sexta-feira, 6 de maio de 2016

Como passageiros de 1ª classe estão arruinando viagens de avião



Eis uma história real: eu estava no portão à espera de um voo às 6h da manhã no aeroporto de Fort-Worth em Dallas, nos Estados Unidos. O pessoal da companhia aérea havia atrasado e os passageiros estavam ali desde o nascer do sol. Nada estava aberto no aeroporto. Estávamos de saco cheio, claro. "Ninguém pode embarcar ainda", disse o agente da companhia aérea ao mesmo tempo em que, do nada, Skrillex e a galera dele chegaram tranquilões e entraram no avião.

Quis estrangular o cara até chegarmos ao nosso destino.

E, em nome da ciência, ressalto que eu não estava só: "ódio aéreo" –comportamento violento ou desordeiro dirigido a comissários de bordo ou outros passageiros– é uma preocupação real para tripulações.

A crescente ameaça de passageiros putos da vida foi a motivação de um novo estudo, publicado nesta semana no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences, que investiga os impactos da segregação entre classes no tal ódio aéreo. A conclusão é que a raiva em relação ao pessoal da primeira classe é bem comum. Numa escala psicológica, a simples presença de passageiros VIPs pode equivaler a um atraso de 9 horas e 29 minutos no voo.

Aviões são microcosmos de estratificação social. "Passageiros de elite" não só são mais bem tratados como também ocupam uma área restrita e exclusiva no avião. Já os passageiros de classe econômica têm acesso somente ao básico e assentos mais baratos, fato que lhes é relembrado enquanto passam pela primeira classe com assentos de couro e maior espaço durante o embarque.

Dentro de uma hierarquia socioeconômica, a classe de uma pessoa pode afetar sua saúde, bem-estar, emoções e comportamento. E como pôde ser confirmado pelos autores da pesquisa, essa hierarquia pode se manifestar em ambientes de escala menor, como aviões, ao passo em que causam os mesmos efeitos.

"Estudo crime e comportamento organizacional, logo sou naturalmente interessado em desigualdade e justiça. Viagens aéreas e aeroportos tornam a guerra de classes muito aparentes para as pessoas", explicou a principal autora do estudo, Katherine DeCelles, professora associada de comportamento organizacional da Universidade de Toronto, no Canadá.

DeCelles e seus colegas estudaram anos e mais anos de dados anônimos de passageiros disponibilizados por uma grande companhia aérea internacional. As variáveis analisadas pela equipe incluíam incidentes ligados ao ódio aéreo, classes, localização do portão, atrasos em voos e distância de viagem.

Nos aviões, a desigualdade surge de duas formas: física e situacional. A desigualdade física deriva dos passageiros serem alocados em classes estratificadas dentro do avião; já a situacional é o lembrete constante do status do indivíduo como quando passageiros de classe econômica são obrigados a passarem pela primeira classe quando embarcam rumo aos seus assentos.

Os pesquisadores descobriram ainda que incidentes ligados ao ódio aéreo entre passageiros de classe econômica eram quase 400% mais comuns em aviões com serviço de primeira classe. Os passageiros de classe econômica estavam mais suscetíveis a explosões emocionais envolvendo medo e ansiedade enquanto passageiros de elite exibiam maior comportamento raivoso e beligerante.

Aeronaves com embarque frontal também compunham desigualdade física, de acordo com a pesquisa. Relatos de ódio aéreo em aviões que exigiam que passageiros de classe econômica passassem pelos de 1ª classe durante o embarque eram significativamente mais frequentes do que em aviões que possibilitavam embarque pelo meio. Em aeronaves com uma única entrada, o ódio aéreo na classe econômica era 200% maior e absurdos 1100% entre passageiros de 1ª classe que pareciam mais incomodados com eventuais cotovelos esbarrando do que seus colegas de classe econômica.

De acordo com DeCelles, indivíduos de classes mais altas muitas vezes fazem comparações absurdas com os menos privilegiados quando lembrados de seu status de elite, o que, diz, evidencia um comportamento egoísta e desdenhoso.

Está claro que há uma guerra de classes sendo travada nos céus e qualquer um que já voou de econômica provavelmente sabe disso. Mas, como sugerido pela pesquisa, há medidas a serem tomadas pelas companhias aéreas para reduzir o atrito criado pela crescente divisão entre classes de passageiros.

"Soluções comportamentais podem ser implementadas, e as empresas aéreas definitivamente estão experimentando com padrões de embarque e portões duplos", disse DeCelles. "Mas coisas como cortinas divisórias, impedir acesso a banheiro e até mesmo o cheiro de biscoitos fresquinhos da primeira classe podem servir como lembretes de sua situação social às pessoas."

Com assentos cada vez menores e voos cada vez mais caros, o ódio aéreo só deve piorar. Suponho que teremos que dar um jeito de lidar com a injustiça que é voar. Ajuda lembrar que viajar ainda é um luxo e privilégio e, além disso, não importa o quão confortáveis aquelas poltronas de 1ª classe sejam, o Wi-Fi do avião é ruim pra todo mundo.


Via Folha
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