quarta-feira, 29 de junho de 2016

Publicitária luta para que pornô reflita o sexo real (e não vice-versa)


Por volta das 23h de uma noite de maio, algo inusitado acontece na pista do L'Amour, um ex-clube de strip-tease paulistano transformado em casa noturna, no centro de São Paulo: a música é subitamente interrompida.

Enquanto todos se entreolham tentando entender, uma senhora de 56 anos sobe ao palco de "pole dance", assume o microfone e dispara em inglês: "Eu saio com homens mais jovens".

Nos últimos anos, a frase se tornou a abertura natural das falas da ex-publicitária transformada em ativista Cindy Gallop. Funciona. O público assobia e bate palmas. "Voluntários podem formar uma fila", ela brinca arrancando mais aplausos, depois vai adiante, contando a história do movimento Make Love Not Porn (Faça Amor Não Pornografia).

Filha de pai inglês e mãe chinesa, nascida em Brunei, no sudeste asiático, Cindy fez carreira em uma das maiores empresas de publicidade do mundo, a inglesa BBH. Foi responsável por montar a filial da marca em Nova York, onde vive hoje, e por contas como Coca Cola, Ray Ban e Polaroid.

Passou a sair com os tais homens jovens há 14 anos, quando, encarregada de uma campanha para um site de encontros, resolveu testar o produto.
O resultado? Uma enxurrada de convites, dois terços deles vindos de garotos na casa dos 20.

Cindi recebeu a Serafina de jaqueta de couro e havaianas, num ateliê em Pinheiros, zone oeste de São Paulo, onde passou seis dias comandando um workshop, cujos resultados foram a balada no L'Amour, um site (sexonareal.com) e um videoclipe -tudo com o objetivo de fazer as pessoas falarem de sexo.

"Sair com aqueles jovens foi muito bom para o ego", diz, "mas fui percebendo um comportamento comum que tinha origem clara". Os homens mais novos, na visão dela, estavam imitando ações, posições e expressões típicas do mundo pornô.

"É o que acontece quando a liberdade total de acesso à pornografia encontra a relutância da sociedade em falar de sexo abertamente."

Duas forças que convergem, na visão dela, para fazer do pornô a base da educação sexual de hoje.

"Egos sexuais são muito frágeis. As pessoas acham difícil falar de sexo até com seus companheiros. Têm medo de machucar o outro se disserem algo. Ao mesmo tempo, querem satisfazer o parceiro mas não sabem exatamente o que isso quer dizer. Por isso vão buscar pistas aonde for possível", diz Cindy.

"Se as únicas pistas de como ser bons de cama vêm do pornô porque nossos pais e professores não falam de sexo, elas não vão levar aos melhores resultados."

Em 2009, sem alarde, Cindy criou um site sobre as diferenças entre o sexo real e a pornografia. Tratava desde a quantidade normal de saliva em um beijo ou no sexo oral até o ritmo das preliminares, passando pela erradicação dos pelos pubianos, com direito a dicas práticas como "comece no rosto e vá descendo".

Pouco tempo depois, convidada a fazer o lançamento oficial do site numa palestra da ONG TED, achou que era hora do alarde. "Sou a única pessoa que já disse 'goze na minha cara' no palco do TED", afirma com orgulho.

"Seis vezes", completa, rindo. A fala teve 1,5 milhão de visualizações apenas no Youtube e trouxe ânimo para passar da crítica à ação.

LUZ, CÂMERA, SEXO

Em 2012, entrou no ar o MakeLoveNotPorn.tv, um site onde pessoas de todo o planeta postam vídeos de suas transas, brincadeiras sexuais e afins. Os filmes são alugados e metade do valor (US$ 5) é repassada aos protagonistas.

São casais gays, casais héteros, solitários em busca de amor, tímidos, mascarados, e atores pornô mostrando que até o sexo que eles fazem na vida real é diferente do que fazem profissionalmente.

Os vídeos passam por uma curadoria, mas vale tudo, desde que sem imagens explícitas dos genitais ou sinfonias falsas de gemidos.

Mas, opa!, sem gemidos, sem genitais? Não que ela tenha nada contra, mas tudo tem soar natural, ter contexto e ser gostoso pra todo mundo. A ideia não é ser contra a pornografia, é mostrar a diferença, incentivar o diálogo. E, ao mesmo tempo, criar um negócio atraente para a publicidade, algo que a indústria pornô tem dificuldade em fazer.

"Estamos construindo uma nova categoria na internet", diz Cindy. "Somos parte da economia compartilhada, como o Uber e o Airbnb. Queremos que nossas estrelas sejam tão famosas quanto os youtubers", diz. "Aliás, somos a solução para a economia brasileira", brinca.

Depois, diz acreditar que o negócio pode mesmo gerar "pencas de dinheiro". Para isso, seria necessário aumentar a escala e ter um bom investidor.

Por ora, a estratégia é recrutar colaboradores. "Adoraríamos publicar vídeos brasileiros", completa sorrindo, deixando o convite. Alguém se habilita?


Via Folha
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