sexta-feira, 13 de maio de 2016

Flórida Keys: A travessia em uma estrada sobre o mar


Trajeto de carro entre Key West e Key Largo tem belas paisagens e atrações culturais

KEY WEST - Atravessar as ilhas que formam a região de Flórida Keys, a parte mais ao sul dos Estados Unidos, como eu fiz mês passado, é dirigir por cerca de 150km entre Key West e Key Largo, cruzando as 42 pontes da Overseas Highway (US Highway 1), rodovia que liga a área ao continente americano. A estrada corta cinco conjuntos de ilhas, tendo o Golfo do México de um lado e o Oceano Atlântico do outro, em posição que garante belas vistas para o mar esverdeado.

Cheguei a Key West de avião. A distância entre a ilha e Miami, passando pelas ilhas Big Pine & The Lower Keys, Marathon, Islamorada e Key Largo, não é, em si, longa: dá para cruzar a autoestrada, que se abre em até quatro pistas, em um dia. Ou mesmo em quatro horas. Mas o ideal é alongar a estada para ao menos cinco dias e a aproveitar a diversidade e o clima tropical da região.

Antes de partir para a road trip pelo “Caribe americano”, no entanto, consulte calendário e condições meteorológicas — as Keys estão em área de furacões, e a época crítica vai de agosto a outubro.

A boêmia e histórica Key West, a mais distante do continente é também a maior delas. Fica a 182km de Miami, e a apenas 140km de Cuba, país cuja influência está por todos os lados. Antes da Revolução Cubana, em 1959, o intercâmbio cultural e comercial entre os dois países foi intenso e determinou em muito a identidade de Key West, que, assim como a terra de Fidel Castro, foi a casa de escritores como Ernest Hemingway: ele morou oito anos na ilha americana e quase 20 no país vizinho.

O fato é que o clima da cidade, que recebe voos diários de Miami, é uma mistura da influência latina com a cultura sulista dos EUA.

Roteiro de carro pelas Flórida Keys - Nathany Santos/Editoria de Arte / O Globo

A próxima parada pode ser em Little Palm Island, ilha ocupada por um resort com um restaurante conhecido pelo ambiente romântico. Em Big Pine Key, dá para curtir praia de águas claras pela primeira vez. Marathon, em seguida, oferece as melhores opções de hospedagem depois de Key West e um instituto dedicado às tartarugas da região (a visita vale muito). Islamorada e Key Largo têm ótima estrutura de praias.

Um lembrete importante: só alugue o carro, quando for deixar Key West. É que a cidade deve ser explorada a pé ou de bicicleta: é difícil encontrar vaga pelas ruas estreitas da ilha, o estacionamento é caro e o trânsito complicado. As locadoras estão no aeroporto, que fica na beira da Overseas, um convite para a road trip começar.
Flórida Keys: a travessia em uma estrada sobre o mar

KEY WEST: HEMINGWAY E HERANÇA CUBANA
Casas típicas do centro de Key West, nas Flórida Keys - Carolina Mazzi / O Globo

Ernest Hemingway, se fosse vivo, provavelmente estaria, no dia 20 de março, em seu bar preferido de Key West, o Captain Tony’s (atual Sloppy Joe’s), para celebrar a visita de Barack Obama à Cuba — um momento emblemático na retomada das relações entre os EUA e a ilha de Fidel, para onde, apesar de ter morado, ficou impedido de voltar alguns meses depois da Revolução Cubana.

Hemingway certamente sentaria no canto esquerdo do bar, perto da sinuca, onde ficava sua mesa favorita e, com seu inseparável bloco, iniciaria mais um romance sobre a relação entre as duas nações, do qual é possivelmente o melhor narrador e um dos principais personagens. Depois de algumas cervejas, seguiria com um charuto cubano, comprado em alguma das barraquinhas que se espalham pelas ruas, até sua casa, uma construção de influência hispânica, que existe até hoje e atualmente funciona como museu.

O escritor viveu na cidade durante a década de 30, mas não é difícil imaginar a cena: Key West manteve preservadas suas construções, seu espírito informal, as influências cubanas e a aura boêmia que encantou o escritor. Quando chegou, após a lua de mel com Pauline Pffeifer, em 1928, voltava de Havana, e pretendia fazer uma parada rápida para alugar um carro. Porém, um atraso os reteve por três semanas e o americano, que tinha como hábito escrever pelas manhãs, se encantou pela cidade nas caminhadas que realizava durante as tardes.

A casa para onde se mudou, na Rua Whitehead, é uma das muitas atrações do município de 25 mil habitantes. Se Key West modelou em muitos aspectos a vida de Hemingway, a presença do escritor também marca a identidade da ilha. Logo, visitar a casa é um dos programas do turista. A máquina de escrever onde digitou um dos seus maiores sucessos, “Adeus às armas”, ainda está lá, junto às fotos de suas pescarias pela região. O divertido tour guiado, que acontece a cada hora, mostra cada detalhe da construção e da história de vida do autor e sua relação com o município.

