quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A cineasta baiana Larissa Fulana de Tal fala sobre o cinema negro atual


“Tela Preta reivindica o negro nas telas, mas reivindica o negro atrás das câmeras. Eu não sei onde ouvi essa frase, mas acho fantástica, “quanto mais invisível, mais poder se tem.” (Foto: Divulgação)

Fulana de Tal é mulher negra e nascida na Estrada da Rainha, onde fica o bairro Baixa de Quintas, em Salvador. Formada em cinema pela Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), faz parte do coletivo Tela Preta, criado para difundir profissionais e o cinema negro baiano. “O Tela Preta surge na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Eu fazia parte do Núcleo Akofena, que proponha uma série de discussões sociais, raciais. Mesmo assim eu e Davi, meu companheiro de trabalho, sentíamos falta de um olhar para o cinema. Dentro do cinema eu me sentia sozinha. Quando você é um negro consciente, cara, dentro do cinema você é literalmente um ponto preto,” explica em entrevista realizada no Cine Glauber Rocha, no coração do centro velho de Salvador.

O pontapé inicial do coletivo Tela Preta foi o curta Canções de Liberdade, que acompanhado de um manifesto, denúncia a estigmatização do negro na TV e no cinema e como os corpos negros são vistos pela sociedade, como a hipersexualização da mulher negra e a marginalização do homem negro.

“O Audiovisual é um reflexo disso. Só que tem outra questão: e o negro atrás das câmeras. Quem vê? Dentro dessa perspectiva o Tela Preta reivindica o negro nas telas, mas reivindica o negro atrás das câmeras. Eu não sei onde ouvi essa frase, mas acho fantástica, “quanto mais invisível, mais poder se tem”. E de fato é. A gente não conhece o dono da Coca-Cola. Ninguém conhece os donos das grandes empresas e a cara deles. O movimento negro caiu pesado pra cima dos atores negros, mas a gente mirou errado. O ator tá no seu papel de ator, mesmo de forma marginalizada, ele tá atuando. Então, a nossa mira tem que ir pro outro lado, atrás das câmeras. O Tela Preta nasce nessa perspectiva de que precisamos nos especializar, precisamos nos profissionalizar pra ocupar determinados lugares e fazer.”

Longe de estereótipos, Larissa Fulana de Tal teve em Cinzas o primeiro filme produzido por meio de um edital. Lançado em 2012, o curta conta a história de um rapaz (podiam ser outros milhões), que vê as 24 horas de um dia insuficientes para cumprir todas as obrigações de quem mora na periferia e precisa trabalhar, pagar a faculdade e cuidar da casa.


“Nascemos dessa perspectiva de realizar filmes. A temática negra vai estar na forma, nas estruturas, nos personagens. Então, nem sempre eu vou falar de violência policial que atinge os negros, não sempre vou falar da periferia dentro da perspectiva denuncista. Meu cinema é negro.” (Foto: Bruna Provazi)

“O roteiro é adaptação do conto de um amigo, Davi Nunes e fala do cotidiano desse jovem que acorda atrasado, vai trabalhar no ônibus lotado, chega no trabalho e o salário atrasado. Vai pra faculdade atrasado. A gente sempre tá atrasado, sendo cobrado. Ele sente fome, vai na lanchonete e já tá devendo. Então nada mais é que o cotidiano. Tem uma cena que eu adicionei que é a relação com a polícia. Em um momento ele caminha em uma rua deserta e a polícia passa. Aí gera aquela tensão do que vai acontecer com ele. Ele não fez nada contra a “lei”, mas só o fato de ser um jovem negro andando na rua com a polícia cria uma sensação de medo. Mas, apesar de o protagonista ser um homem, a discussão é de gênero no Cinzas. No final tem uma mulher que se chama Ana, que acorda mais cedo, deixa a marmita dele e volta com as compras. E Tony tem esse momento de reflexão, ele sempre está fomentando questões. E aí quando ele volta ela pergunta o que aconteceu. Ele é aquele cara que chega em casa com fome, contas pra pagar, cansado e tal. E ela chega e vê ele desanimado e meio que dá aquela sacudida nele.

