sábado, 2 de julho de 2016

Por que não há uma única mulher entre os 39 atletas mais bem pagos do mundo


Às vésperas das Olimpíadas do Rio de Janeiro, a Forbes lançou a lista dos 100 atletas mais bem pagos do mundo. No topo, um homem, Cristiano Ronaldo. Até aí, nenhum problema, afinal, trata-se de um atleta de talento e popularidade inquestionáveis. A coisa muda de figura quando descemos os olhos pela tabela. Segundo candidato? Homem. Terceiro? Também. E quarto, quinto, sexto… assim até a 40ª posição, quando aparece Serena Williams. A única outra mulher da lista é Maria Sharapova, em 88º lugar.

O argumento principal de quem acha que não existe nada de mais nesse ranking é o de que os homens atraem mais público e mais patrocinadores, logo, merecem melhor pagamento. Além de ser um argumento falso – a seleção de futebol feminina dos Estados Unidos, por exemplo, tem mais títulos do que a masculina, arrecada US$ 20 MILHÕES A MAIS e ganhava, até recentemente, QUATRO VEZES MENOS do que os jogadores – é um raciocínio problemático em si.

Por quê? Porque se menos gente vai ver os jogos femininos, isso significa que nossa audiência é MACHISTA PRA DEDÉU, afinal, tem atleta boa pra dar com pau no mundo dos esportes. Marta, Aline Silva, Mayra Aguiar, as meninas do vôlei, Fabiana Murer, um tanto enorme de atletas da ginástica olímpica e por aí vai.

“Não é uma questão apenas de salários: todas as competições femininas dão prêmios bem menores que as masculinas em 99% dos campeonatos. Muitas vezes se trata até do mesmo campeonato”, explica Renata Mendonça, co-criadora do Dibradoras, um projeto de valorização das mulheres no esporte. “O único esporte que conseguiu igualar isso é o tênis – e depois de muita briga”.

Como o tênis resolveu a questão do machismo da audiência e conseguiu, assim, colocar as únicas duas mulheres da lista? Vendendo ingressos de maneira atrelada, explica Renata. Ou seja, quer ver Rafael Nadal? Leva no pacote uma disputa da Serena. Os prêmios também têm valores idênticos.

“Claro que há uma lógica de mercado a respeitar, mas ela pode ser transformada. A desculpa é sempre que audiência não quer ver esportes femininos, mas isso se torna um ciclo vicioso. Se a mídia não divulga nada, as pessoas não têm como saber daquele esporte. E, sem saber, não têm como gostar e torcer”, argumenta Renata. “A ESPN não conseguiu criar demanda exibindo futebol americano no Brasil? Porque não fazemos o mesmo esforço pelos esportes femininos?”.

* Nana Queiroz é diretora executiva da Revista AzMina (Facebook.com/revistaazmina), autora do livro “Presos Que Menstruam” e roteirista da série de mesmo nome em produção. Também é criadora do protesto “Eu Não Mereço Ser Estuprada”. É jornalista pela USP e especialista em Relações Internacionais pela UnB.


Por Nana Queiroz, da UOL
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