômeno não assuma proporções ainda maiores, mais violentas e frequentes, é que os 194 países envolvidos decidiram firmar esse pacto, com o objetivo não só de diminuir as emissões como de aumentar a resiliência aos impactos climáticos.

Não há mais espaço para os céticos do clima, simples assim. Kerry Emanuel, professor de Ciência Atmosférica do MIT (Massachusetts Institute of Technology) disse à equipe de reportagem do jornal “The Guardian” que, se tudo continuar como está, ou seja, se o consumo exagerado de combustível fóssil continuar aquecendo os oceanos, esse tipo de furacão de alta intensidade, que até aqui era um fenômeno raro, será cada vez mais frequente.

“São furacões de categoria 4 e 5, apenas 13% do total desses fenômenos, mas causam danos desproporcionais”, disse ele.

Michael Mann, também professor e cientista, concorda com o colega. E, em entrevista ao site Democracy Now, pôs foco sobre um assunto do qual pouco se fala. Mann lamentou que a ligação entre o furacão Matthew e as mudanças climáticas não esteja sendo feita pela maioria das reportagens de jornais, sites e televisões, como deveria. Ele explica como o evento é formado:

“Matthew é um bom exemplo de um furacão que era considerado raro, em certos aspectos sem precedentes, e que vem se intensificando mais por causa do aquecimento. E ficou mais forte justamente na região do Caribe, onde há mais concentração de calor e uma formação de águas profundas mornas. Essa camada, se não estivesse tão superaquecida, iria manter o furacão no oceano. Mas as temperaturas da superfície do oceano no Caribe estão em níveis recordes, como já comentamos muitas vezes. E como o aquecimento penetra nas águas profundas, acontece o que estamos assistindo. Acho lamentável, contudo, que a comunidade do clima não esteja fornecendo conteúdo crítico para que os jornais e televisões compreendam essa tendência, essa ligação entre as mudanças climáticas e eventos como furacões”, disse ele.


Outro que fez questão de frisar, na entrevista ao site, a falta de articulação para o público entre o fenômeno e as mudanças do clima foi Oliver Milman, jornalista do “The Guardian”. Para ele, especialmente as televisões a cabo não relacionam as duas coisas, o que é muito ruim para o objetivo de se informar corretamente para que os cidadãos comuns possam decidir aderir à causa. O cientista Michael Mann ressaltou ainda o papel nadacolaborativo de quem se autodenomina cético do clima. Sobretudo quando é uma pessoa que tem poder para criar políticas públicas, caso do governador da Flórida, Rick Scott.

“Ele é governador de um estado que está na linha de frente das mudanças do clima, não só por causa dos furacões mais intensos, como também porque o mar está avançando, e vamos ter inundações cada vez maiores. Isso é uma hipocrisia. Políticos como ele estão trabalhando em prol da indústria de combustíveis fósseis”, analisa Mann, que está lançando um livro sobre o assunto - “The Madhouse Effect: How Climate Change Denial is threatening our planet, destroying our politics and driving us crazy” – “O efeito manicômio: como a negação das mudanças climáticas pode ameaçar nosso planeta ou políticos e levar-nos à loucura”, em tradução literal - , e acredita que a única forma de isso tudo mudar é na hora do voto.

“Tem havido uma campanha de décadas por quem tem interesses nos combustíveis fósseis, pessoas que se põem a defender o uso só para confundir o público e os formuladores de políticas sobre mudanças climáticas. A maioria dessas pessoas é financiada ou está amarrada, de alguma forma, aos interesses dos combustíveis fósseis”.

O debate é válido. Assim como toda e qualquer ação que possa livrar pessoas de perderem tudo, quando não a vida, perdendo feio para as forças da natureza. Seja como for, enquanto o Acordo ainda não surte efeito, é preciso um outro pacto, o da solidariedade. Nesse sentido, organizações não governamentais estão fazendo seu papel, entre elas a ActionAid, que chama atenção, numa nota enviada aos jornalistas por mensagem eletrônica, sobre a crise humanitária que assola o Haiti depois do Matthew:

"A tempestade pode ter passado, mas o Haiti enfrenta agora uma crise humanitária. Mais de meio milhão de mulheres, crianças e homens estão em necessidade urgente de alimentos, água potável e abrigo seguro. Nas áreas mais afetadas na região de Grand Anse, no Sudoeste do país, milhares de pessoas estão em abrigos de emergência superlotados. Muitos já estão com escassez de comida e água limpa, que podem se esgotar totalmente nos próximos dias, uma vez que toda a região está isolada, devido ao colapso da ponte em Petit Goave. O aumento da cólera é um perigo real, pois o sistema de saneamento já é extremamente deficitário e foi ainda mais comprometido pelas inundações e chuvas fortes. A doença pode se espalha rapidamente. Em alguns abrigos, muitas vezes, nem sequer há banheiros suficientes”.

Em resumo: é disso que se trata quando se fala ou escreve sobre mudanças climáticas. O foco não é mais nas gerações futuras, como já foi quando, há cerca de trinta anos, os países ainda se davam ao luxo de discutir sobre um desenvolvimento sustentável. Não, o tempo é outro. Precisa estar atento para o que já vem acontecendo aos mais pobres e vulneráveis por causa do excesso de consumo que a humanidade vive desde o fim da II Guerra. Isso tem a ver com cada um de nós, em particular, mas sobretudo tem a ver com quem pode fazer políticas públicas e direcionar a ordem mundial no sentido de se viver com menos. Causando, assim, também menos impactos.


Via G1
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