Os gatos que habitam a residência, e que são parte do passeio, chamam atenção: são cerca de 50 e alguns possuem seis dedos. Isto porque todos são descendentes de Snow White, gata que viveu com o autor e que sofria da mutação. Nos exemplares com o dedo a mais, a pata se assemelha a uma mão e, diz o guia, alguns conseguem segurar objetos como humanos. É mesmo de ver pra crer.

Casa onde Ernest Hemingway morou por oito anos em Key West - Carolina Mazzi / O Globo

E se for seguir os passos do escritor, a próxima parada será em algum bar. Um dos melhores da cidade é o Green Parrot, fundado em 1890 e que mantém vivo o espírito sulista e tropical da ilha. Deixando transparecer as influências da música negra até a cultura country, o bar tem excelente trilha sonora. Deixe o favorito do autor, o Sloopy Joe’s, para a noite e aproveite os shows e a animação local.

Mas nem só da arte de Hemingway vive Key West. Quem também morou na ilha por mais de dez anos foi o escritor Tennessee Williams, autor de clássicos do cinema e do teatro, como “Um bonde chamado desejo”. Há um pequeno museu (gratuito) que conta a história de vida e a relação do artista com a cidade. O local fica em uma das muitas casas históricas que ocupam suas ruas.

Key West é muito frequentada por americanos, que chegam principalmente de carro. Por ser histórica, um dos melhores programas por lá é caminhar e observar suas casas e prédios antigos. Dentro deles, há lojas, livrarias e cafés cubanos (muitos!), como o Cuban Coffee Queen, que oferece opções de sanduíches e saladas típicas do país latino. O estabelecimento fica dentro de uma vila, construída no início do século XX, bastante arborizada e com um quê espanhol.

Outra opção de passeio com uma pegada histórica e gastronômica é a Coffee House Bakery, na Caroline Street, uma das mais belas e calmas de Key West, que, até o meio do ano, estará passando por obras de restauração. Escolha a varanda. Todo o cardápio vale a pena, mas, na dúvida, peça uma fatia de bolo de laranja com baunilha ou a famosa Key Lime Pie.

Embora não seja um destino popular pelas praias (Smathers e Rest, que são frequentadas por banhistas, mais ficam distantes), o mar que cerca a ilha é de águas claras e assistir ao pôr do sol é programa popular por lá.

FLÓRIDA KEYS: O 'CARIBE AMERICANO'

Píer de Key West, a principal cidade das Flórida Keys, o arquipélago que forma a parte mais ao sul do território dos Estados UnidosFoto: Carolina Mazzi / O Globo

Charmosa e vibrante, Key West está na ilha mais ao sul das Keys. É um bom ponto de partida para explorar a região, subindo em direção a MiamiFoto: Divulgação/Visit Florida / Andy Newman/Florida Keys News Bu


Gatos vivem em paz no Ernest Hemingway Home & Museu, onde o escritor vivou durante oito anos, em Key WestFoto: Carolina Mazzi / O Globo


Trenzinho turístico para em frente ao Sloppy Joe's Bar, o preferido de Hemingway na época em que viveu em Key WestFoto: Divulgação/Visit Florida / Bob Krist/Florida Keys News Bure


O espírito boêmio de Hemingway continua vivo nos muito bares de Key West, como o animado Green ParrotFoto: Carolina Mazzi / O Globo


Espreguiçadeiras na praia reservada em Little Palm Island, ilha particular na região das Lower KeysFoto: Carolina Mazzi / O Globo


Mais ao norte, em Big Pine Key, a ponte interrompida compõe o cenário da praia de Bahia Honda, que já foi considerada a mais bonita dos Estados UnidosFoto: Carolina Mazzi / O Globo

Em Marathon, o Turtle Hospital, recupera animais feridos e é uma boa atração para quem viaja em famíliaFoto: Carolina Mazzi / O Globo


Banhistas aproveitam o sol em Cannon Beach, em Key Largo, a última parada antes de voltar à Flórida continentalFoto: Visit Florida / Divulgação


A travessia de 150km pelas Flórida Keys é feita por pontes como essas, na altura de Marathon, que avançam sobre o mar e ligam uma ilha a outraFoto: Andy Newman/Visit Florida / Divulgação

No charmoso cais, artistas locais se apresentam enquanto o sol se despede. Há passeios de barco para assistir ao espetáculo natural das águas do Golfo do México ou em alguns restaurantes espalhados nas pequenas ilhas das proximidades. Nestes dois casos, no entanto, é preciso fazer reserva pela manhã. Uma das boas opções de jantar é o Latitudes, de frutos do mar, com sua própria balsa para levar os clientes.

