terça-feira, 9 de agosto de 2016

O eterno patropi


A aflição continua, mas o Brasil está de alma lavada com a festa, o talento, o calor, a cor, a música e a alegria da abertura da Olimpíada do Rio, que teve a presença excessivamente sóbria e visivelmente desconfortável do presidente interino Michel Temer e a ausência sobejamente justificada e bastante constrangedora de um outro personagem: Luiz Inácio Lula da Silva.

Temer foi vaiado por alguns segundos. E daí? Nada mais natural para um presidente interino, em meio a um processo de impeachment. E nada mais natural no Brasil, no Rio e no Maracanã. Fosse Fernando Henrique, Lula, Dilma, Aécio, Marina, qualquer um, sempre haveria alguma vaia. Logo, ele não precisava ficar tão tenso, tão formal. Não sorriu nem mesmo quando a delegação brasileira explodiu em campo.

E a imagem de Lula pairava sobre o Maracanã. O Rio só foi escolhido para sediar a Olimpíada, naquele tão distante (em vários sentidos) 2009, porque o Brasil era o queridinho, a economia caminhava para o crescimento recorde de 7,5% no ano seguinte e Lula era um dos líderes mais badalados do mundo. Para sermos justos, se a Olimpíada caiu no nosso colo, isso se deve muito à força política de Lula naquele momento.

Não foi o destino quem quis, foi o próprio Lula quem se autoexcluiu da belíssima festa de abertura, sete anos depois, por escolher a mulher errada, na hora errada, para o cargo errado e, principalmente, por mergulhar de cabeça num mar de esquemas e desvios mais poluído do que a Baía de Guanabara.

Na mesma sexta-feira em que os sites do mundo inteiro elogiavam o espetáculo do Rio, os brasileiros divulgavam documento do Ministério Público concluindo que Lula “participou ativamente do esquema criminoso” e é improvável que não tenha, direta ou indiretamente, recebido alguma vantagem. O mundo acompanha os Jogos e os brasileiros estão com a respiração suspensa, sem saber se tudo vai dar certo, mas Lula está às voltas com advogados, incertezas e um medo atroz sobre o que vem por aí.

Assim como o almirante aposentado Othon Luiz Pinheiro poderia ter brilhado para sempre como o “pai do programa nuclear do Brasil”, Lula poderia ter se contentado em ostentar sua contundente biografia e em ser o presidente brasileiro mais popular da história e o mais prestigiado no mundo. Mas a alma humana tem seus segredos e o bolso às vezes fala mais alto.

O almirante não só é acusado de usar seu prestígio e sua expertise para corrupção, como tragou a própria filha para o esquema, continuou delinquindo mesmo preso em casa com uma tornozeleira eletrônica e acabou condenado a 43 anos de prisão em primeira instância. E o ex-presidente, que também levaria vaias residuais, claro, mas seria inegavelmente a mais esfuziante estrela da abertura da Olimpíada do Rio, nem pôde por os pés no Maracanã, trancado no seu exílio de suspeitas e processos, enquanto seu lobo Moro não vem.

Bem, com Temer e sem Lula, o fato é que o Brasil deu um show na abertura da 31.ª Olimpíada, mostrando a bilhões de telespectadores a construção de um povo miscigenado e uma diversidade cultural raros no mundo e brincando alegremente com um 14 Bis sobrevoando a Cidade Maravilhosa, a nossa Gisele Bündchen desfilando ao som de Garota de Ipanema, os veteranos Caetano e Gil ao lado da novata Anitta, Paulinho da Viola emocionando com o Hino Nacional, a coreografia de Deborah Colcker extasiando a plateia.

Mas o momento arrepiante, desses de lágrimas nos olhos, foi Jorge Ben Jor liderando milhares de pessoas entoando: “Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, mas que beleza!”. A gente tem milhões de motivos e de desempregados para praguejar contra a realidade e contra o País, mas a verdade é que o Brasil é muito mais do que só corrupção. Que, aliás, está sendo firmemente combatida.


Via Estadão
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