segunda-feira, 2 de maio de 2016

Efeitos psicossociais do racismo afetam reconhecimento individual de negros


Além de direitos e liberdades afetados, identidade do negro pode ser mais um ponto prejudicado por esse problema

De acordo com o professor Alessandro de Oliveira Santos os efeitos psicossociais do racismo sobre os negros criam impasses no próprio avanço do combate ao racismo. O motivo mora numa perda de reconhecimento do negro como individuo na medida em que, num cenário de supremacia branca, ele tende a carregar os estereótipos negativos do grupo impostos pela sociedade.

Efeitos psicossociais são fenômenos que possuem determinações comportamentais e psíquicas e, ao mesmo tempo, sociais. Podem-se analisar três eixos dentro desta esfera: o preconceito, a discriminação e a humilhação social. O primeiro consiste na emissão de pré-concepções relativas a um indivíduo ou grupo, não facilmente modificáveis, mesmo que ocorram de forma automática e irrefletida. Já a discriminação é o ponto prático danoso à vítima, pois mexe com formas de acesso e tratamento na sociedade, colocando em risco direitos e liberdades. Por exemplo, um funcionário da imigração que barra a entrada de um negro em seu país apenas por ser negro. Ambas as práticas juntas produzem uma humilhação social.

Esse último eixo consiste num sofrimento derivado das condições de um rebaixamento público e político, que revelam a subordinação e prisão de um individuo aos estereótipos negativos associados ao seu grupo de pertença étnico-racial. Assim, existe uma impossibilidade de participação na vida social como sujeito histórico e de direitos. “A igualdade pertence ao indivíduo, independente da raça, condição sorológica, sexo ou qualquer outro fator. A diferença pertence ao grupo. Enquanto determinados grupos forem tratados de forma desigual, as pessoas que pertencem à esses grupos nunca atingirão a igualdade ” comentou o professor.

Em relação às causas dos efeitos psicossociais do racismo, existem inúmeras condições que criam uma atmosfera para inferioridade da população negra. Pontos como a falta de um letramento étnico-racial, como a de uma linguagem que permita falar abertamente sobre racismo, podem abafar a voz dos negros em suas lutas e buscas pelo reconhecimento. Do mesmo modo, soma-se um descompromisso em se livrar de vícios linguísticos que os tratam de forma pejorativa. Ao se deparar com um cenário completamente hostil ao seu pertencimento étnico-racial, entendido como marcador social de desigualdades, a frustração do negro pode tomar proporção tamanha que o podem levar a quadros de depressão, consumo de drogas, mutilação, doenças e suicídio.

Ainda sobre os efeitos, estes podem significar rebaixamento não somente social para a vítima, mas também político. Segundo Santos, temos um bom conjunto de leis e marcos regulatórios para a promoção da igualdade étnico-racial no país, mas que são pouco colocados em prática. A Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Africana e Afro-brasileira nas escolas de Ensino Fundamental e Médio, por exemplo, significa um avanço, mas muitas vezes, está parada na prática. Nas universidades a disseminação do conhecimento sobre a cultura e história da população negra ainda é baixo, havendo falta de incentivo ao seu estudo. Além disso, falta políticas que promovam uma redistribuição de recursos frente a uma desigualdade derivada de um histórico escravocrata no país. “Por isso que devemos ter paridade participativa. No dia que você tiver o negro ocupando todos os tipos de cargos e todas as posições sociais, você vai criar modelos de identificação positivos, e gerar a sensação de igualdade”, explicou o professor.

Na contramão deste cenário, o professor iniciou a linha de pesquisa Psicologia e Relações Étnico-Raciais, no Instituto de Psicologia da USP, estruturada em três eixos: história do pensamento psicológico brasileiro na compreensão das relações étnico-raciais; abordagem do tema nos currículos dos cursos de graduação e pós-graduação em psicologia; e atuação do psicólogo no enfrentamento dos efeitos psicossociais do racismo.


Por Isabella Schreen, do USP.com
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