sexta-feira, 5 de agosto de 2016

“Na universidade, sou uma das cinco mulheres negras em uma sala de 85 alunos brancos”


Meu nome é Laurielen, tenho 20 anos, nasci e cresci em São José do Rio Pardo, interior de São Paulo e hoje estudo Filosofia na Universidade Federal do ABC. Minha cidade natal é pequena, tão pequena que todos conhecem a todos, as diferenças de classe não são tão acentuadas quanto na grande SP. As pessoas costumavam ajudar umas às outras, na verdade, os pobres costumavam ajudar os outros pobres, os ricos tinham e têm seu bairro bem afastado do que eu cresci.

Meu bairro se chama Vale do Redentor, é no morro mais alto da cidade, considerado periférico. O bairro ainda assim era dividido entre as pessoas que vivem em condições mais simples e condições mais confortáveis. Estudei o ensino médio em uma ETEC (Escola Técnica do Centro Paula Souza), que se localizava em um dos bairros mais nobres da cidade. Pude notar comentários de “amigos” que diziam que tinham medo das pessoas do Vale do Redentor; quando havia assunto de assalto, roubo ou vandalismo, faziam piada comigo. Por onde eu morava, eu era uma das poucas pessoas negras da sala, a única do meu ciclo de amigos. Eles iam pra festas, comiam em restaurantes, tinham roupas novas, falavam em universidades, falavam da USP – Universidade de São Paulo e eu não sabia o que era tudo aquilo.

Eu dizia pra minha mãe que eu queria estudar em uma universidade federal, ela sorria com ar sarcástico e meio triste, dizia que pobre não tinha muito pra onde ir. Eu quase aceitei essa sina, mas queria provar o contrário. “Onde você vai morar? Não posso te ajudar a pagar moradia! Seus irmãos não fizeram Federal, ninguém aqui no bairro faz, você sonha demais, é coisa de televisão, coloca os pés no chão! Você tá andando muito com esses seus amigos ricos”.

Eu queria mais que nunca provar o contrário, mas nunca parei pra problematizar toda essa realidade. Consegui passar na universidade, meu sonho tinha se tornado realidade, mas, então, a mesma problemática de sempre: amigos brancos, classe média alta, restaurantes, repúblicas, quartos com suíte, livros novos, festas e eu mal poderia pagar R$ 4 no Restaurante Universitário (RU).

Os professores doutores falando de coisas que, provavelmente, teríamos aprendido no Ensino Fundamental, mas eu não me lembro nem mesmo de ter tido professores no Ensino Fundamental. Já estava um passo atrás, minha mãe talvez tivesse um pouco de razão. Estudar o dia todo sem me preocupar em como iria pagar meu almoço? Não. Consegui bolsa-auxílio, então pude desfrutar de privilégios que muitos não tinham, esqueci o que era me preocupar sobre como pagar o ônibus, mas então a bolsa foi cortada, daí só pude lembrar da minha mãe rindo sarcasticamente.

Quando volto pra minha cidade e para o meu bairro no interior, sou prestigiada como uma deusa que conseguiu um grande troféu inalcançável, são tantas coisas que passam pela minha cabeça. Responsabilidade? Superação? Resistência? Tudo em jogo. A perifa do interior é diferente da perifa da grande SP, mas talvez as falas e a ideias do inalcançável mundo da universidade pública seja a mesma.

“Pobre não tem muito pra onde ir”. Mas estou aqui e resisto, sou filha da escola estadual, cotista, sou mulher negra na sala de 85 alunos brancos e 5 negros, sou mulher negra lésbica, que resiste na academia opressora, luto pela bolsa que me foi tirada, luto pra conseguir um emprego, agora meu novo desafio é iniciação científica, mas os caminhos são estreitos, então resisto.

Laurielen Lucio, tem 20 anos e é estudante de Filosofia da UFABC.


por Laurielen Lucio no Nós Mulheres da Periferia
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