Ali por perto, outra opção divertida deve agradar principalmente às crianças: o Mel Fisher Museum, que conta a história do caçador de tesouros Mel Fisher e sua busca por um navio espanhol que naufragou no século XVI nas águas de Key West. A embarcação foi encontrada, depois de muitos anos de buscas, pelo americano e sua equipe, em 1985. Há partes do navio, moedas, joias e blocos de prata encontrados no naufrágio em exposição.

Key West jamais teria encantado Hemingway não fosse sua vocação boêmia. Diferentemente de outras cidades americanas, os bares da Duval Street, principal e mais animada rua do pedaço, fecham bem tarde (alguns ficam abertos até as 4h) e não faltam comida e boa música. Além do Sloppy Joe’s e do Captain Tony’s, para beber e dançar, vale a visita ao Whiskey Bar. Há duas empresas, a Pub Crawl e a Best of Bars, que oferecem tours que se pode fazer pelos bares. E os restaurantes Blue Heaven, de comida americana, e o Santiago’s Bodega, de comida cubana, são boas pedidas para forrar o estômago.

MARATHON, BIG PINE E LOWER KEYS
Ponte desativada integra o cenário da bela praia de Bahia Honda, nas Flórida Keys - Carolina Mazzi / O Globo

Ao deixar Key West, há mais opções de praias ao longo da Overseas Highway. Marathon, a cerca de 80km de distância, vale para passar a noite, já que a cidade tem melhores opções de hospedagem. Mas não vá direto, há pontos no trajeto que merecem a parada. Em Little Palm Island, ilha particular onde funciona um hotel cercado, é possível avistar diferentes espécies de aves e peixes. Com a mesma sorte que eu tive, até mesmo um tubarão mergulhando ao longe.

O (excelente) restaurante do hotel recebe não-hóspedes. Só o passeio de barco até a ilha vale a visita. O destaque do menu são as saladas: não deixe de provar a Chilled Key West Shrimp (US$ 30), de camarão e frutos do mar; ou a Blackened Ahi Tuna Salad (US$ 28), com atum e azeitonas frescas.

De volta à estrada, siga até o Parque Estadual Bahia Honda, em Big Pine Key, já perto de Marathon. Para chegar à essa praia, que já foi eleita a melhor dos EUA, com água transparente e boa para prática de snorkel, paga-se U$ 8 por carro. Lá, há infraestrutura ideal com banheiro, vestiário e restaurante. Da areia branca, é possível ver parte da rodovia que corta as Keys e outra ponte, desativada, que dá charme urbano ao local. A beleza do mar com tons esverdeados justifica a fama da praia, mas a quantidade de carros e o espaço estreito para esticar a canga (ou melhor, toalha, no caso dos americanos) pode atrapalhar quem busca um pouco mais de tranquilidade.

Quem quiser pode passar o dia por ali e depois seguir até Marathon, por mais 24km de estrada. Depois de idas e vindas entre outras praias e a rodovia, vale passar a noite por lá, em hotéis de rede, resorts ou pousadas.

O Turtle Hospital, em Marathon, recupera tartarugas feridas - Carolina Mazzi / O Globo

Para quem prefere aproveitar o litoral ao máximo há mais opções de praias em Marathon, como a Sombrero Beach, que tem faixa de areia maior que as demais. Todas elas estão dentro de parques estaduais, onde também é possível fazer caminhadas em meio ao verde, e têm horário de funcionamento: das 7h30m até o pôr do sol. Na Sombrero, há uma área fechada para a desova de tartarugas. Isso porque, as ilhas que compõem o sul da Flórida são um importante local para a reprodução do animal.

Para entender um pouco mais do assunto (ou até observar a desova, em épocas específicas do ano), é possível visitar, em Marathon, o Turtle Hospital, hospital licenciado para recuperar esses animais feridos, ou com doenças, e recolocá-los no seu habitat. No tour guiado, o visitante pode alimentar alguns animais que não têm condição de voltar para o mar (como aqueles que tiveram o casco danificado por navios) e observar cirurgias para retiradas de tumor, entre outros procedimentos.

Nessa mesma linha, outro ponto que vale a visita na cidade é o Dolphin Research Center, instituto que promove a preservação e pesquisas com golfinhos. O passeio também deve agradar bastante quem está na estrada com crianças. Além de visitas guiadas, tours educacionais, o local promove mergulho e contato direto com os mamíferos aquáticos. Boas memórias para levar pela rodovia.

ISLAMORADA E KEY LARGO
Cannon Beach, que fica no John Pennekamp Coral Reef State Park, em Key Largo - Visit Florida / Divulgação


Via O Globo
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