Sempre perguntam sobre essa mulher. Por que ela saiu mais cedo, fez a comida? Surge a questão de gênero. Mesmo o homem negro estando fodido na sociedade é a mulher que tenta resistir. O Cinzas é a questão da subjetividade. É um personagem que pensa e questiona, mas que é um cara empurrado pela sociedade e que tem que sobreviver. Tem que dar o jeito dele,” ressalta.

Larissa aponta que nada para os negros e negras é fácil. Longe dos privilégios, como ter pai dono de produtora ou mãe atuante na área da cultura, torna tudo mais complicado em um universo caro como o cinema. “Então, fuck you. É você por você. É um processo de resistência muito louco. O estar junto é fundamental”. Sempre afirmado que seu cinema é negro, Fulana de Tal explica que não necessariamente seus filmes precisam falar de violência ou da periferia com tom de denuncia.

“Nascemos dessa perspectiva de realizar filmes. A temática negra vai estar na forma, nas estruturas, nos personagens. Então, nem sempre eu vou falar de violência policial que atinge os negros, não sempre vou falar da periferia dentro da perspectiva denuncista. Meu cinema é negro. É importante compreender que na sociedade em que vivemos é necessário se afirmar. As pessoas duvidam que eu faço cinema. Se eu não coloco que é cinema negro, as pessoas duvidam que aquela obra é minha. Então é um processo de afirmação e construção política necessário.

Quando eu falo que faço cinema negro ninguém diz pra mim que eu não posso criar um filme sobre amor. Não existe uma cartilha dentro do cinema negro pra dizer que meu cinema não é negro porque eu falei de amor. Que eu fale da morte pela velhice. O cinema negro não tem uma definição. Uma coisa que eu falei no festival de Brasília (Latinidades) a gente sabe muito bem o que a gente não quer: tratar de personagens que não sejam estereotipados. Mas como vamos conseguir? Através da desconstrução. Então a gente não é formato. Sabe aquela coisa, se você chega pro outro falando quem é você, o outro não vai colocar quem é você. É importante a gente ter o nosso espaço, porque senão o outro coloca você em lugares inimagináveis,” explica.

Na mira das lentes de Larissa estão também os corpos negros e como eles são tratados e vistos em Salvador. Terceira maior cidade brasileira, atrás apenas de São Paulo e do Rio de Janeiro, a capital baiana possui mais de 70% de sua população formada por negros, entretanto tanto a mulher quanto o homem de pele preta são alvos de um tratamento marginal e com um domínio violento sobre seus corpos. “Os corpos negros aqui em Salvador são vistos de forma muito gratuita. É o que a polícia pode bater, pode colocar o dedo na cara seja você quem for. Eu acho Salvador uma das cidades mais violentas para que o negro sobreviva.

É dentro disso que eu coloco um caso que sofri há pouco tempo de violência policial. Eu e meu companheiro no último 24 de junho tentávamos pegar um táxi no bairro da Calçada. O primeiro taxista negou corrida e fomos para o segundo, terceiro, quinto táxi e não conseguimos pegar. Meu companheiro é negro, jornalista, mas negro e cheio de tatuagens e sem camisa e mais dois colegas no mesmo parâmetro. E aí a polícia chegou e nesse momento de argumento já veio pra cima, com arma na cara e tentando resolver o problema que éramos nós. Se ainda hoje, em 2016, eu tenho que reivindicar minha cidadania é porque os corpos negros não são vistos. E aí meu companheiro disse que era jornalista, Eduardo Machado o nome dele. Pouco importa, você vai ser preso por desacato. Você é jornalista? O policial deu risada da cara dele. Ele foi preso de cueca. Ele tem ensino superior, mas pouco importa. A sua pele preta que conta. Então, eu acho que a sociedade baiana representa muito bem como o preto é visto. E a polícia de forma geral apresenta como o negro brasileiro é visto. Ele pode ser agredido. Você não pode ter fala. Não tem direito a lazer. Tem horário pro ônibus voltar. Acho que tivemos grandes avanços, no sentido de ocupar as universidades, mas somos um incômodo ainda. Esse dia eu lembrei que não sou nada, se ligou? Cineasta? Eu não sou nada. Eu e meu companheiro, Eduardo Machado, poderíamos não estar mais aqui. Por causa de argumento, um debate. Então, existe uma certa gratuidade. A gente tá na linha de fronte pra tentar desconstruir isso. Existe uma guerra e eu acho que o corpo negro tá ali, na linha de fronte,” conta Larissa Fulana de Tal.


