segunda-feira, 4 de julho de 2016

Aluna negra é destituída da função de oradora da turma na Ufam por denunciar racismo


Quase uma semana depois da cerimônia de outorga de grau para finalistas do curso de Licenciatura em História, a agora licenciada Geisi Matos afirma ter sido destituída da função de oradora da turma por divergências com colegas do curso, após discordaram do teor do texto que seria proferido no evento. A oradora destituída pretendia fazer duras críticas ao racismo na Ufam, entre outros problemas. A formatura ocorreu no dia 23 de junho, no auditório Eulálio Chaves, mas o assunto ainda repercute na instituição.

O imbróglio começou há cerca de duas semanas, quando, segundo Geisi, colegas do grupo de formandos sugeriram que ela lhes mostrasse o texto a ser lido. A princípio, Geisi – que se voluntariou a ser a oradora da turma – não concordou com a ideia, mas acabou cedendo aos pedidos. O discurso fazia referência ao racismo dentro da universidade e a questões como o distanciamento entre a academia e os problemas sociais.

“Minha intenção não foi rebaixar a instituição, mas apontar os defeitos e possíveis soluções. Ao longo do texto, inclusive, utilizo o vocativo ‘querida academia’ para acentuar o tom de conversa”, argumenta Geisi. “Apesar disso, falaram que meu discurso tinha um teor político muito forte e agressivo com a universidade”, continuou.

Segundo Geisi, um grupo de alunos então se reuniu e decidiu pela escolha de uma nova oradora para a cerimônia. Por conta da decisão, a estudante publicou então um texto sobre o caso em seu perfil no Facebook. Seguiram-se vários posts de colegas que, em sinal de apoio, cogitaram realizar uma espécie de manifestação na formatura, com cartazes contra a decisão. “Esses posts foram copiados e enviados à empresa responsável pelo cerimonial do evento”, diz Geisi.

Dois dias antes da formatura, a estudante foi abordada por um grupo de colegas ao chegar ao departamento de História. “Fui avisada de que a empresa estava a par daquela mobilização e que, caso ocorresse algum tipo de protesto, eles poderiam solicitar a retenção do meu diploma”, afirma Geisi. “A conversa não foi nem um pouco agradável. Me senti coagida e chorei ao final da reunião”, lembra.

Um dos coordenadores do Coletivo Sambaqui, que reúne professores e alunos de diversas unidades acadêmicas da Ufam, o professor Welton Oda publicou em seu blog uma carta aberta em solidariedade à aluna. “Trata-se de um episódio de silenciamento dentro da universidade, o que é grave. Os alunos devem ter ficado incomodados com a contundência da crítica à instituição, e esse aspecto ganhou relevância na discussão”, opina Oda, docente do Instituto de Ciências Biológicas (ICB).

Além da repercussão nas mídias sociais, Geisi fez a leitura pública do texto, que havia preparado para a cerimônia de formatura, durante a edição do Sambaqui realizada na sede da ADUA na última sexta-feira (24).

Representatividade

A oradora eleita pela turma após a destituição de Geisi, Márcia Grana, revela que se surpreendeu com a repercussão do caso – classificado por ela como “lamentável”. “Em nenhum momento tentamos depreciar a colega. A escolha ocorreu de acordo com um processo legítimo com base no princípio da representatividade. Afinal, vivemos numa democracia”.

Grana assegura que o discurso final recebeu colaborações de vários alunos da turma, inclusive da própria Geisi. “Quando pedimos que nos apresentasse o texto, Geisi disse que seria uma ‘surpresa’, com o que não concordamos. E, depois de consultarmos o conteúdo, pedimos que ela fizesse algumas mudanças, como alteração de pronomes, mas ela se recusou”, esclarece.

“No que diz respeito ao aviso da empresa do cerimonial, fomos informados de que, caso ocorresse alguma manifestação ou tumulto, todos os alunos da turma deixariam de receber o diploma”, informa Grana. Ela revela que tentou conversar com Geisi após tomar conhecimento dos posts sobre uma possível manifestação. “Fui vítima de ataques indiretos nas redes sociais”, acrescenta.

Apesar do transtorno, Geisi diz que não pretende investir mais esforços nessa questão. Ainda assim, na noite da formatura, um detalhe lhe chamou a atenção: uma placa que proibia o uso de placas, cartazes e aparelhos de som havia sido instalada no hall do auditório Eulálio Chaves. “Nunca vi algo parecido em toda a minha vida acadêmica”, ironiza.


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