segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Americana e muçulmana, esgrimista dá passo contra o preconceito no Rio

Ibtihaj Muhammad se tornou a primeira americana a competir na Olimpíada com o véu muçulmano (Foto: REUTERS)

Ibtihaj Muhammad é a primeira dos Estados Unidos a competir nos Jogos com o hijab, véu muçulmano: “Tem sido uma bênção representar tantas pessoas que não têm voz”

Imagine uma atleta que nunca tinha estado antes numa Olimpíada. Imagine uma atleta que, aos 30 anos, foi eliminada nas oitavas de final da modalidade que disputa e que não goza de grande popularidade. Isso numa delegação de um país que conta com 554 atletas. Agora imagine um batalhão de jornalistas a sua espera na zona mista, espera que durou uma hora sem ninguém arredar o pé de lá só para ouvir o que ela tinha a dizer. Palavras que o mundo esperava ouvir, ou deveria ouvir, principalmente na América do Norte.

Esse foi cenário depois da derrota da esgrimista americana Ibtihaj Muhammad nas oitavas de final do sabre, e que nesta segunda-feira se tornou a primeira atleta dos Estados Unidos a competir nos Jogos Olímpicos com o hijab, o véu muçulmano. E isso no país que é o maior vencedor olímpico da história, mas que apenas em 2016, no Rio de Janeiro, parece ter dado um passo adiante na luta contra o preconceito. Ou tentado através de Muhammad.

– Como você pode não ver que os muçulmanos são como que qualquer outro grupo? Somos conservadores e somos liberais. Há mulheres que cobrem (a cabeça) e mulheres que não o fazem. Há muçulmanos afro-americanos, há muçulmanos brancos, há muçulmanos árabes. Há tantos tipos diferentes de muçulmanos. Essas são as coisas que eu quero que as pessoas se conscientizem – disse Ibtihaj, ciente do papel que tem exercido fora das pistas, onde está desde os 13 anos, num esporte que escolheu primeiro muito em função de estar toda vestida. E que se apaixonou.

Número 8 do ranking mundial, ela estreou na Olimpíada do Rio com vitória no quadro 32 do sabre ao bater a ucraniana Olena Kravatska por 15 a 13, diante de familiares que saíram tanto de Nova York como de Nova Jersey para acompanhar de perto o feito de Ibtihaj para o esporte americano. Do início ao fim, o grito “USA! USA! USA!” era entoada por eles, sem deixar dúvidas de onde vieram e de onde são, ainda que alguém diga que não. Mesmo que alguém que quer ser presidente dos Estados Unidos diga que lá não é o seu lugar.

– Desde que era uma menina, ela nunca deixou nada segurá-la e nunca definiu limites. Ela está sempre se esforçando para ser melhor. Apesar da adversidade que enfrentou por ser muçulmana, uma afrodescendente, e do sexo feminino, ela sempre foi confiante na capacidade de ser bem-sucedida. Ela é a minha heroína – disse o irmão Qareeb, antes de pular a grade que separava a arquibancada das pistas e abraçar a irmã após a derrota.

Nas oitavas de final contra a francesa Cecilia Berder, a luta de Muhammad pela medalha foi interrompida com o placar de 15 a 12 para a rival, mas a história principal já estava escrita. Mas, como toda desportista de alto nível, o desejo de alcançar o topo dói quando não alcançado. Ao menos a família estava ali perto.

– Nesse momento (após o jogo), você quer pensar no que aconteceu, descobrir o que você poderia ter feito diferente e deixar ir embora um pouco da raiva e frustração que sente. Queria ter tido um desempenho melhor, mas foi uma bênção ter a minha irmã aqui para me apoiar (…). Em um esporte como a esgrima, você é o seu próprio maior adversário. Se pode controlar a si mesmo e seus nervos e emoções, e executar as ações que deseja da maneira que você quer executar, você sempre será bem-sucedida. Não consegui fazer isso – avaliou ela, que é campeã mundial por equipes no sabre.

Ibtihaj Muhammad acabou eliminada pela francesa Cecilia Berder nas oitavas de final do sabre (Foto: REUTERS)

Mas foi entre vitórias e derrotas na pista que Ibtihaj Muhammad tem realizado seu desejo de mostrar a outras mulheres, meninas principalmente, que elas podem ser o que desejarem, independente da religião ou de sua cor, ou de qualquer outra crença que não seja a da maioria.

– Acho que qualquer um que prestou atenção à notícia (da minha presença na Olimpíada) sabia da importância de ter uma mulher muçulmana na equipe dos EUA. Mais uma vez, não é apenas qualquer equipe, é os Estados Unidos da América. E o meu papel é mostrar também todos esses equívocos que as pessoas têm sobre quem é a mulher muçulmana – disse ela, que em seguida foi perguntada sobre quais seriam esses equívocos.

– Que alguém está me forçando a usar este hijab, que eu sou oprimida, que não tenho uma voz. Quem me conhece sabe que sou muito verbal e muito confortável para me expressar. Sinto que tem sido uma bênção para mim representar tantas pessoas que não têm voz e não falam. Tem sido uma experiência muito marcante para mim.

A voz de Ibtihaj promete ecoar muito mais, inclusive no Rio de Janeiro, onde ainda pode conquistar uma medalha. No próximo sábado, ela compete por equipe no sabre ao lado de Mariel Zagunis e Dagmara Wozniak.


Por Zeca Azevedo, do Globo Esporte
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