“Mas, apesar de o protagonista ser um homem, a discussão é de gênero no Cinzas. O roteiro é adaptação do conto de um amigo, Davi Nunes e fala do cotidiano desse jovem que acorda atrasado, vai trabalhar no ônibus lotado, chega no trabalho e o salário atrasado.” (Foto: Reprodução)

Tornar-se negra

Para homem e a mulher negra o processo de se reconhecer negro não surge de forma natural, pelo contrário, na maioria das vezes é acompanhado de diferentes sentimentos, como raiva, dor, orgulho, espírito de luta etc. Tudo isso é resultado de uma colonização assassina e um racismo perverso que paira sobre as cabeças pretas de brasileiros e brasileiras até os dias de hoje. Com cabelos crespos, traços negroides, mas com a pele mais clara, Larissa Fulana de Tal explica que o seu processo de construção da negritude foi complexo.

“Eu tenho a pele mais clara, né? Eu sempre brinco que sou fruto do plano do brasileiro de embranquecer É muito louco isso, porque é importante discutir também a mistura, não é nem o miscigenado porque eu não sou parda. Eu sou negra. Nos Estados Unidos isso é muito bem definido, por exemplo, eu li do livro do Malcolm X e me reconheci. Malcolm X era considerado um negro vermelho, ou seja, aquele que tem a pele mais clara e não deixa de ser negro. Aqui no Brasil não, se criou a terceira categoria, o moreno, o mestiço o claro, qualquer porra, menos negro. É a criação no sentido de dizer que você não é negro, mas não é branco. No Brasil existe isso.

Eu nunca fui considerada branca, mas sempre fui chamada de morena. Então é desconstruir esse conceito do que é morena, mulata foi um processo. Desconstruir isso pra construir essa identidade negra. Principalmente o cabelo que foi o grande detentor do processo de afirmação, não tem como. Também a aceitação do nariz, dos lábios, dos traços negros. Foi um processo que pegou na questão da identidade dentro do movimento negro. Quando eu era pequena sofria principalmente por causa do nariz. O cabelo, enquanto dá pra cachear tudo bem. Mas o nariz, a boca, os traços mais negroides. Eu sempre ouvia brincadeiras perversas. É um processo muito interno. O processo da construção da branquitude dentro de você é muito violento. Então desconstruir, se achar bonita, se ver mulher, tudo isso tá linkado com a questão do físico. Então foi um processo dentro do coletivo e lendo referências, como Bell Hooks, ver outras mulheres no cinema, olhar pra novela e reconhecer as atrizes por nome. Pô, Lea Garcia, as pessoas reconhecem o rosto dela, mas nem todo mundo lembra o nome. Ruth de Souza também. Hoje Thaís Araújo é o grande alvoroço, mas ela se tornou isso. As pessoas viam ela na televisão, mas depois que ela assumiu as pessoas enxergam de outra forma”, encerra.

*Larissa Fulana de Tal – Cineasta de Salvador, Bahia. Integrante da Série Mulheres Negras Baianas do Afreaka.



Via Portal Afreka
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