sexta-feira, 6 de maio de 2016

Como escapei do Boko Haram: a história de uma mulher

"Meu marido foi morto na minha frente — ele foi massacrado por 10 homens", lembra Naime Buba. "Minha casa foi incendiada. Muitas pessoas foram mortas. Muitos homens."

Ela está sentada embaixo de um ventilador, numa cadeira plástica com as palavras "Graça de Deus" pintadas atrás. Fora da pequena sala de recepção, a temperatura é de escaldantes 43º C. Para Buba, esse abrigo oferece um alívio do acampamento empoeirado e quente que agora é sua casa, compartilhada com 5.500 pessoas. Estamos no acampamento do governo em Maiduguri, nordeste da Nigéria, apenas um dos assentamentos formais e informais para os 2 milhões de pessoas deslocadas da região onde viviam.

Buba também é apenas uma das vítimas da insurgência de sete anos do grupo militar islâmico Boko Haram — atualmente considerado o grupo terrorista mais mortal do mundo.

Sua cidade, Bama, foi atacada várias vezes, com o Boko Haram inicialmente visando os quartéis militares do local, e depois usando a base para capturar o resto da cidade em setembro de 2014. Buba diz que foi pega como refém exatamente um ano e dez meses atrás.

"Muitas mulheres foram sequestradas comigo. A maioria das mulheres da minha localidade", ela disse. "Muitas fugiram antes deles começarem a sequestrar as mulheres, mas eu estava com meus filhos. Eu não podia fugir e deixá-los para trás."


Naime Buba na recepção do acampamento do governo em Maiduguri, nordeste da Nigéria. (Foto por Sally Hayden/VICE News.)

Buba tem cinco filhos — de 11, 9, 7, 5 e 3 anos.

Ela foi mantida refém pelo Boko Haram por três meses, um grupo conhecido por suaviolência contra as mulheres, incluindo estupros sistemáticos e usar meninas como mulheres-bomba. A experiência de Buba sustenta os relatos de outras ex-reféns. "Muitas mulheres foram obrigadas a casar, e as que resistiam eram mortas", ela disse.

Durante aquela época, eles solidificaram seu controle sobre Bama, a segunda maior cidade de Borno — a capital do estado, Maiduguri, é a maior. O grupo militar controlou o lugar até março de 2015, quando foi derrotado pelo exército nigeriano. Buba disse que durante o tempo em que ficou presa, "Havia muitos combatentes morando na cidade — eu não conseguia contar quantos".

Quando perguntei como eram os militantes, ela respondeu "Só seres humanos normais, mas com cabelo, rosto e cabeça sujos. Eles acham que estão lutando pela causa certa, com respeito ao Islã e tudo mais".

"Quando comecei a fingir que era louca, eles me deixaram ir embora com meus filhos."




Buba — que também é muçulmana — disse que os membros do Boko Haram não tentaram fazer ela se juntar a eles. "Nada assim foi feito. Quando nos sequestraram, eles nos colocaram num grande armazém e trancaram os portões. Eles vinham com alimentos e coisas assim; a maioria das mulheres cozinhava para eles."

Buba só conseguiu pensar em uma saída. "Tive que fingir que era louca, colocando terra no meu corpo e tudo mais", ela explicou.

"Eu colocava sujeira, lama, tudo em cima de mim. Foi difícil convencê-los, eu tinha que usar tudo que tinha à minha disposição. Mesmo se fosse óleo vegetal, eu o derramava no meu corpo. Não foi fácil."

"Foi aí que eles me deixaram ficar com meus filhos", ela disse. "Foi quando me deixaram ir porque não valia a pena me manter lá. Quando comecei a demonstrar loucura, eu não tinha mais valor para eles. Foi fácil assim. Eles me deixaram ir."

Buba e os cinco filhos andaram descalços por três dias, sem comida, até acharem um lugar seguro. Os seis estavam morrendo de fome e ela teve medo que eles não resistissem. "Em certo ponto, achei que ia perder meus filhos."

Buba apontou para os dedões nus, mostrando onde galhos secos e pedras a feriram enquanto eles andavam, e onde bolhas rapidamente apareceram.

"Quando chegamos aqui, meus filhos foram internados no centro médico do acampamento, onde receberam tratamento", ela diz.

As condições do acampamento em Maiduguri estão longe de ser ideais, e os moradores vivem espremidos com pouca privacidade. Quem mora aqui tem duas refeições garantidas por dia: arroz, feijão, farinha de milho e sopa.

Buba não recebeu ajuda psiquiátrica — apesar de admitir livremente que acorda muitas vezes no meio da noite, com pesadelos que a transportam de volta para o mato ou o cativeiro.

"Comparado com estar nas mãos do Boko Haram, aqui é OK", disse Buba, apesar de apenas imaginar, como muitos, quando será seguro voltar para casa. O governo está inclinado a deixar as pessoas deslocadas voltarem para seus vilarejos, mas ONGs operando na região dizem que é perigoso demais. Durante uma visita ao nordeste da Nigéria em abril, a VICE News ouviu vários relatos de mortes e sequestros ainda acontecendo nas áreas mais rurais da região.

"Espero que as coisas melhorem para que eu possa voltar", disse Buba, apesar de não saber como vai sobreviver quando o fizer.

"Antes eu tinha o apoio do meu marido — vivíamos do que ele trazia para casa. Não tenho certeza do que vou fazer quando voltar."

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Tradução: Marina Schnoor


Via Vice.com
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