terça-feira, 15 de março de 2016

Milton sobre o amigo Naná Vasconcelos


"Quando cheguei ao Rio encontrei Dom Um Romão, Edison Machado e Victor Manga. Ficava difícil pra mim, que vim do Nordeste, me encaixar naquela cena. Então encontrei Milton, que precisava de mim, como eu precisava dele". (Naná para a Modern Drummer)

"Um dos momentos mais bonitos da minha vida foi quando Naná Vasconcelos chegou sem avisar na casa onde eu morava, na zona sul do Rio. Isso aconteceu nos idos de 1968. Ainda na porta, mal nos cumprimentamos e ele foi logo dizendo:

__Vim de Recife pra tocar com você.

Mesmo desconfiado, o deixei entrar. Naná foi direto pra cozinha, catou tudo que viu pela frente e começou a fazer um som incrível com panelas, frigideiras, garrafas e copos. Nessa época, eu estava gravando um disco pela Odeon, e assim que acabou a primeira música com ele tocando as panelas, perguntei:

__Naná, o que você vai fazer amanhã?

No dia seguinte, levei Naná para o estúdio comigo. Era o terceiro disco da minha carreira. Entre as gravações, ele me contou melhor a história de que tinha vindo de "Recife só pra tocar comigo". E sempre que o via contando esse caso em entrevistas, as palavras dele me faziam sentir o cara mais sortudo do mundo. Imagine o privilégio: uma alma elevada como a de Naná vir especialmente ao seu encontro? Uma benção para poucos.

Depois daquele encontro no fim dos anos 60, Naná e eu vivíamos sempre juntos. Levei ele ao encontro dos Borges em BH, gravamos com Som Imaginário, no Milagre dos Peixes, e dali pra frente jamais nos separamos tanto na vida quanto na música.

Outra lembrança forte com Naná da qual eu nunca me esqueço foram nossas temporadas nos EUA. Numa delas, passamos um tempo em Nova York num apartamento com vista para o imponente Empire State. Nos primeiros dias, Naná percebeu que as luzes do edifício se acendiam religiosamente às 18h. Ele então teve a ideia de descer numa loja de eletrônicos e comprar um espalhafatoso botão liga-desliga e o instalou num lugar de destaque na sala do apartamento. E todas as vezes em que Naná estava em casa perto da "hora do Angelus" (principalmente em dias de visita), ele chegava perto do botão e fazia seu número de "acender" o Empire State, para delírio e gargalhadas gerais.

Na abertura do Carnaval de Recife de 2013, Naná me convidou para cantar com ele no tradicional encontro dos grupos de Maracatu. Foi a última vez em que tocamos juntos. Na noite anterior, Carminho e eu fomos até sua casa, em Olinda, e Naná nos recebeu com uma grande festa. Tocou de tudo, contou histórias e passou praticamente o tempo todo me agradecendo por ter vindo ao carnaval. Mas era eu quem devia aquilo a ele, foi uma das noites mais emocionantes que tive num palco. E depois da abertura dos Maracatus - Naná, com uma generosidade sem tamanho - arrumou os instrumentos no chão - como gostava de fazer - e se juntou aos músicos de minha banda (Lincoln Cheib, Wilson Lopes e Gastão Villeroy) tocando o show inteiro com uma energia rara e tirando um som de tamanha beleza que nenhum outro músico do mundo seria capaz. Naná fazia mágica, estava além da música. Ele sim, uma força extrema da natureza.

Da última vez que nos falamos, ele tinha acabado de sair do hospital. Mas nem conseguimos conversar nada sério, Naná não parava de contar suas histórias, uma mais engraçada que a outra. E eu que tinha ligado pra dar uma força, acabei recebendo uma carga de energia positiva que só poderia vir de um ser iluminado como Naná.

Assim era Naná, e exatamente assim que eu quero lembrar dele.

Milton, Rio, 9 de março de 2016


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