terça-feira, 17 de maio de 2016

Para guru, é hora de mercado de carbono e zepelim cargueiro


São Paulo - O cientista inglês Sir David King tem sido um guru do clima desde os primórdios das discussões sobre aquecimento global. Figura fundamental para o desenvolvimento das energias renováveis no Reino Unido, ele reconhece como poucos o tamanho do desafio que é colocar as mudanças climáticas no centro da agenda política. E, como bom veterano de guerra, tem faro apurado para identificar a hora certa de virar o jogo.

Para ele, o momento nunca foi tão propício como agora, quando temos um compromisso climático histórico — o Acordo de Paris — que traz metas para todos os países com intuito de limitar o aumento da temperatura global em no máximo 2 ºC até 2100, evitando-se assim mudanças perigosas no clima da Terra. “É possível atingir os 2 ºC? Sim. Será difícil? Sim. Mas também é tempo de criar novas e excitantes oportunidades”, diz o cientista.

Outrora conselheiro científico do ex-primeiro ministro britânico Tony Blair, King é atualmente embaixador permanente do Reino Unido para questões climáticas e preside o conselho do grupo de inovação urbanística Future Cities Catapult. Em entrevista recente a EXAME.com, ele falou sobre a consolidação das energias renováveis, a emergência de um mercado de carbono poderoso que poderá reunir União Europeia e China, além da imensa janela de oportunidades para o desenvolvimento de tecnologias inovadoras e sustentáveis. Confira abaixo:

Divulgação

Sir David King: ele reconhece como poucos o tamanho do desafio de colocar as mudanças climáticas no centro da agenda política -- e também a hora certa de virar o jogo. 

EXAME.com: Ao seu ver, quais são os desdobramentos mais positivos da histórica reunião do clima da ONU, a COP21?

Sir David King: Tem vários desdobramentos positivos da COP 21. Eu diria que o dia 12 de dezembro de 2015 [quando nasceu o grande acordo climático] vai entrar para a história como o momento que todas as nações do mundo resolveram agir efetivamente nas questões climáticas. O segundo ponto é que a maioria dos países enviou suas contribuições nacionais de redução de emissões que, somadas, provocam um forte aumento da demanda por energias renováveis. À medida que essa demanda cresce, os produtores de energia vão competir entre si no mercado para atendê-la e os preços cairão continuamente. Outros compromissos adotados também são importantes, como a disponibilização de 100 bilhões de dólares por ano das nações mais desenvolvidas para financiar projetos de mitigação e adaptação climáticas nos países menos desenvolvidos.

EXAME.com: Será que agora, com a política climática pós-COP21 e o Acordo de Paris, o mercado de carbono vai deslanchar?

Sir David King: Não tenho dúvida de que o Acordo de Paris vai acelerar a mudança em países que estão perseguindo esse mercado. A União Europeia está totalmente envolvida no processo de captura e comércio de carbono (cap-and-trade). Califórnia e outros estados americanos e do Canadá também já aderiram. No ano que vem, toda a China fará parte de um sistema nacional de comércio de carbono, atualmente sete jurisdições implementaram programa piloto. E também já começaram as discussões entre a União Europeia e a China sobre a possibilidade de fundir os processos de cap-and-trade num futuro próximo, o que daria uma dimensão sem precedente a esse mercado. 

EXAME.com: E quais as perspectivas para o mercado de energia renovável?

Sir David King: As fontes renováveis responderam por 51% das novas instalações de eletricidade em 2014 e, segundo os últimos dados da Agência Internacional de Energia, em 2015, elas representaram 90% de toda a nova capacidade de geração instalada. Ou seja, mesmo antes de Paris, uma grande mudança já havia começado. Agora, vamos ver que essa mudança vai se desenvolver muito além das energias renováveis, passando a envolver novas tecnologias, como sistemas de armazenamento de energia elétrica e as redes inteligentes [smart grids]. Com o fluxo dessas tecnologias no mercado, a demanda vai criar competição entre os fornecedores e os preços vão cair. Esse desdobramento positivo vai permitir que as energias renováveis desbanquem de uma vez os sistemas baseados em combustíveis fósseis.

EXAME.com: Tem alguma solução sustentável ou projeto inovador que chamou sua atenção recentemente?

Sir David King: Tem um projeto que me parece absolutamente promissor e que está sendo produzido por uma empresa britânica chamada VariaLift. Trata-se de um novo tipo de dirigível híbrido bem grande e feito de alumínio (assim como os aviões de hoje), movido por gás hélio e energia solar. Essa aeronave tem 150 metros de comprimento e traz em seu interior containers gigantes presos a balões. Uma vez cheios de hélio, eles podem viajar pelo céu carregando mais de 200 toneladas em carga.

