terça-feira, 30 de agosto de 2016

Desertificação, o impacto mais silencioso das mudanças climáticas


Nos dias 4 e 5 de setembro, os 20 países com a economia mais desenvolvida do mundo (G-20) estarão reunidos na China. A expectativa dos ambientalistas é que, nessa reunião, os ministros e presidentes dos bancos centrais dessas nações, que representam os líderes,sejam convidados a conversar também sobre as questões climáticas, além das econômicas, e que haja um consenso no sentido de ratificarem o Acordo de Paris conseguido ao final da Conferência das Partes sobre o Clima, a COP-21. Se isso acontecer, ficará oficializado um contrato prevendo que as emissões de carbono devem baixar a tal ponto que o aquecimento do planeta fique a cerca de 1,5 grau no fim do século. Já não será sem tempo, mas muitos ambientalistas estão pessimistas, pois acreditam que os maiores estragos serão inevitáveis, mesmo com todo o cuidado a partir de agora. 

Entre os danos mais cruéis está a desertificação. É também um dos menos divulgados por ser silencioso e lento o seu processo de degradação do entorno. O maior fórum dedicado a esse problema na África, continente assolado pela seca e, ao mesmo tempo, vital para a agricultura e a produção dos alimentos, é a Convençãodas Nações Unidas para a Luta contra a Desertificação (UNCCD). Neste mês de agosto, entre os dias 15 e 19, a UNCCD e a União Africana se reuniram em Windhoek, no país africano Namíbia, para debater o problema. A reunião aconteceu num momento em que a África está sofrendo uma das piores secas dos últimos 50 anos.

No encontro, um relatório foi apresentado com os seguintes dados:o mundo perde 12 milhões de hectares de terra fértil por ano, equivalente a 33 mil hectares diários, de 30 a 35 vezes mais do que a proporção histórica. Estudos científicos calculam que a superfície terrestre em condições de seca passou de 10% para 15% no começo dos anos 1970, para mais de 30% no início de 2000, e que esses números continuarão aumentando.

A África é o continente mais afetado. Lá, até 2020, entre 75 milhões e 250 milhões de pessoas poderão ficar expostas a estresse hídrico devido à mudança climática. A situação é tão grave que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) fez um alerta, há cerca de um mês, para o fato de que “na África austral, afetada pela seca, existe uma corrida contra o tempo para garantir que 23 milhões de pessoas recebam assistência agrícola”. Para evitar que em 2018 dependam da assistência humanitária, são necessários, com urgência, US$ 109 milhões para distribuir sementes e outros insumos e serviços para plantar.

Mas não é preciso ir tão longe para perceber os danos da secura na terra. O Ceará está há cinco anos com falta crônica de chuva e a situação dos 89 açudes do estado é crítica, com menos de 10% da capacidade. A estiagem prolongada também tem feito vítimas nos cafezais do Espírito Santo e mais da metade dos municípios do Piauí estão em regime de emergência por causa do problema. No Acre, sem chuva também há muito tempo, as queimadas estão tomando conta. O risco de incêndio de altas proporções é gravíssimo.

Desde o início do ano foram registrados 53 mil focos de queimada e incêndios florestais no Brasil. À falta de chuva se junta a irresponsabilidade de quem desmata para plantar soja e milho. A denúncia é feita pelos índios do Parque Indígena do Xingu no documentário “Para onde foram as andorinhas?”, com roteiro de Paulo Junqueira, do Instituto Socioambiental (ISA) e Mari Corrêa, do Instituto Catitu. O filme foi exibido durante a COP-21, e já está disponível na internet.

Com pouco mais de 20 minutos de duração, o documentário mostra que o Parque Indígena do Xingu, onde moram 6.500 índios, hoje, é uma ilha cercada pelo desmatamento. Em 2010, incêndios florestais atingiram 10% do seu território. Cada vez mais o calor afeta as plantações, mata e afasta os animais, mexe com o dia a dia da floresta:

“Quando as cigarras começam a cantar, sabemos que daqui a três dias vai começar a chover. É tempo de plantar batata doce, abóbora, amendoim, cará, pimenta, algodão. Mas as cigarras não estão cantando mais porque o calor secou os ovos delas”, lamenta um índio ouvido pelos pesquisadores para o documentário.

A devastação ambiental é a causa do tormento ao qual aqueles índios são submetidos. Hoje, 86% das florestas do Xingu estão convertidas principalmente em soja, milho e pasto. A monocultura e os agrotóxicos utilizados em larga escala expulsaram os gafanhotos, que estão acabando com os pés de pequi, alimento importante para eles. Uma praga exógena, com a qual os índios não sabem lidar. Impotentes diante de tanta destruição, tentam fazer o que podem para salvar seu alimento e temem que as gerações futuras tenham que abrir mão de sua cultura e comer comida de branco. Com sua sensibilidade extrema para escutar a natureza, vão reparando em detalhes:

“Hoje eu fico procurando as borboletas. Tinha muitas aqui, elas vinham sempre na época da seca, quase entravam na boca da gente. Não sei porque não tem mais“, pergunta-se outro índio diante das câmeras.

O filme é bonito, triste, revelador. E vai deixando na gente uma sensação de impotência parecida com a dos índios. A situação é grave,e só pode ser revertida agora se, de fato, houver mais consciência ambiental. A monocultura é um erro, faz mal ao solo, exige o uso intensivo de agrotóxicos e é plenamente utilizada pelas grandes empresas de alimentos com o intuito de expandir seu negócio.O argumento econômico é que, dessa forma, vai dar mais emprego, levar mais desenvolvimento para os países, as regiões... enfim, tudo aquilo que se sabe e que está na contramão dos cuidados sensíveis que a natureza exige.

“Para onde foram as andorinhas?” começa contando, na linguagem dos indígenas, uma lenda sobre a preocupação do Criador com o planeta e seu povo:

“Quando não existirem mais sinais de vocês e só restarem os brancos, vou afastar os sapos que seguram as duas pontas do céu. O céu vai cair. E vai acabar tudo”.

É só uma lenda. Mas...


Via G1
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