sexta-feira, 1 de abril de 2016

Cor da pele interfere até na ação policial, dizem pesquisadores

No DF, porém, o número de mortes por intervenção da PM é menor do que em outras unidades da Federação

Everson de Melo Pereira tem 22 anos e poderia ter entrado nas estatísticas que vitimam a juventude negra brasileira. Nascido no Rio de Janeiro, ele lembra que, desde criança, a sua cor causava desconfiança nas pessoas ao redor. “Sou adotado, e minha mãe é branca. Se entrássemos em uma lanchonete, ela precisava dizer que era minha mãe, senão queriam me tirar de lá.” Crescer não trouxe grandes diferenças na relação social que estabelecia. Ao contrário: o peso da cor se tornou ainda mais notável quando ele passou a ser constantemente interpelado pela instituição policial. “Lá no Rio, preto e pobre é sempre bandido. Tive boa educação toda a vida, mas aquela discriminação constante me fez ter raiva. Cheguei a apanhar da polícia sem razão alguma. E isso foi um dos motivos que me fizeram entrar para o crime.”


Iranildo Gonçalves lembra-se de que já apanhou da polícia: “Nós negros aprendemos desde moleques que temos de respeitar a instituição policial”

Antes de fazer parte do percentual de 18,2% que representa o aumento da taxa de homicídio de afrodescendentes entre 2004 e 2014, como aponta o Atlas da violência 2016, Everson ganhou mais uma chance em Brasília, onde hoje trabalha como colaborador na Casa de Reintegração Mar Vermelho — instituição que oferece apoio para a recuperação de dependentes químicos. Mesmo depois de ter mudado o caminho, ele garante que a relação com os policiais continua a mesma. “Já fui parado várias vezes. Eles sempre perguntam o que estou fazendo aqui, que, se eu cometer algum crime, vou morrer, e que deveria voltar para o Rio”, relata Everson, que não tem dúvidas: a situação não se repete com a mesma intensidade quando os jovens em questão não são negros. Quando analisados só os registros policiais, a instituição policial em Brasília fica entre as menos letais do Brasil.

Subnotificação

Dados apresentados pelo Atlas da violência 2016 apontam que, entre 2013 e 2014, houve nove mortes por intervenção legal no Distrito Federal, um número considerado ínfimo quando comparado com estados como São Paulo, no qual 1.579 pessoas morreram vítimas da polícia, ou Rio de Janeiro, onde foram mil óbitos dessa categoria. Porém, a subnotificação pode ser uma das razões para que os números sejam tão baixos. Daniel Cerqueira, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), responsável pelo Atlas, explica que há necessidade de cobrar das instituições policiais maior responsabilidade nas notificações das mortes decorridas de ações da polícia, bem como uma autoanálise da corporação relativa ao uso da força.

“Há uma diferença clara nas abordagens no que toca as populações negras e brancas. O uso da violência não é homogêneo. Há um gradiente de força que depende da necessidade e da legalidade da situação que o policial está envolvido. Mas há um desvio nessas abordagens quando elas acontecem na periferia, onde estão grande parte desses jovens negros”, garante Cerqueira. Para o especialista, são três as razões que fazem com que a polícia tenha um comportamento diferente quando precisam lidar com a população negra. “O primeiro, que não tem relação com a raça, é o fato de que a polícia no Brasil é fora de controle. Ela mata e morre demais. O segundo é relativo ao racismo institucional, que causa um reforço de características preconceituosas que estigmatizam essa parcela da população”, explica.

E o terceiro, e mais grave, para Daniel, é um efeito direto desse racismo institucional: a ideologia racista que ainda está no cerne da sociedade brasileira faz com que o status da morte seja diferente, a repercussão do homicídio de um jovem negro é menor que a de um jovem branco. “Com a inflamação causada pela mídia, a polícia se sente obrigada a trabalhar com mais afinco para resolver determinados casos, demonstrando o que, de fato, a sociedade valoriza.”

Iranildo Gonçalves, presidente da Associação Cultural Azulim, garante que essa realidade se repete desde a adolescência. Aos 45 anos, sendo 20 deles à frente de uma organização que defende a cultura negra, ele diz se lembrar de vários momentos da juventude nos quais a cor da pele fez com que ele se tornasse um suspeito. “O pior deles foi quando eu levei um tapa na cara”, recorda-se. Gonçalves conta que falava com três amigas, todas brancas, quando policiais o abordaram de forma truculenta. Ao questionar o porquê daquele tratamento, apanhou. “Não havia razão para aquilo. Nós negros aprendemos desde moleques que temos de respeitar a instituição policial, principalmente porque sabemos que existe a violência em relação a nós. A gente consegue perceber que até mesmo policiais negros, talvez por estarem usando farda, esquecem que são negros”, afirma.

Mudança

Mesmo assim, tanto Iranildo Gonçalves quanto Daniel Cerqueira acreditam que o Brasil vive um momento de transição, no qual vários representantes da entidade policial começam a perceber o quanto é necessário um processo de humanização na instituição, até para que ela possa ter, também, mais segurança para exercer seu trabalho. “Basta ver o que aconteceu quando a polícia começou a ver no Azulim um parceiro. Hoje, temos um trabalho de parceria, mostrando que ações como a nossa são necessárias, mostrando que podemos ser aliados”, acredita Gonçalves.

De acordo com subsecretário de Gestão da Informação da Secretaria de Segurança Pública do DF, Marcelo Durante, a corporação passa, agora, por uma mudança de cultura no que toca a notificação de casos. Ele afirma que a pesquisa de vitimização que está sendo finalizada pela pasta trará dados mais detalhados sobre pontos como a cor da pele. “Isso vai nos ajudar a desenvolver políticas de segurança mais eficazes”, assegura.


por Rafael Campos no Correio Braziliense
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