terça-feira, 17 de maio de 2016

O que meu pai e a África me ensinaram sobre ser negro


Mas antes de qualquer coisa, quero te pedir um favor. Pare um instante e pense: o que você sabe sobre os negros?

Pronto. Pensou?

Escravidão, alegria, África, pobreza, carnaval, força, criminalidade. Pelo menos uma dessas palavras deve ter passado pela sua cabeça, assim como tantas outras, umas positivas outras nem tanto.

De fato, a história do povo negro já cruzou com essas palavras e anda de mãos dadas com algumas delas até hoje. Assim como é impossível não pensar em “holocausto” ao ouvir “judeu”, também é impossível não pensar em “escravidão” ao ouvir “negro”, pelo menos não por um longo tempo. Mas isso não é novidade, é só constatação.

O grande problema não está em associar negros à escravidão, está em supor que a única herança de um povo é uma tragédia.

E foi o exato oposto que meu pai me ensinou. Ele nasceu em uma pequena cidade do interior chamada Ojoto, no sul da Nigéria. Foi o segundo filho, da segunda esposa do meu avô.

Perto da idade que tenho enquanto escrevo esse texto, 22 anos, ele saiu da Nigéria e foi ganhar o mundo. Morou em Taiwan, na China e finalmente Brasil, aprendeu mais de cinco idiomas, incluindo chinês. Quando eu era pequeno ele me contava histórias sobre as suas viagens, sobre a Nigéria, sobre o meu avô e os nossos antepassados.

Uma das minhas histórias preferidas é a que fala sobre o simbolo da nossa família, um dente de elefante. Ele me contou sobre um passado distante, perdido nos séculos, um passado em que nossos ancestrais lutaram contra elefantes para conquistar o território onde fica a nossa casa. E por esse motivo até hoje, o dente do último elefante morto é passado à diante, sempre do filho mais velho para o filho mais velho.

Me contou sobre como a nossa história se confundia com a de reis e rainhas, guerreiros e feiticeiras, que por causa disso me deu esse nome: Charles. Para que eu me lembrasse que aqueles que vieram antes de mim foram reis e príncipes. Ele me contou histórias que o pai do meu avô contava para o pai do meu pai, histórias que foram passadas à frente como jóias de família.

E por falar em família.

Perto dos 13 anos eu visitei a Nigéria pela primeira vez, conheci a cidade do meu pai, minha avó, meus tios e tias, além de um número incontável de primos. Na minha primeira noite nós tocamos tambores, chocalhos, flautas e dançamos. Meu tio me contou novas histórias sob a luz de uma lamparina.

Antes de finalmente dormir, fui escovar os dentes e me deparei com uma estranheza que aos poucos se tornaria familiar. Na pasta de dente que eu segurava havia um homem e uma mulher negra sorrindo pra mim na embalagem. Foi a primeira vez que vi alguém parecido comigo na embalagem de alguma coisa, na minha vida inteira. Pela primeira vez, eu não era um garoto negro. Eu era apenas um garoto.

Nos dias que seguiram meu pai me levou ao riacho em que ele costumava brincar, à floresta de bambus em que se escondia e nos vales profundos e laranjas, que me lembravam versões singelas de cânions. Me levou até para caçar capivaras à luz da lua, embora eu tenha me mostrado um desastre na arte de fazer silêncio e olhar por onde ando.

Depois de tanta alegria, tanta festa e tanta dança eu me perguntei:

— Onde está a África que mostravam na Tv? Porque nela só havia fome, sede e mais nada.

Permitir que acreditem que o único legado de um povo é a escravidão e a miséria, é apagar sua história e cobrir os rastros, é roubar sua confiança e fazê-lo acreditar que mesmo livre… Uma vez escravo, sempre escravo. Por isso peço licença e pego emprestado o sentido da famosa frase de Simone de Beauvoir.

“Ninguém nasce negro. Torna-se negro” .

Nossa história se perdeu em algum lugar entre as viagens de um navio humano, quente e negreiro.

Uma vez enquanto conversávamos sobre o paraíso, meu pai me surpreendeu com uma resposta. Ao perguntar a versão dele do fim do mundo, ele me disse que teve um sonho. Sonho no qual chegaria o dia em que todo o mundo estaria povoado por industrias e poluição, em que um dos poucos lugares da Terra com solo bom e cultivável seria a África. Quando esse dia chegasse a humanidade voltaria seus olhos para o continente há muito esquecido e investiria todos os seus recursos nele, na esperança de encontrar uma solução. Então a África se reergueria e daria inicio a um recomeço. Recomeço que restauraria o mundo todo. Até que enfim, o lugar que um dia foi sinônimo de miséria, seria abundante e se tornaria o paraíso na Terra.

Hoje, anos depois da nossa conversa, eu sonho o mesmo sonho do meu pai.


Por Charles Omoregie Enviado para o Portal Geledés
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