segunda-feira, 2 de maio de 2016

Monumental desastre


A situação na Venezuela se deteriorou a tal ponto que o país está parando, não mais em termos figurados, como acontece em geral quando se quer descrever o resultado de crises graves. A Venezuela está parando literalmente, como fica evidente com as novas medidas – que levam à paralisação pura e simples das atividades de importantes setores – anunciadas para enfrentar a escassez de energia elétrica, que não é devida apenas à seca que esvaziou os reservatórios, mas também à incompetência e à imprevidência dos que podiam e deviam planejar melhor a matriz energética, de forma a se preparar para situações como essa. Especialmente num país que conta com o trunfo da abundância de petróleo.

Pelo menos durante as próximas semanas, o setor público só vai trabalhar segundas e terças-feiras, com exceção dos serviços essenciais. Na sexta-feira também não funcionarão as escolas. Caso raríssimo, senão único, de um país inteiro que entra em férias coletivas – se é que a palavra férias pode ser empregada nesse contexto dramático – por falta de energia elétrica.

Mas há muito mais atrás disso. Toda a vida econômica do país entrou em colapso. Além de eletricidade, também não há dinheiro para quase nada. O presidente da Assembleia Nacional, Henry Ramos Allup, comunicou aos deputados e funcionários da instituição que está sem condições de pagar seus salários. Seria possível alegar que isso é mais uma represália do presidente Nicolás Maduro contra a oposição que controla a Assembleia. Ele já deu mostras de que seria capaz disso.

Mas tudo indica que isso decorre do estado de penúria em que mergulhou o país. Tanto é assim que se ficou sabendo, ao mesmo tempo, que a Venezuela já não tem dinheiro nem para pagar a impressão de dinheiro. O pagamento a pelo menos uma das grandes empresas impressoras europeias especializadas nesse trabalho, às quais o país habitualmente faz suas encomendas, está atrasado. A falta de recursos para tal está intimamente associada – e por ela agravada – à inflação desenfreada, que exige quantidades cada vez maiores de notas. Até transações banais do dia a dia exigem grande número de cédulas, mesmo as de valores mais elevados.

A escassez atinge quase tudo: do papel higiênico – cuja falta tragicômica virou objeto de galhofa – até itens básicos de alimentação, vestuário e medicamentos. Quando os produtos alimentícios aparecem, não há dinheiro para comprá-los. É o que acontece com 87% da população, de acordo com pesquisa feita por três universidades do país. A disparada da inflação tornou um privilégio, por exemplo, comer queijo, pois um quilo desse produto chega a custar um terço do salário mínimo.

As estatísticas mais confiáveis sobre a economia do país – as do Fundo Monetário Internacional (FMI), porque as do governo, sabidamente manipuladas, perderam toda a credibilidade – espelham esse quadro desolador. A previsão da inflação para este ano está nas alturas de 700%. O PIB encolheu 3,9% em 2014, 5,7% em 2015 e as projeções para 2016 (-8%) e 2017 (-4,5%) são igualmente assustadoras. O país está se desmilinguindo.

O pior de tudo é que a perspectiva de mudança, pelo menos a curto prazo – salvo algum acontecimento excepcional –, não é animadora. As esperanças suscitadas pela formação de uma maioria oposicionista nas últimas eleições parlamentares logo se desvaneceram, porque, por meio do controle do Tribunal Supremo de Justiça, o presidente Maduro anula todas as suas iniciativas para abrir o regime.

E não será de admirar se o referendo que pode encurtar o mandato de Maduro – a oposição já conseguiu muito mais do que as assinaturas necessárias para cumprir a primeira etapa do processo de convocação da consulta – tiver o mesmo destino, por causa de manobras protelatórias.

Remover o entulho do monumental desastre da “revolução bolivariana” iniciada por Hugo Chávez e continuada por Maduro ainda vai custar muito sacrifício aos venezuelanos.


Via Estadão
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