segunda-feira, 18 de julho de 2016

Racismo à brasileira por Milla Carolina


É foda ser preto

O mais foda é quando roubam a nossa negritude. Quando um preto nasce, se ele não for filho de militante ou ter contato direto e constante com alguém que luta pelas e com as senzalas, essa criança terá a sua negritude roubada.

A primeira química que fiz no meu cabelo, eu tinha 5 anos. Exatamente. Porque meu cabelo “armava muito” e assim seria possível “domar os cachos”. Nunca mais usei o meu cabelo natural. Estou em transição capilar há quase um ano e digo com franqueza: Não há um só dia em que eu não pense em desistir. Acontece que a minha negritude foi roubada de mim, pouco a pouco, diariamente. Toda vez em que me diziam que “cabelo liso é mais bonito”, ou quando os meninos escolhiam somente as brancas para se relacionar, ou quando rolavam as “piadinhas” e todo o grupo ria, ou ainda quando atravessavam a rua ao me ver, ou era perseguida pelos seguranças no shopping, eu tinha a minha negritude roubada. Desde que nasci, a sociedade tenta insistentemente me provar o quão “ruim” é ser negro e o quão “sortuda” eu era por ser “negra de pele clara”.

Eu demorei 22 anos da minha vida para começar a me entender como negra. Um dia eu me fiz a pergunta: Se eu estivesse no Brasil escravocrata, eu moraria na senzala ou na casa grande? Pronto. A negritude começou a aflorar e a partir daquele momento eu passei a entender o que é o racismo à brasileira.

Para quem não sabe, o Brasil passou por um processo de embranquecimento. A vinda do nono e da nona era majoritariamente para embranquecer e ajudar no progresso da população local, já que as brasileiras – miscigenadas – eram muito inférteis e pariam filhos improdutivos e preguiçosos, como as mulas. Daí o termo mulata.

Isso ficou enraizado na nossa cultura de tal forma que muitos negros, até hoje, negam a sua negritude. Porquê? Porque ela nos é roubada. O orgulho de ser negro, de subir um black, da pele escura, do nariz largo nos é roubado.

Uma vez eu estava conversando com um grupo de amigos sobre o holocausto e como os alemães se sentem sobre ele hoje em dia. Eu disse que o nazismo foi e sempre será uma das principais desumanidades na nossa trajetória, junto com a escravidão. Mas a diferença é que boa parte dos alemães entendem e assumem o que aconteceu ali (óbvio que sempre tem o saudosista do Reich que exalta a inteligência de Hitler e seus aliados deixando de lado as 6 milhões de mortes que tamanho “gênio” proporcionou). Não é assim no Brasil com relação a escravidão negra. O brasileiro não se assume racista. E como preta que sou digo-vos: se tem um país racista, é o nosso.

Poucas pessoas entendem a diferença da militância negra americana para a nossa: Como os EUA não passaram pelo processo de embranquecimento, a negritude norte-americana sente – desde o nascimento e de um modo geral – orgulho de assim o ser. Aqui não, ela é roubada.

Não nos ensinam sobre Dandara e Zumbi. Não toca racionais nas festas. Funk é coisa de preto, pobre e favelado. Angela Davis não é leitura obrigatória na academia (com muita luta, ela será citada em uma aula ou outra). E assim, o negro se sente obrigado a ceder ao atual processo de embranquecimento e a negar a si próprio.

Acontece que uma hora a luta te acha e te arma. Você toma para si de volta a sua negritude e passa a vestir preto por dentro e por fora.

Aos pretos que estão lendo esse texto: o racismo é foda.

Só que a nossa negritude é mais foda ainda.

Ser preto é foda.


por Milla Carolina no Maluco Sonhador
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