quarta-feira, 13 de abril de 2016

Racismo e machismo desconstruídos pelo design


Com 19 anos, Giovana Rodrigues é negra e feminista, além de ser responsável pela administração e ilustrações de uma página que busca inspirar mulheres no caminho do empoderamento. Seus desenhos questionam padrões de beleza estabelecidos pela sociedade e apresenta uma interpretação que ressalta a beleza individual feminina. Mosqueando, nome inspirado em uma música do grupo gaúcho Apanhador Só, a página do Facebook possui menos de um ano de vida e já se transformou em sucesso na internet.

Os desenhos são todos de mulheres e com um enfoque especial nas negras. Nas fotografias elas aprecem com cabelo loiro ou um afro todo pintado de azul, com tatuagens, de biquíni e até mesmo como sereias e pessoas de outros planetas. O que importa é fomentar uma discussão sobre os padrões estabelecidos por uma sociedade que teima enxergar as mulheres com um olhar machista e racista. O Afreaka conversou com a artista Giovana para saber mais sobre seu trabalho e ideias.

AFREAKA: Como surgiu o Mosqueando? Pode nos contar um pouco mais sobre a sua trajetória?

Giovana: A página Mosqueando surgiu faz um ano, mais ou menos. Meus amigos insistiam na ideia de que eu precisava postar meus desenhos, e eu tinha receio, faltava confiança; criei a página mas em menos de uma semana tirei ela do ar, desisti por insegurança. E há mais ou menos uns 3 ou 4 meses coloquei ela no ar de novo, porque dessa vez eu senti necessidade disso, senti que era muito maior do que o que eu queria pra mim e pros meus desenhos, eu enxerguei neles uma forma de ajudar outras mulheres, com o empoderamento principalmente. Mas o Instagram tem bastante tempo, há uns 3 anos.


“Descobri a imensidão da importância do empoderamento da mulher no feminismo, e então me aprofundei no feminismo negro.” (Foto: Divulgação) 

AFREAKA: Da onde vem o nome Mosqueando?

Giovana: Mosqueando veio de uma música da banda Apanhador só, chamada “Prédio”, que diz “É tua mira que tá mosqueando” e eu gosto muito dela. Uma vez fui procurar o significado de mosquear e basicamente significa “não produzir nada durante um tempo”, ou ficar no ócio, mas coincidentemente ela também significa salpicar tinta, pintar, e quando fui criar um Tumblr eu me lembrei disso, ai decidi usar.

AFREAKA: Para quem o seu trabalho é destinado?

Giovana: Meu trabalho é para mulheres negras, e fora do padrão de beleza imposto. Às vezes eu faço alguns desenhos para outras minorias, que precisam ser empoderadas, como os LGBTTQI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros, Transexuais, Queer e Intersexuais).

AFREAKA: O Mosqueando traz à tona, de maneira crítica e irônica, o empoderamento feminino, especialmente o de mulheres negras. Qual a sua relação com o tema?

Giovana: Eu comecei o contato com as militâncias cedo, mas era só por meio do estudo de sociologia, me interessava mas não sabia como ou onde militar. E descobri grupos que promovem debates sobre questões sociais, e isso me ajudou mais ainda. Hoje sou feminista negra. Descobri a imensidão da importância do empoderamento da mulher no feminismo, e então me aprofundei no feminismo negro. As pessoas pensam que as vertentes das militâncias servem pra dividir e colocar uma contra outra, e não é assim, cada grupo tem necessidades diferentes, e eu busco principalmente lutar pelas necessidades da mulher negra, já que sou uma delas. O empoderamento dessas mulheres é uma das coisas que precisam ser feitas, e os desenhos vieram pra isso, pra dar poder a essas mulheres. Elas precisam enxergar que são bonitas, elas precisam se sentir representadas, porque elas existem, então por que esconder ou excluir suas belezas? Não faz sentido, elas são lindas.


Nas fotografias as mulheres aprecem com cabelo loiro ou um afro todo pintado de azul, com tatuagens, de biquíni e até mesmo como sereias e pessoas de outros planetas. (Foto: Divulgação) 

AFREAKA: Os seus desenhos têm um teor de luta e resistência. Qual a importância da militância feminista e negra hoje?

Giovana: A sociedade é racista e machista, não tem como negar. O machismo está escondido no cotidiano, como em tornar obrigação da mulher cuidar da casa, cuidar do marido, na violência doméstica, no incentivo que dão para as meninas de priorizar a beleza, a doçura, o conservadorismo, tudo para agradar homens. O racismo está mais escondido ainda, está na piada, está na repressão do cabelo crespo, está no padrão de beleza que exclui totalmente o negro, está nas estatísticas de morte, do não escolarizado, está na falta de representatividade, está na omissão da história do povo negro. E ambos andam juntos em diversas situações. Um dos exemplos que vejo ser discutido com frequência é a solidão da mulher negra, e temos nesse tema sua objetificação e fetichização, como se elas não fossem apresentáveis como namorada, mas fossem boas pra namorar. Não faz sentido, e tem ainda a famosa”questão de gosto” que nada mais é que um molde feito pela sociedade e que as pessoas não percebem.

Muito do que se diz sobre racismo e machismo está camuflado, está em coisas “pequenas”. Mas que atingem de forma brutal as mulheres e os negros. E não devemos fechar os olhos pra isso, é importante quebrar a normatividade em volta de tanta violência, enxergar que é problemático e prejudicial, muitas vezes de forma brutal. Que mulher não sofre com a autoestima baixa? Com a vontade de ser sempre mais bonita, mais magra, mais parecida com alguma modelo? Que mulher negra não sofre pra alisar o cabelo, pra encontrar produtos para sua pele? Para encontrar representatividade? Esses são só alguns dos problemas, ainda existem as mulheres que são mortas em clínicas de aborto, que sofrem violência doméstica e não encontram suporte em lugar nenhum. São diversos problemas, e muitos deles são lidos como algo normal. Então é necessário ir contra quem fecha os olhos pra tudo isso, ou quem reproduz tudo isso. É necessário parar de normalizar essas violências. É necessário valorizar a mulher, e a cultura negra.


Por Bianca Elias Do Afreaka
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