sábado, 21 de maio de 2016

Qual será o motivo da perseguição do Candomblé no Brasil?


Os tambores ouvem-se à medida que a poesia “Vozes D’África” do poeta negro brasileiro Castro Alves ecoa o grito de socorro dos povos africanos pelo fim da escravidão. “Deus! ó Deus! Onde estás que não respondes? Em que mundo, em que estrela tu te escondes? Embuçado nos céus?”.

A escravidão durou 350 anos. Quatro milhões de homens e mulheres foram levados da África para serem escravizados no Brasil. Ao chegarem, além da língua, cultura e força de trabalho, estes povos levaram consigo também a fé. As crenças e rituais africanos originaram religiões como o Candomblé e a Umbanda, atualmente praticadas em todo país.

O burburinho das conversas ouve-se na Avenida Vasco da Gama, uma zona movimentada da cidade de Salvador. No vale e também subindo as vielas, incrustados nos morros, estão alguns dos terreiros mais antigos da cidade. É aqui que os praticantes da religião realizam os rituais e celebrações litúrgicas.

Como é celebrada a liturgia Candomblé?

A DW África esteve numa liturgia, no terreiro “Casa Branca”, o mais antigo de Salvador e possivelmente também do país, que foi fundado por três princesas africanas: Iyá Detá, Iyá Kaláe e Iya Nassô, levadas como escravas para o Brasil. Foi em 1823 que tudo começou.


Estima-se que o Candomblé tenha mais de 3 milhões de seguidores em todo o mundo, principalmente no Brasil.

Quem nos recebe é Pai Léo, um ogan da casa que realiza diversas funções no terreiro, como tocar os tambores e receber visitas.

Pai Léo diz que o seu Camdomblé inicialmente se localizava no centro da cidade. “Devido à especulação, ao progresso, à inquisição, à perseguição já dos jesuítas e dos católicos, fomos obrigados a mudar-nos para aqui”, explica. “Aqui, nós cultuamos vários orixás, 16 orixás”, informa o ogan.

As divindades no Candomblé de tradição Ketu são chamadas de orixás. No terreiro, quem guia espiritualmente a casa é o “pai” ou “mãe” de santo.

Na sala grande, o teto é decorado com bandeirolas. Uma grande coroa, representando Xangô, o orixá da Justiça, repousa sobre o altar ao centro.

Os visitantes acomodam-se em bancos ao redor da sala. Todos estão atentos ao começo do ritual. Os filhos e filhas da casa, como são chamados aqueles que foram iniciados no terreiro, também estão presentes.

Tambores com cantos fazem anunciar o Xirê, o primeiro momento do ritual, quando os orixás são saudados. Depois a música torna-se mais intensa, para chamar as divindades. Não é permitido gravar a partir daqui…

A liturgia dura até a meia-noite, com cantos, tambores e dança. É também servido um caruru, comida feita com quiabo, camarão e óleo de dendê, conhecida na Baía como “comida de terreiro” por ser muito comum nestes rituais.

No terreiro de Mãe Conceição

Na periferia de Salvador, no bairro São Gonçalo de Cabula, no meio de casas residenciais e algumas igrejas, está o terreiro de Mãe Conceição.

As crianças brincam e tocam música de Candomblé. Desce-se uma escada. Encontramo-nos com a Mãe Conceição e ouvimo-la cantar.

A música é uma saudação à entidade “Sultão das Matas”. Conceição é uma das conhecidas “mães de casa de caboclo” de Salvador.

Ao contrário dos orixás, que possuem ancestralidade africana, os caboclos são originários do Brasil – os primeiros africanos que aqui chegaram incorporaram aos seus rituais práticas de origem indígena, como forma de saudar os povos que viviam nestas terras.