O mais bacana é que eles possuem um guindaste a bordo, então cada container pode ser levado ao solo e depois carregado de volta para o interior da aeronave. Isso significa que você pode entregar e pegar commodities de qualquer lugar do mundo sem ter que pousar num lugar específico. Olhe o potencial desse projeto para o Brasil, você pode transportar bens por qualquer área, através das florestas da Amazônia, e driblar os problemas de infraestrutura. E podemos fazer isso gastando muito menos energia e exigindo menos logística que um avião regular ou outras formas de transportes de cargas pesadas.

EXAME.com: Um acordo global dá conta, sozinho, de todos os desafios climáticos que o mundo enfrenta?

Sir David King: O Acordo de Paris é muito significativo, ele simboliza que todas as nações estão unidas em torno de um tema comum. Mas ainda há muitas questões difíceis por resolver, como por exemplo o carbono embutido nos bens de consumo. A China exporta bens cuja manufatura libera grandes emissões de carbono. Apesar desses produtos terem como destino países do Ocidente, o saldo de emissões recai todo sobre a China apenas, ele não é associado à União Europeia ou aos Estados Unidos.

Outro tema importante que vem à tona com força após a COP 21 é o REDD+, que atende a dois pontos críticos: evitar as emissões por desmatamento e a necessidade de aumentarmos o reflorestamento no mundo. Então, em paralelo ao Acordo de Paris, temos por exemplo a “Declaração de Nova York sobre Florestas”, que prevê reduzir pela metade o desmatamento até 2020 e zerá-lo até 2030, reflorestando uma área equivalente ao tamanho da Índia. Isso é crítico, porque precisamos de mais sumidouros de CO2 no mundo para atingirmos o equilíbrio.

EXAME.com: No ritmo atual de descarbonização da economia global, daremos conta de limitar o aumento da temperatura do Planeta em 2 °C até 2100?

Sir David King: Os riscos para a economia global dos impactos das mudanças climáticas além desse limite significariam um colapso global. Então precisamos acelerar o passo da transição. Isso já tem acontecido com o mercado de energias renováveis. Por exemplo, em paralelo ao Acordo de Paris, foi lançada a Missão Inovação, e o Brasil é um dos 20 países signatários dessa plataforma. Ela prevê investimentos de 20 bilhões de dólares pelos governos desses países em pesquisas de desenvolvimento de fontes renováveis de geração de energia ao longo dos próximos anos. O intuito é estimular o surgimento de tecnologias zero carbono necessárias para substituir as velhas tecnologias de combustíveis fósseis. Tem também a Breakthrough Energy Coalition [formada por um seleto grupo de bilionários, como Bill Gates, Mark Zuckerberg, Jeff Bezos e Jack Ma], que prevê igualmente o financiamento de projetos de desenvolvimento de energias limpas.

EXAME.com: Então, esse é um limite alcançável? 

Sir David King: Sim, é possível atingir os 2ºC. Será difícil? Será. Mas também será um tempo de criar novas e excitantes oportunidades. Por outro lado, se não conseguirmos isso teremos que tentar reverter a quantidade de gases de efeito estufa na atmosfera, o que seria um processo muito caro. Mas, novamente, é importante destacar que os 2ºC não serão atingidos apenas com as contribuições nacionais, teremos de operar o mercado de forma sensata para que ele acelere a mudança de tecnologias.

Os bancos, por exemplo, precisarão compreender a necessidade de avaliar seus investimentos futuros em empresas baseadas em combustíveis fósseis. As maiores indústrias desse setor também precisam entender que seu futuro depende de mudarem para as fontes renováveis. Do contrário, elas podem tornar-se ativos irrecuperáveis no novo sistema econômico global.

EXAME.com: O Sr. é bem ativo nas redes sociais. Alguns de seus tuites resumem de forma simples e compreensível os desafios que enfrentamos. Como é possível acelerar a mudança de comportamento do consumidor?

Sir David King: É muito importante reconhecer duas coisas. Primeiro, precisamos reconhecer os enormes riscos que enfrentamos com as mudanças climáticas, riscos para a produção de alimentos, risco de aumento do nível do mar, que ameaça grandes cidades do mundo, como o Rio de Janeiro, no Brasil, Londres no Reino Unido, Nova York, nos EUA, Mumbai na Índia e muitas outras. Precisamos entender essas ameaças. Por outro lado, também precisamos entender as oportunidades que se abrem. E elas são impulsionadas pelo fato de que nós, os ocupantes da Terra, decidimos na COP 21 descarbonizar a economia global nas próximas décadas.

Aí temos uma oportunidade imensa para todas as novas tecnologias que podemos trazer para o mercado. Uma das coisas maravilhosas das energias renováveis é que elas são limpas do ponto de vista climático, mas também são limpas porque mantém a atmosfera de nossas cidades limpas. Muitas de nossas cidades estão sofrendo com poluição causada por fontes sujas. Eu acredito que o comportamento do consumidor pode gerar mudanças de comportamento no setor privado também.


Via Exame.com
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