quinta-feira, 14 de abril de 2016

Jéssica Ellen, de ‘Totalmente demais’, fala de racismo: ‘Precisamos ser representados’.


Dandara dos Palmares lutou pela libertação dos negros no período colonial. Mulher de Zumbi, ela teve a mesma participação que o marido nos movimentos de resistência à escravidão do século 17 e, assim como o par, foi presa. Por que poucos conhecem sua história? Jéssica Ellen, atriz de “Totalmente demais”, defende sua ideia, enquanto posa para um ensaio de moda no estilo afrostreet:

— Há pouco ensino sobre a história dos negros nas escolas do país. O conteúdo é superficial. A gente vê as crianças fazendo um desenho de Zumbi no Dia da Consciência Negra, mas não aprende de fato quem foi ele, quem foi Dandara, a sua importância… As danças populares da África não são conhecidas. Sinto falta dessas referências. Nós precisamos ser representados.

Na novela das sete, sua persoangem, Adele, vai sofrer na pele um dos efeitos do distanciamento e do desconhecimento histórico. Ao se passar por namorada de Max (Pablo Sanábio), a booker da Excalibur vai ser discriminada pelos pais do colega. Na vida real, a atriz afirma nunca ter passado por situação parecida:

— Quando a gente tem consciência, a segurança sai pela voz, pelos olhos, pela postura. Chego aos lugares e faço piadas, conquisto as pessoas. Se preciso falar sério, sei também. Isso, comigo, afastou situações do tipo. Sem contar que sou muito questionadora. Não deixo nada passar — assegura.


A autoconfiança e a dedicação fizeram a moradora da Rocinha, de 23 anos, participar de cursos de artes dos 13 aos 19 anos. Antes de sua entrada na televisão — incentivada por uma amiga —, ela manteve sua meta e, mesmo com o trabalho de auxiliar de limpeza numa lanchonete, não abandonou os cursos de especialização.

— Desde cedo, eu fiquei muito na rua. Sempre tive uma rotina de estudo, intensidade, mas eu sabia que aquele era o momento de investir em algo para colher frutos mais na frente — orgulha-se.

Antes de garantir seu trabalho em “Totalmente demais”, Jéssica, que já havia feito “Malhação” (2012) e “Geração Brasil” (2014), teve uma ajudinha do destino: ela se deparou com um “workshop inesperado sobre moda”.

— Uns meses antes da novela, eu estava apresentando um programa sobre o assunto para a internet, o “Canal pop”. Entrevistei profissionais como a modelo Carol Trentini, por exemplo. Naquela época, eu me sentia um peixe fora d’água nesse universo. Foi um aprendizado enorme. Nunca gostei de maquiagem e tinha que me maquiar todos os dias, várias vezes. Hoje, comecei a curtir, a me achar bonita produzida — compara.

Assim que ganhou sua Adele, a atriz ainda precisava fazer outro dever de casa: emagrecer alguns quilinhos. Tentou malhar, mas não suportou. O jeito foi fechar a boca, principalmente para frituras, com o bolinho de bacalhau, sua tentação.

— Como eu sou magra, dois quilos já fazem muita diferença no visual. Na vida, tive algum contato com atividades físicas: fiz dança contemporânea, balé, ioga… Gosto muito dos exercícios que têm uma dinâmica. Mas, quando estou gravando, não consigo fazer essas aulas. Tenho muita dificuldade com academia, que costuma ser mais fácil de encaixar na agenda, mas não tenho paciência. Então, atualmente não faço nada.


Mesmo assim, a atriz exibiu o corpo torneado nos cliques para a Canal Extra. À vontade, além da boa forma, a carioca mostrou desenvoltura não só nas caras e poses, como também na produção. Jéssica fez o próprio cabelo e amarrou seu turbante. O conhecimento é resultado da prática diária, que pode ser admirada entre São Conrado, onde fica sua comunidade, e Curicica, endereço dos Estúdios Globo.

— Eu sempre fui estilosa, modéstia à parte (risos). Mas Adele me inspirou muito… Comecei a comprar roupas parecidas com as que ela usa e, olhando as outras meninas, como a Lu (Julianne Trevisol), passei a ter mais coragem para misturar estampas, por exemplo — conta ela, que busca referências também no cenário musical para compor sua imagem: — Dei uma afinada nas unhas para ficarem pontudas com as da Beyoncé. Ela é uma diva, a minha maior inspiração.


Para Jéssica, a cantora é mais um exemplo da representatividade negra. Mas ela critica a construção de imagem que ainda se fortalece no país.

— Muitas vezes, há o estereótipo da mulata linda que samba e não sei mais o quê… Comigo isso não aconteceu, pelo menos por enquanto. Acho que a minha carreira começou com uma geração que tem uma nova oportunidade. O Brasil é um bebê em muitas questões. Mas acho que as coisas podem mudar.

Créditos

Fotos: Thiago Freitas / Produção de moda: Amanda Lacerda e Camille Magalhães/ Beleza: Alline Rosa/ Agradecimento: Campo de Santana/Fundação Parques e Jardins




Por Thayná Rodrigues Do Extra
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