“Nestes 25 anos que eu tenho aqui, sempre tenho alguma coisa para fazer pela comunidade”, garante a Mãe Conceição. A maioria trata-a por “avó Conceição” ou “vó Conceição”. “A minha nação de caboclo, meus guias, pedem que eu busque as pessoas que necessitam e mandam-me fazer as coisas. Eu faço munguzá aqui na porta, eu faço sopa para dar ao pessoal”, explica.

A cadeira do Terreiro Mokambo

Anselmo Santos é o “pai de santo” no terreiro Mokambo, que está também localizado numa zona periférica da cidade de Salvador. Santos explica que “os terreiros de Candomblé foram instalados nos bolsões de pobreza”.

Quando começou, o terreiro Mokambo foi instalado nas periferias por conta da necessidade de ter um meio ambiente mais puro, folhas e águas e é por isso que hoje, os terreiros estão sitiados. “A cidade foi crescendo no entorno. E aí você briga pela qualidade de vida das pessoas, você luta pela fauna, pela flora. Nós temos trabalhado nesse sentido de trazer para as pessoas da comunidade uma melhor qualidade de vida”, revela o “pai de santo”.

Em outubro de 2015, foi devolvida ao terreiro Mokambo a cadeira onde um antigo “pai de santo” da ancestralidade da casa se sentava durante o culto. O terreiro esteve 95 anos sem a cadeira, que é um símbolo do poder e respeitabilidade no Candomblé.

A cadeira foi levada em 1920 pela polícia, que invadiu o terreiro para impedir a realização de um culto. Estas operações policiais eram frequentes na época, pois o catolicismo era por lei a religião oficial do Brasil e todas as outras religiões foram proibidas.

O Candomblé era outrora identificado como o reinado da feitiçaria, charlatanismo, exercício de falsa medicina, obscenidade e delinquência.

No entanto, em 1946, foi decretada no Brasil a liberdade de culto religioso. Ainda assim, os praticantes do Candomblé tinham que solicitar autorização à polícia e pagar uma taxa para poderem realizar o culto.

Atualmente, mesmo com a liberdade de culto garantida por lei, a perseguição contra a religião permanece de outras formas.

Os ataques e a perseguição ao Candomblé

Segundo a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial do Governo da Baía, todas as denúncias de intolerância religiosa registadas pelo órgão foram de agressões às religiões afro-brasileiras.

Em 2015, somente em Brasília, capital do país, 13 terreiros de Candomblé foram queimados. Em junho do mesmo ano, uma menina de 11 anos foi apedrejada nas ruas do Rio de Janeiro por trajar roupas de Candomblé sob gritos de “Queima”e “Sai Satanás!”.

Em Camaçari, na Baía, uma “mãe de santo”, de 90 anos de idade, conhecida como Mãe Dede de Iansã, morreu de enfarte após seguidores de uma igreja evangélica passarem a madrugada em vigília na frente de sua casa com o intuito de supostamente expulsar os demónios ali presentes.

O caso da Mãe Gilda

O caso de outra “mãe de santo”, a Mãe Gilda, tornou-se também emblemático da luta contra a violência religiosa. Em 1999, um jornal da Igreja Universal do Reino de Deus, com tiragem de 1 milhão e 300 mil exemplares, publicou em sua capa uma foto da religiosa com uma faixa preta nos olhos numa reportagem intitulada “Macumbeiros charlatães lesam o bolso e a vida dos clientes”.

O evento, que foi seguido de outro ataque por fiéis da igreja Assembleia de Deus, levou à morte da Mãe Gilda. Jaciara Ribeiro, sua filha, explica que a mãe, na altura com 65 anos, não suportou ver a própria imagem maculada daquela forma. Na altura, “um casal pertencente à Assembleia de Deus invadiu o terreiro e bateu com a Bíblia na cabeça da minha mãe”, descreve.

Jaciara lamenta o sucedido e diz mesmo que a mãe “viveu dois momentos muitos difíceis na vida dela” e acabou por morrer com um enfarte fulminante. Atualmente, o dia 21 de janeiro é o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, que é o dia da morte de Mãe Gilda.

