terça-feira, 4 de outubro de 2016

Mais votada de BH, Áurea Carolina vai propor redução de salário de vereadores


Negra, feminista e do Psol, a cientista política Áurea Carolina conquista o mandato de vereadora com a promessa de um trabalho com participação popular.
Eleita com um apoio histórico de 17.420 eleitores, que deram a uma mulher negra e feminista, de um partido de esquerda que nunca havia chegado ao Legislativo na cidade, a maior votação na Câmara de BH, a cientista política Áurea Carolina (Psol) promete chegar causando. A representante dos movimentos sociais e de rua afirmou ao Estado de Minas que um dos primeiros projetos que pretende apresentar será para reduzir o salário dos vereadores, que hoje é de R$ 15.066,59. 

“É um abuso um salário tão alto quando a maioria da população se vira com salários muito baixo. É necessário que o exercício da política como profissão seja um trabalho de cidadania e não coisa para fazer carreira e ficar tão distante da população”, afirmou a vereadora eleita. Áurea Carolina disse que vai estudar tecnicamente um valor a ser proposto, mas acha que dá para reduzir “bastante”. 

Para si, a vereadora eleita firmou em cartório a promessa de doar parte do subsídio para servir a movimentos sociais. O coletivo que fundou e ajudou a eleger, além dela, Cida Falabela, das “Muitas pela cidade que queremos”, oficializou a proposta de doar de 40% a 70% do salário, de acordo com a necessidade de cada um. “Vou doar pelo menos a metade”, diz. 

A jovem Áurea Carolina, de 32 anos, mora com o companheiro, o advogado Saulo Veríssimo, e as gatas Margô e Baobá no Bairro João Pinheiro, Região Noroeste de BH. Não tem filhos e não pensou sobre isso ainda. 

“Sou essa lutadora, entreguei minha vida em nome dessa construção com os movimentos sociais. Sou feminista e cientista política de formação”, diz. 

Muitas pela cidade
Ainda emocionada com a votação surpreendente que teve, ela conta com o apoio popular para tentar colocar suas ideias em prática na Câmara. Sabe que, como em suas lutas até agora, será minoria junto com apenas mais uma vereadora do Psol. 

“Acredito muito no diálogo, na convivência e acho que vai ser possível criar algum campo de proposição lá dentro. Os movimentos vão me amparar, assim como os vereadores que tem respaldo na luta da cidade. Tem os vereadores reeleitos Gilson Reis (PCdoB), Pedro Patrus e Arnaldo Godoy, do PT, que acho que vão ser parceiros. É uma expectativa, porque temos pautas em comum”, disse. 

Maurício Tizumba foi um dos apoiadores na campanha (foto: Reprodução facebook)

Áurea Carolina se surpreendeu com votação que teve. Disse que foi uma demonstração da força do campo de resistência na cidade. “É que somos muitas mesmo. Era por convicção e conquistei uma vitória extraordinária para as mulheres, a população negra, a juventude, geral colou em busca de outra política possível”, afirmou. 

Companheiro de Áurea, o advogado Saulo Veríssimo acredita que a votação expressiva dela tenha sido em razão de uma sociedade que clama por representatividade. “Ela conseguiu canalizar essa luta. A Áurea já é uma política desde sempre, está nas ruas na batalha, o que aconteceu foi uma vaga na câmara. Essa votação expressiva é ressonância de uma carência de representatividade dentro da câmpara, acho que ela é justamente essa representatividade”, afirmou. 

Com os motes “mulheres no poder” e “nenhum direito a menos”, Áurea Carolina, conquistou uma das 41 cadeiras da Câmara Municipal de Belo Horizonte com as promessas de lutar pela aprovação de um plano municipal da juventude, pela ocupação dos espaços públicos, por igualdade racial e pelo “empoderamento das mulheres”. 

"É mulher preta"
Assim que foi confirmada sua eleição, Áurea foi comemorar com o povo na entrada do Psol. Aclamada com gritos de mulher preta, ela retribuiu com um discurso de participação popular. 

“Geral, nós vamos construir um mandato popular para as mulheres, para a população negra, as juventudes, a população LGBT, as ambulantes, população de rua, quem rala todo dia nessa cidade, por nenhum direito a menos, por nenhum despejo a mais. É por dignidade por diversidade, uma política de amor, radicalmente democrática. Tamos juntas! Fora Temer”, disse. 
Dentro do grupo cidade que queremos, Áurea e todos os outros 11 candidatos se comprometeram com as plataformas políticas uns dos outros. Eles também registraram que farão assembleias populares para tomar as decisões do mandato. 

Muito conhecida nos meios do hip hop, luta pelos direitos do negro e de LGBT, ela teve apoio maciço da classe artística e dos movimentos sociais. Artistas como o músico Maurício Tizumba declararam apoio publicamente a ela. 

Áurea Carolina fez especialização em gênero pela Universidade Autônoma de Barcelona. 

Pediu exoneração
Foi subsecretária das Políticas para as Mulheres de Minas Gerais, de onde pediu exoneração, abrindo mão de um cargo com salário de R$ 9 mil por não concordar com os rumos do governo Fernando Pimentel (PT). “Vi que não tinha condições de desenvolver um trabalho lá dentro e preferi voltar para o trabalho autônomo de fortalecer o campo das lutas sociais.” 

De lá, ela voltou à coordenação da Secretaria Executiva do Fórum da Juventude da Grande BH, uma entidade da sociedade civil, e ficou até março deste ano, quando saiu para se dedicar integralmente à campanha. Não só a dela, mas a do coletivo que ajudou a criar, o “Muitas pela cidade que queremos”. 

O movimento, que tem suas raízes no movimento de ocupação dos espaços públicos impulsionado pelo carnaval de rua e a Praia da Estação, lançou 12 candidatos, conseguindo eleger, além dela, a atriz Cida Falabela. 

Ultimamente, a vida de Áurea Carolina é praticamente toda voltada para a campanha, mas ela também dá oficianas para jovens e faz palestras. “Trabalho muito trazendo esse debate em diferentes formatos. Trabalho em casa também e nas redes sociais”, diz. 

Votação histórica
Uma votação histórica deu a Áurea Carolina de Freitas e Silva, mulher, negra, feminista e de um partido de esquerda, a maior votação da Câmara Municipal de BH. Áurea Carolina chega à câmara prometendo um mandato diferente, voltado para as minorias. 

Com R$ 15.225,72 em despesas contratadas, cerca de um terço dos R$ 50 mil gastos pelo segundo em proporção de votação, Professor Wendel Mesquita (PSB), Áurea Carolina teve mais de 4 mil votos a mais que ele. Sua campanha ganhou força nas redes sociais.


Via Em.com
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