quarta-feira, 15 de junho de 2016

Manifesto Coletivo Autônomo de Mulheres Pretas


Nós, ADELINAS – Coletivo Autônomo de Mulheres Pretas, da grande São Paulo, formado em julho de 2015, por mulheres pretas e por elas representadas nos seus fenótipos negros: tonalidades de pele, texturas de cabelos, diferentes corpos e experiências comuns de opressão histórica.

Por unanimidade, aprovamos e tornamos público o presente MANIFESTO:

Quem é Adelina

Sabe-se que a “Adelina, a charuteira” foi uma escravizada e abolicionista maranhense. Seu pai e proprietário prometeu libertá-la, mas não cumpriu a promessa, garantindo apenas que Adelina fosse alfabetizada. Enquanto escrava de ganho, Adelina vendia charutos por toda a cidade, inclusive para estudantes, tendo a oportunidade de assistir a comícios abolicionistas no centro da cidade. Pela facilidade com que andava pelos espaços, Adelina teve grande importância nesse movimento abolicionista por ser informante das ações da policia contra os ativistas, além de também ajudava na fuga de escravizados.

Quem somos

Somos oriundas das trajetórias de militâncias individuais, de Coletivos Independentes e de outros grupos políticos do Movimento Negro. Constituímo-nos a partir do reconhecimento político que emerge das experiências, aparentemente pessoais, das vidas de cada uma, nas vivencias e experiências concretas e cotidianas do machismo, do sexismo, do capitalismo-patriarcal, sob vários eixos de subordinação e vulnerabilidade da nossa existência no interior desses espaços de lutas.

A partir dessas experiências tecemos reflexões importantes: a) O conceito da singularidade de ser mulher, ser negra, ser trabalhadora e pobre nos Movimentos de Esquerda, e especificamente, no interior do Movimento Negro. b) A percepção de que as pautas da condição histórica da mulher negra não têm sido suficientemente contempladas por coletivos revolucionários feministas e Movimentos de resistência preta. c) No interior desses Movimentos vivenciamos as desvantagens e as múltiplas formas de violações de direitos e violências, oriundas das doutrinas ideológicas do sexismo, do racismo e do capitalismo, sendo relegadas a permanecer em Grupos de Trabalhos (GTs) dos Movimentos, realizando os trabalhos braçais nos núcleos de bases, perpetuando o lugar histórico ocupado pelas mulheres negras em nossa formação e no imaginário social brasileiro

Estamos unidas e reunidas por vínculos ideológicos, afetivos e espirituais, conformando uma irmandade, espaço de associação e intimidade, a partir do qual buscamos construir uma militância coerente com nossas histórias de vidas e possibilidades de atuação política na busca por uma nova forma de ser “Mulher Negra” como seres transcendentais e protagonistas das nossas próprias histórias.

Contexto histórico

Nós, mulheres negras, tivemos nossas experiências históricas diferenciadas que o discurso clássico sobre as opressões não tem reconhecido. Nossa luta está focada nas raízes da realidade históricas das mulheres pretas e suas lutas contra as múltiplas formas de opressão. O Brasil é o país com a maior população negra das Américas. Segundo o IBGE, compomos 51% da população negra e diante desse universo, nós, mulheres negras, fazemos parte do continnum entre senzala-favela-prisão.

A luta das mulheres negras é a mais longa do território brasileiro, na perspectiva da transformação social, posto que se inicia desde que a primeira mulher negra pisou neste solo e passou a forjar estratégias políticas de sobrevivência contra as práticas de violência dos colonizadores que alugavam seus corpos para outros engenhos, vilarejos e povoados para prestar serviços como: de mucama, ama de leite, quituteira, rezadeira, parteira, raizeira, benzedeira e ou mercadejar alimentos, entre outras atividades “produtivas” da época.

Hoje, após 400 anos, as mulheres negras ainda continuam figurando no lugar histórico da subserviência e da subordinação. Onde elas estão?: nas cozinhas da elite branca; são as anti-musas no modelo eurocêntrico e neocolonialista do ideal de beleza; são as maiores vítimas das agressões físicas, sexuais, psicológicas; homicídios, tráfico sexual, exploração do trabalho, trabalho escravo e fazem partes do crescente aumento da população encarcerada e da mão de obra barata no complexo industrial da punição no Brasil; são também as principais vítimas da violência estatal e do genocídio, com foco no extermínio da juventude preta; são as mulheres sem–tetos, sem-terra, sem universidades, sub-empregadas e desempregadas, sem saneamento básico, em situação de rua, são as idosas desamparadas. Seus filhos são as principais vítimas nas instituições governamentais e da violência policial, são as principais vítimas de doenças endêmicas, do sucateamento da educação pública, da precariedade de transportes público, dos entraves ao acesso aos bens culturais, ao lazer, da má alimentação popular, da intolerância religiosa e do desrespeito as comunidade tradicionais.

No que acreditamos

Enquanto militantes orgânicas acreditamos na luta pela nossa autonomia como seres humanos transcendentais. Reconhecemos que as únicas pessoas que se importam com a libertação das múltiplas formas de opressão a que estamos submetidas, somos nós mesmas. Nossa política nasce de um amor saudável por nós mesmas, e por nossas irmãs aliadas, efetivamente comprometidas com a causa feminina – as mulheres indígenas, imigrantes, ciganas, homens transgênero e mulheres transgênero e as mulheres brancas, com o intuito de fortalecimento mútuo.

Somos solidárias aos homens organizados de nossa classe trabalhadora, em todas as esferas de lutas pela emancipação humana, buscando sempre minar práticas que retrocedam na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Somos irmãs de cor dos homens negros, nossas experiências comuns de opressão iniciadas com a invasão de europeus, em terras originalmente pertencentes aos povos indígenas, e desenvolvidos por meio da força do trabalho escravos de negros e negras, nos faz lutar juntos contra o racismo e o genocídio das gentes negras.

Estamos comprometidas com a luta antirracista, antisexista, anticlassista Nossa tarefa especifica é desenvolver uma análise e prática integrada, baseada no fato de que sofremos opressões simultâneas. Acreditamos que a política mais radical deve basear-se diretamente sobre a nossa identidade negra feminina e que libertação de todos os povos oprimidos exige a destruição dos sistemas políticos e econômicos do capitalismo e do imperialismo, tanto quanto o patriarcado. Não estamos convencidas, no entanto, que uma revolução socialista que não é também uma revolução feminista e anti-racista nos garanta nossa liberdade.

Acreditamos na construção de uma nação nova, multiétnica, pluricultural e multilíngue baseada na democracia, pluralismo, anti-imperialismo, e na eliminação da exploração social e opressão em todas as suas formas, em especial das mulheres negras – o duplo caráter de nossa condição biológica – racial e sexual, nos fazem mais oprimidas e exploradas no sistema capitalista-patriarcal que transforma as diferenças em desigualdades e a discriminação assumem caráter triplo, dada a posição de classe da maioria das mulheres negras.


Do Coletivo Adelinas
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