Em declarações à DW África, a Igreja Universal afirmou discordar da decisão da justiça que a obrigou a pagar uma indeminização de cerca de 80 mil euros para os familiares da religiosa. A instituição garante que orienta os seus fiéis a respeitarem todas as crenças e cultos.

O representante da Convenção Estadual Baiana da Assembleia de Deus, Cleovaldo Gonçalves, também garante que a Assembleia não incentiva os seus seguidores a realizarem nenhuma forma de discriminação. “Nenhum desses atos tem amparo na Bíblia, ou em qualquer cabeça de pastor, ou de dirigente. Agora o que tem de se analisar é o seguinte: todos os ajuntamentos humanos têm a prática do exacerbamento, as pessoas ouvem algo e querem levar até às últimas consequências aquilo, e acabam cometendo disparidades como essas aí”, explica Gonçalves.

Ainda assim, o representante da Assembleia de Deus assegura que “a instituição nunca orienta os fiéis a invadirem o lar de pessoas, ou a tentarem convencer as pessoas pela força. Não existe isso, não existe nenhuma orientação em relação a isso”, garante.

Ataques ao Candomblé: Uma luta de seguidores ou uma questão racial?

O aumento de casos de ataques aos praticantes das religiões afro-brasileiras tem levado alguns especialistas a falar em “guerra santa” no Brasil.

Paulo César de Brito, sociólogo que estuda a relação entre a Igreja Universal do Reino de Deus e o Candomblé, acredita que estes conflitos são uma luta por mais seguidores. “Essa intolerância e esse conflito decorre em grande medida por uma disputa por um mercado religioso. Por uma busca de um capital religioso, e pela destruição do outro”, esclarece.

Jean Wyllys, deputado federal natural do estado da Baía, defende a diversidade religiosa mesmo num cenário político em que a bancada de origem evangélica, na Câmara de Deputados, se tem fortalecido. Para Wyllys, a causa da perseguição está no racismo que é um problema estrutural na sociedade brasileira pois “os governos democráticos não conseguiram pagar um débito histórico de educação de qualidade, como tão pouco o Estado pagou o débito histórico em termos de distribuição de renda”.

Desta forma, “os negros que eram escravos e que foram libertados, não foram inseridos no mercado de trabalho e passaram a reproduzir a pobreza nas periferias”, diz o deputado, explicando que essa pobreza, mais tarde se traduziu em racismo.

“Os evangélicos não perseguem os judeus, que são uma minoria religiosa, nem perseguem os budistas da comunidade japonesa, nem sequer os chineses e a sua religião.Eles perseguem as religiões de matriz africana, e porquê? Porque são religiões de negros. Essa é a questão”, clarifica Jean Wyllys.

Marcos Rezende, coordenador do Coletivo de Entidades Negras que atua em oito estados do Brasil na defesa dos direitos dos afrodescendentes e combate à discriminação racial, concorda: “Uma parte dessa discriminação, desta intolerância religiosa, é porque somos negros, é porque temos uma ligação estreita com os países africanos, e o histórico internacional, o histórico mundial com esta origem africana, com este continente africano, é um histórico de desrespeito, é um histórico ainda de uma nova colonização”.

Mais de um século depois da abolição da escravatura no Brasil, Makota Valdina, educadora conhecida pela sua militância no movimento negro desde 1970, continua a lembrar que todos somos seres humanos.

“Nós hoje estamos aqui porque nos trouxeram nessa condição de pessoas que foram escravizadas. Eu não sou descendente de escravos eu sou descendente de seres humanos, que foram tornados escravos por conta da dominação”.

Sandra Maria Bispo, que faz parte do terreiro Oxumaré, um dos mais antigos da Baía, faz um apelo: “Queremos ser respeitados. Dentro dos nossos credos, dos nossos sonhos, das nossas perspetivas de vida. Queremos ser respeitados dentro das nossas escolhas”.


Do DW
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